Crónicas satânicas de Rodrigo Emílio
Por 1982 publicou o Rodrigo Emílio no semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, algumas “crónicas satânicas”, colocadas expressamente sob a égide evocadora de Céline, “bagatelas para um massacre”.
Transcrevo uma das crónicas, ora amarga ora bem humorada, em que não escapa às alfinetadas o então novo “Futuro Presente”, fundado no ano anterior por Jaime Nogueira Pinto, António Marques Bessa, António Maria Pinheiro Torres, Nuno Rogeiro, Vítor Luís, Duval Bettencourt Gomes e Manuel Avides Moreira.
Era também a época em que a aragem que vinha da Polónia começava a sentir-se em todo o Ocidente.
Perguntas e (más) respostas
P. - Para variar, não quererás responder hoje ao questionário de Proust?
R. - Bem sabes que nunca gostei de me “proustituir”.
P. - Sendo assim, não insisto. Já vejo que pouco mudaste.
R. - Enganas-te, meu velho. Dantes, era eu um português “de longo curso” ...
P. - Então, e agora?
R. - Agora, sou um português “de via reduzida”.
P. - Morador?
R. - Na Avenida das Descobertas, 108, - 5º Império.
P. - Profissão?
R. - Candidato a “deportado”.
P. - Por onde?
R. - Pelo Jardim Etológico de Lisboa.
P. - Estado: interessante?
R. - Não. Deplorável.
P. - A brincar, a brincar, quantos anos tens tu?
R. - Tenho trinta de liberdade e sete de democracia. Logo... deita-lhe as contas.
P. - A teu ver, que resta hoje do “peito ilustre lusitano”?
R. - Restam umas quantas “peitaças” de comício ... e pouco mais.
P. - A tua ocupação favorita?
R. - Perder tempo. Adoro perder tempo.
P. - Nesse caso, porque não te transferes para o futuro presente?
R. - Mal por mal, prefiro ficar-me pelo “passé simple”.
P. - Pois acho que fazes pessimamente. O futuro presente, tanto quanto sei, é hoje uma “coutada” muito concorrida.
R. - Foi sempre e sempre há-de ser. Nesta e em todas as repúblicas do mundo ...
P. - Se não é pedir-te muito, pretendia, já agora, que arriscasses um diagnóstico sobre os males que afligem a 2ª República.
R. - A 2ª República debate-se com os problema da 3ª idade. E se a idade não perdoa, a 3ª muito menos ... Bem o sabes por ti. Que mais queres que eu te diga?! ....
P. - Olha lá, menino: que cheiro esquisitíssimo vem a ser este?!....
R. - Tens razão. Cheira a “água de Polónia” que tresanda!... Mas é bom sinal. Não te dê isso cuidado.
P. - Que tens sido na vida?
R - Um paciente coleccionador de facadinhas nas costas.
P. - Lá inimigos, portanto, atrais tu ...
R. - Em quantidade que davam para formar, à vontade, uns oito pelotões de fuzilamento!
P. - És nacionalista?
R. - O mais possível.
P. - E exerces?
R. - Faço o que posso.
P. - Flor que mais prezas?
R. - A flor-de-lis.
P. - Flores que te despertam maior antipatia?
R. - As flores de retórica.
P. - Qual é a reforma que mais admiras?
R. - A Contra-Reforma.
P. - Que gostava tu de ser neste mundo?
R. - Agente secreto de Deus.
P. - Por que razão?
R. - Cá por coisas ...
P. - Cor que sobremodo abomines?
R. - A cor de convicção quando foge.
P. - .......................!
R. - E por hoje, meu velho, encerrei para obras. (Para obras literárias, bem entendido....) Assim sendo põe-te a mexer. Desampara a loja. Vai “chagar” outro!
Rodrigo Emílio


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