Fala apócrifa de Camões para hoje
Exaltei o passado, num presente
Triste, apagado, vil.
Mas havia o futuro, mar em frente,
Para epopeias d’África e Brasil.
Doído, condenei,
A cobiça e a traição.
Mas tinha, ao alto, um rei
Por pai e capitão.
Só quando a pátria amada
Cedeu às ambições alheias,
A minha voz ficou calada,
Parou o sangue em minhas veias.
Só quando o rei de Portugal
Deu a alma ao Céu
E o corpo nu no areal
Não mais, musa, não mais fui eu.
Quis quanta vez ressuscitar!
Bastava um rasgo de heroísmo,
Asa de esperança, súbito, a rasar
O abismo.
E logo o pulso me pulsava,
A voz subia na garganta
E o que há de mim em mim gritava:
Canta!
Mas novas nuvens da desgraça
Encobriam as praias portuguesas
E o ímpeto da raça
Naufragava em baixios e baixezas.
Hoje, o presente
É ainda mais vil e apagado e triste
Porque, no mar em frente,
Nenhum futuro existe.
A cobiça e a traição,
e não um rei, é hoje quem governa:
dorme, pois, para sempre, coração!
Sê tu, silêncio, a minha pátria eterna!
António Manuel Couto Viana
(publicado originalmente em “A RUA”)


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