Mestre Alberto Cutileiro
Não sei se algum dos leitores foi alguma vez afectado pelo vírus do coleccionismo, do modelismo, ou a mania das miniaturas, da construção, da reprodução à escala - ou se tem algum amigo assim, doido por soldadinhos de chumbo, uniformes, kits de aviõezinhos e tanques, sonhando reproduzir batalhas e regimentos, enchendo garagens e sótãos com prateleiras alinhadas em parada, ou de peças desalinhadas do equipamento militar a montar e a pintar, de mistura com óleos, tintas e pincéis.
Deve ao menos conhecer um doente assim.
Nesse caso, não erro se afirmar que já ouviu falar da "Casa do Cavaleiro à Porta".
É um lugar lendário, um centro de culto onde todos vão procurar o que em mais sítio nenhum se encontra, ou o esclarecimento e a informação impossíveis de encontrar.
É assim há muitas décadas. Nenhum maníaco no país inteiro desconhece a "Casa do Cavaleiro à Porta", na Rua das Furnas, em São Domingos de Benfica, bem perto da Igreja das Furnas e do Jardim Zoológico de Lisboa, anunciada na rua por aquela singular tabuleta com o cavaleiro pintado.
E certamente que aquele que falou do lugar falou também da figura mítica que ali se encontrava; o sumo sacerdote daquele culto, o supremo artista das reproduções e dos restauros, o sábio que podia desfazer qualquer dúvida sobre a minúcia que faltava. Curiosamente, a generalidade dos fanáticos que falavam na casa e no personagem ignoraram sempre o nome; mencionavam sempre o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta .... e também não sabiam que do mundo inteiro afluíam solicitações idênticas.
Para a minha geração, distraída, ele foi sempre e apenas o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta; faleceu ontem, com 89 anos.
Para quem o conhecia mais de perto era o Mestre Alberto Cutileiro, artista eborense, antigo Director do Museu de Marinha, exímio desenhador, pintor e restaurador, com atelier na capital.


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