Lucas Pires e Brasillach
Também em Portugal o fascínio de Brasillach exerceu intensa atracção sobre inúmeros jovens intelectuais que descobriam através dele “o fascismo imenso e rubro”, numa imagem vigorosa e pura, longe dos compromissos e das concessões a que o tempo, a política, e o poder, por vezes obrigam.
A figura do jovem poeta condenado à morte que, ouvindo a sentença, na sala de audiências em que alguém exclamava “c’est une honte!”, logo corrigia “c’est un honneur!”, inflamava os espíritos e os ideais.
O fuzilado de Fresnes foi aliás motivo de inspiração ao longo dos anos para sucessivos autores: assim de memória estou a lembrar-me de poemas, estudos ou simples artigos de Rodrigo Emílio, José Valle de Figueiredo, João Conde Veiga, Amândio César, António José de Brito e .... Francisco Lucas Pires.
Durante toda a segunda metade da década de sessenta um dos mais empenhados e entusiastas clercs da militância coimbrã, da geração que começa no “Combate” e culmina no “Itinerário”, na “Oficina de Teatro”, e na “Cidadela”, foi Francisco Lucas Pires.
O pequeno artigo que aqui transcrevo, fica como uma curiosidade datada. Lucas Pires, nascido em 1944 e falecido em 1998, teria 20 anos quando o escreveu.
“Comme le temps passe …”
Brasillach cumpriu-se...
Brasillach veio declarar a violência ao seu mundo, e mataram-no.
Desde Cristo que é assim: os que vieram para escandalizar são mortos, mas depois regressam e já ninguém se pode libertar da sua escandalosa presença.
Aos carrascos deixou a sua morte - o remorso; a nós deixou-nos a sua vida - o exemplo.
Exemplo de juventude que se identifica pela insolência e pelo espírito, ele foi novo até na generosidade com que dispersou os seus talentos. Até nisso integral.
A juventude é uma coisa e a idade outra. Mas a Brasillach nem sequer foi permitido atingir a idade em que os homens se costumam tornar velhos. Melhor: assim nos ficou a memória de uma imagem de juventude inteira: da física e da espiritual.
Foi ainda dessa maneira total que ficou connosco. O seu testemunho não está destinado à guarda dum erudito conservador de museu - está destinado à fidelidade dos seus voluntários camaradas - .
Por isso melhor cumpriremos, colectivamente, a tarefa e o cinismo de o testemunhar. É a melhor homenagem que devemos à sua magnífica lição de camaradagem - a nossa própria camaradagem.
A sua permanente atitude de afronta contra a hipocrisia e o cinismo e a audácia com que se manifestou a coragem reúnem-nos de novo, para confirmar a unidade original do espírito na unidade da acção.
Brasillach cumpriu-se: «Daqui a 20 anos ouvirão outra vez falar de nós». Ele preveniu-os.
Francisco Lucas Pires (Diário da Manhã, Fevereiro de 1965)


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