"Não pagamos! Não pagamos! Não pagamos!"
Contaram-me há muitos anos uma pequena história dos anos sessenta, em que o protagonista era um cineasta italiano, não sei se Fellini, numa ocasião em que passava na rua e calhou ver-se no meio de uma daquelas batalhas rituais entre um grupo de estudantes universitários, militantes de causas de extrema-esquerda, e a polícia chamada para dominar o tumulto. No meio da gritaria ouviam-se slogans que falavam em "filhos do povo".
O tal cineasta passante fazia ponto de interrogação e questionava: "filhos do povo? Mas onde estão os filhos do povo? São os estudantes ou os polícias?"
A estorinha lembrou-me muita vez, sobretudo no tempo em que frequentava a universidade; como era chique aquela malta! No meu tempo, conheci na Faculdade de Letras de Lisboa, como activissimos líderes trotskistas, pelo menos um conde e um marquês ...
Veio-me isto agora de novo à lembrança devido ao cíclico recrudescer das manifestações dos sofredores estudantes universitários portugueses.
Como vibram aquelas almas com as injustiças deste mundo, em viva solidariedade com os deserdados da fortuna!
Como são elevados e generosos os sonhos que os alimentam!
Nem me atrevo a comentar, tal a delicadeza dos sentimentos que estão à vista.
Enfim: a propósito do triste espectáculo da contestação protocolar, reverenciada por todo o mundilho venerador da falsa irreverência, convencional e pré-programada, surripiei uma síntese brilhante ao vizinho Isidoro de Machede, que pode não ir comigo à missa mas é bicho da terra, autêntico e verdadeiro, com a escola da vida, e não franguinho de aviário criado a farinhas, hamburguer e cola.
Mote principal: “Não pagamos”.
É curto, muito curto. Esperava que dissessem que esta universidade não serve porque está desligada da realidade. Esperava que proclamassem que esta universidade não serve porque vive olimpicamente fechada sobre si mesma, ignorando, regra geral, o local e a região onde está instalada. Esperava que se insurgissem contra o facto da maioria dos cursos existentes estarem descontextualizados do mercado de trabalho. Esperava que se rebelassem contra esta universidade por continuar a produzir funcionários “doutores” cinzentos para um país cinzento. Esperava que propusessem uma discussão séria e alargada sobre a universidade que faz falta na construção de um país a cores.
Nada disto, antes pelo contrário. Continuam apenas bem trajadinhos e defensores de práticas iniciáticas do tempo da maria cachucha, verdadeiramente ofensivas da dignidade a que cada um tem direito. Quanto a reclamações, ficamos pelo “não pagamos” aconchegado de mais uma mão mal cheia de ideias atamancadas, manifestas sob a forma de uma fotocópia truncada de um tempo em que ainda não havia fotocópias.
Onde deveria haver pujança, rebeldia e ideias inovadoras, há apenas um reflexo de uma anquilosada juventude desentendida com um país igualmente desentendido consigo próprio. Vamos longe!


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