O PERIGO ESPANHOL E OLIVENÇA
Não pretende este trabalho analisar profundamente o problema do “Perigo Espanhol”, mas tão só reflectir sobre um caso concreto, muitas vezes relacionado com a problemática de se tentar “adivinhar” qual poderia ser o futuro de Portugal se, por qualquer motivo, ficasse sob o domínio de Madrid.
Antes, talvez seja de recordar as palavras de Jordi Pujol, dirigente da Catalunha, ao “Expresso” de 12 de Outubro de 2002: «...imagine que em 1640 a sublevação Portuguesa tinha sido derrotada, e que desde então até hoje Portugal estivesse incorporado (...) em Espanha; Portugal teria sofrido a supressão das Instituições Políticas, do poder Administrativo Português, a perseguição da sua cultura e a proibição do ensino do Português nas escolas, na administração, na comunicação social e, inclusivamente, durante muitas e muitas décadas, a proibição de que se editassem livros em Português ou até mesmo que se desse catequese em português. Imaginem (...) que hoje a Praça dos Restauradores se chamasse Praça Felipe III e a Alameda D. Afonso Henriques se chamasse Alameda Felipe I.»
Será interessante discutir se Jordi Pujol estará ou não a exagerar. Não nos é possível saber o que sucederia exactamente se Portugal tivesse perdido no conflito de 1640-1668. Ao fim ao cabo, só há um caso concreto, e é esse que aqui se vai analisar, de um território de cultura portuguesa unido com Madrid. Trata-se da região de Olivença.
Não é possível saber se, unido a Espanha, Portugal seria transformado numa Gigantesca Olivença. Talvez a dimensão de território e o peso da população não tivessem permitido tal. Todavia, mesmo sem se chegar à situação do “Território das Oliveiras”, causa alguma apreensão pensar simplesmente que se poderia chegar a uma situação intermédia, de tal forma negativa em certos aspectos ela se apresenta hoje em Olivença. É que... intermédia seria ainda bastante mau!
Já se sabe. Olivença foi conquistada por Espanha em 1801. Segundo a interpretação diplomática portuguesa, o tratado que se seguiu foi anulado em 1807, e tal anulação foi reconhecida pela Europa em Viena de Áustria em 1815, em documento assinado por Madrid em 1817.
O problema começa aqui. Mais de 80% dos Oliventinos desconhece tais factos, e acreditam que Olivença foi trocada por Campo Maior, ou que veio para Espanha no dote de uma Rainha, ou qualquer outra historieta sem fundamento histórico.
Mas há mais. Em nenhuma escola de Olivença se ensina a verdadeira História da região, mas tão só a História de Espanha. E isto desde há duzentos anos. O Oliventino cresce a aprender (e a lutar por) uma história que não é sua.
É verdade que se ensina português em Olivença actualmente. Mas só no Ensino Primário. No Secundário, tal não foi autorizado. E, claro, aprende-se o Português como algo de folclórico, algo de exterior à região. O velho português alentejano, falado pelos idosos, é desvalorizado. Não há continuidade geracional.
A nível de consciência colectiva, o Oliventino tem poucas referências. Os seus apelidos e a toponímia, sempre que possível, foram adulterados, traduzidos, mudados. E não vislumbram esforços no sentido de reverter tal situação.
Os apelidos “sobreviventes” são explicados das formas mais engenhosas possíveis. Por exemplo, a mais comum é dizer que se tem um antepassado vindo de Portugal. Após falar com vinte oliventinos, mais de metade afirma ser essa a origem do seu nome. Donde se conclui, com espanto, que das duas, uma: ou os locais não têm consciência de que os nomes eram quase todos portugueses na sua terra durante séculos e séculos, ou que vagas de imigrantes portugueses escolheram misteriosamente a região de Olivença para se instalarem... opção obviamente ilógica.
Como se imagina, é desconcertante ouvir dizer que nomes como “Vidigal” ou “Valério” são espanhóis... principalmente neste último caso, pois um dos heróis da resistência Lusófona em Olivença chamava-se Vicente Vieira Valério, que, por não querer escrever em castelhano, ficou sem recursos para sobreviver. Contam-se pelos dedos das mãos os oliventinos que conhecem este nome.
É chocante ouvir um professor de História de Olivença, de apelido Silva, dizer que os Portugueses não devem reclamar o território, tal como os espanhóis não reclamam Campo Maior...
