sábado, novembro 08, 2003

João Conde Veiga

Em tempos, julgava que Vila do Conde se chamava assim por ser a terra do João Conde Veiga (conhecido vilacondense ... nascido em Soure); depois cresci, e aprendi que não, também era a terra de José Régio, e outra gente boa – e parece que se chama assim desde há muitos séculos.
Entretanto, passaram anos, décadas mesmo. João Conde Veiga continua a batalhar por Vila do Conde.
Eu por mim fazia-o Presidente da Câmara. O que a cidade ganhava, com um poeta, e guitarradas de Coimbra!
Mas deixemos os sonhos, e vamos às memórias.
Em Outubro de 1966 completavam-se dez anos sobre o levantamento de Budapeste contra o regime comunista. Assinalando o aniversário da revolta, o “Itinerário”, revista de actualidade cultural, então publicada em Coimbra, publicou um vibrante editorial do seu director, João Conde Veiga, sobre os acontecimentos trágicos e heróicos de dez anos antes.
E para ilustrar a homenagem acrescentou algumas belas fotos desses acontecimentos, e um poema alusivo, do próprio director.
O aniversário das chacinas que sobrevieram à revolta, nesses, já longínquos, últimos dias de Outubro e primeiros dias de Novembro do ano de 1956, passou agora, sem uma palavra que o lembrasse nos grandes meios de comunicação de massas.
Hoje a Hungria já não está ocupada pelos blindados soviéticos, nem amordaçada pelo regime comunista. O sangue dos mártires de 1956 frutificou em novas auroras de liberdade.
Mas tantos mortos, tantos !!!
Fiquemos antes pelos versos.


Já o vento se levanta
na bruma d’alvorecer
o poeta espera e canta
milagres d’acontecer.
Mil rosas caem das mãos
esparsas pelos caminhos
apanham-nas os irmãos
que nas vão dar aos vizinhos.
Aberta bruma desperta
os ritmos do coração
jorra luz da noite aberta
colhe-se o gládio na mão.

Quem desvendou o antigo
solo do meu país?!
Quem profanou, inimigo,
os nossos numes civis?!
Quem colheu a nossa espiga
no campo fértil do rio?!
Quem subjugou à quadriga
cavalos do nosso brio?!

É vingança em nós clamada
A vingança que não cala,
Vem desperta a madrugada:
É só colher, ir buscá-la!



João Conde Veiga