segunda-feira, novembro 17, 2003

Eça de Queiroz em Évora

Os factos assentes e geralmente conhecidos são simples e fáceis de resumir.
José Maria d’Eça de Queiroz formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1866. Em Dezembro desse ano, com 21 anos, surge em Évora expressamente para fundar e dirigir o bissemanário da oposição “Districto de Évora”.
Logo a 6 de Janeiro de 1867 foi publicado o primeiro número do periódico. Daí em diante dedicou-se a escrever o jornal, que lá foi saindo todas as Quintas-feiras e Domingos.
A redacção e administração (substantivos colectivos que serviam, como muitas vezes ainda acontece, para encobrir realidades efectivamente singulares) estavam instaladas na Praça D. Pedro IV, n.º 3-A. Ou seja, traduzindo para os eborenses de hoje, ficavam naquele primeiro andar por cima da Pastelaria Violeta, mas com entrada pela Praça Joaquim António de Aguiar, o popular Jardim das Canas, onde está aliás colocada uma lápide evocativa da presença do escritor nesta cidade.
Na edição de Domingo dia 4 de Agosto de 1867 o jornal publicava uma curta nota de despedida em que Eça secamente declarava que “desde o dia 1º de agosto deixou de ser o redactor e diretor político do jornal “Districto de Évora”, e, desligado da empresa fundadora, dá como terminada a sua responsabilidade material, moral, politica e litteraria”.
Esse número de 4 de Agosto já ostentava como “proprietário e responsável” Francisco da Cunha Bravo, a quem a empresa tinha sido trespassada.
Portanto, o último número da responsabilidade de Eça foi o de Quinta-feira dia 28 de Julho de 1867.
Entretanto, nesse mês de Agosto de 1867 o nosso escritor regressou para Lisboa, de onde tinha vindo pouco mais de sete meses antes.
Tudo isto é por demais conhecido, e felizmente estão também publicados os escritos do “Districto de Évora”.
Mas aqui ao Manuel Azinhal sempre o intrigou o que nesta história não é conhecido (pelo menos não encontrei explicado em parte nenhuma, pode ser que seja ignorância crassa).
Repare-se na expressão usada por Eça: declarava-se desligado do jornal “desde o dia 1º de agosto”; não desde o dia 28 de Julho em que tinha saído o último número dirigido por si.
Terá isto algum significado? Seria que o contrato que o trouxe tinha duração convencionada até final do mês de Julho?
Não sei. Mas não tenho dúvidas que contrato havia. Dizendo claramente (esperando que ninguém se ofenda...): Eça de Queiroz, que nada ligava a Évora e que nunca aqui havia posto os pés, era evidentemente uma caneta alugada.
Um rapaz talentoso, que já se tinha feito notar pela sua queda para as literatices e para a polémica, que estava recém formado, e desempregado. Alguém terá conhecido o moço, já apontado como brilhante valor da nova geração, e que em Lisboa procurava glória – e no imediato pelo menos algo que lhe garantisse a sobrevivência – e lhe fez uma proposta que ele no momento não podia recusar..
Teria que ser alguém que frequentasse o meio social, político e literário lisboeta. E alguém com interesses e actividades políticas na oposição de então. E alguém cujos interesses estivessem sediados ou fortemente ligados a Évora.
E, evidentemente, alguém com capacidade financeira para criar e sustentar um jornal em Évora, e contratar, instalar e sustentar também o encarregado de tal tarefa, o nosso José Maria.
Quem seria que pagou o “Districto de Évora”, e pagou também, consequentemente, a estada de Eça de Queiroz em Évora?
Estas são as questões mais relevantes para a história do “Districto de Évora”, e para a compreensão da política local nesse curto período.
Não sendo eu um conhecedor profundo da vida política e social da cidade no período em causa, tenho no entanto uma suspeita. Só vejo um capitalista que a meu ver reunia os requisitos todos que enunciei, e com interesses políticos e económicos em Évora que justificavam o empreendimento. Mas é apenas palpite, intuição – nada tenho para o comprovar. Deixo o assunto para quem saiba mais.