Muitos outros exemplos podiam ser dados, como o de se argumentar que o nível de vida é superior em Espanha (nunca se diz que já foi superior em Portugal; nessa época a Ditadura Franquista reprimia todo o sentimento português; e, claro, esquece-se que o nível de vida de Gibraltar é superior ao de Espanha), o de se dizer que Olivença só cresceu sob domínio espanhol (recorde-se que, em 1801, Olivença era comparável a Elvas e Badajoz, e que no século XIX decresceu... mesmo porque muita população foi obrigada a refugiar-se em Elvas, Alandroal, Vila Viçosa, etc. ), ou o de se dizer que entre 1297 (Tratado de Alcanizes ) e 1801 Olivença foi território espanhol ocupado por Portugal!!!
Apenas os Monumentos dão aos Oliventinos alguma noção de que algo não-espanhol existiu na localidade... e mesmo assim com algumas confusões. O casario, tradicionalmente igual ao meridional português, vai sendo demolido ou abandonado. As chaminés alentejanas vão desaparecendo... bem como as janelas estreitas e os “poiais”.
As autoridades locais, mais “abertas” em democracia que noutros tempos, não conseguem resolver tais contradições. Pelo menos os monumentos estão muito bem cuidados e aproveitados, e nesse campo só se pode aplaudir. Mas... são corpos sem “alma”!
Todavia, mantêm-se vivos inúmeros preconceitos antiportugueses, baseados em concepções “culturais” absurdas, falseadas, mesmo xenófobas. Que não nasceram do acaso. Houve uma “Desportugalização” intencional e legislada (não esquecendo a proibição da língua desde o século XIX), variando de intensidade mas sempre presente, e nunca esquecendo a repressão franquista, época em que tal política foi particularmente intensa.
È espantoso o que se pode encontrar em Olivença, se se aprofundar a análise Histórica aos aspectos sociais, culturais, económicos, ou outros. É toda uma destruição de uma cultura, uma negação da história, uma perversão das consciências.
Dir-se-á que Olivença é uma região de 454 quilómetros quadrados, e um caso pontual. Como alguém já disse, uma “ Borbulha” nas relações Luso-Espanholas.
E, contudo, uma “ borbulha “ com duzentos anos, tratada com tanto desrespeito na sua substância, submetida a tantos atropelos, não permite encarar com optimismo uma eventual União de Portugal e Espanha.
Talvez Madrid ainda não o tenha compreendido, mas a sua persistência em não reconhecer dúvidas (diplomáticas) sobre a posse do território, em “calar” qualquer queixa portuguesa, alimenta, e muito, aquilo que alguns consideram um mito: o “Perigo Espanhol”.
Mas diga-se também, em abono da verdade, e quase a concluir, que o “Perigo Espanhol”, a existir, deverá ser também fruto do pessimismo português. O hábito de, por tudo e por nada, se descrer das capacidades portuguesas, de se considerar que o País “não vale a pena”, e que os portugueses são pouco inteligentes ou incapazes, não ajuda em nada à afirmação, saudável e não chauvinista, de Portugal.
Veja-se o caso de Olivença: há duzentos anos que se chora a sua ocupação, mas, para além do não-reconhecimento da presença espanhola, pouco se tem feito. Salazar, que tão nacionalista surge no pensamento de tantos, sabia o que o Franquismo estava a fazer na cidade: descaracterização total! E todavia, nunca interpelou Franco a tal propósito.
Políticos e élites (escritores, jornalistas, etc.) continuam a evitar falar de Olivença. Como se receassem um anátema. Continuam sempre a considerar que não é o momento oportuno. E há duzentos anos que pouco se faz. Porque é politicamente incorrecto. Porque é de direita. Porque é de esquerda. Porque as relações com Espanha são desfavoráveis. Porque as relações com Espanha são óptimas. Porque não devemos perseguir ilusões.
“Não. As ilusões nunca são perdidas” - dizia Bento de Jesus Caraça – “Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos de história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta sem enxergar no horizonte nada a que se entreguem”.
Talvez o “Perigo Espanhol” esteja, afinal, nas limitações de cada um dos portugueses.
Estremoz, 21 de Outubro de 2002
Carlos Eduardo da Cruz Luna


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