A tecnocracia
Literalmente entendido, tecnocracia significa “o governo dos técnicos”. Trata-se portanto de um conceito utilizado para designar uma das mais significativas alterações ocorridas nos últimos anos, em todos os aparelhos de estado. De facto, tem-se assistido, de há bastante tempo para cá e progressivamente, à chamada de especialistas para a engrenagem do Poder, por parte dos seus detentores.
Assim, tanto a Oeste como a Leste, processa-se uma cada vez maior predominância e influência dos “técnicos” na vida política. Sequela ou não, consequência ou não, do positivismo do século XIX, o que é facto é que estamos perante uma vaga avassaladora de cientismo, inimigo da verdadeira ciência, e, o que é mais grave, inimigo do humano.
É preciso considerar que o avanço científico do século XIX foi positivo, enquanto se tratou de dar combate ao obscurantismo de épocas recuadas. Mas, por outro lado, negativo, na medida em que convenceu muita gente e principalmente os marxistas de que a aplicação de métodos científicos à vida social traria a felicidade ao homem.
Qual foi o raciocínio? Tratando-se de ciência infalível e perfeita (era assim aceite) ela poderia eliminar a imperfeição do próprio homem. Formou-se assim um conceito deturpado do papel da ciência e da tecnologia na vida humana. Passou-se pois a reduzir a solução dos problemas sociais a uma espécie de engenharia social. Mas o que qualquer “especialista” parece não compreender até hoje é que o humano é qualitativo, e, portanto, os problemas humanos não se poderão resolver com meras fórmulas de quantidade.
Contradição, é a dita imperfeição humana (caso para perguntar em nome de quê é ela assim denominada ...) não passar de características dialécticas inerentes à própria natureza.
Quanto à “ciência”, não é ela isenta de características de classe. Nem ela nem os tecnocratas. Neste sentido, é evidente que não se pode falar deles como uma classe, mas sim como uma camada, camada essa que, por enquanto, vai só prosseguindo nos seus próprios objectivos de camada, consubstanciados nos objectivos da classe que os contrata : a “classe dirigente”. Mas a gravidade desta questão é que a ideologia tecnocrática tende a espalhar-se para além dos limites da sua camada originária, como um veneno mortal, insidiosamente ministrado. Trata-se disto, mas não apenas disto.
Hoje já se está a assistir ao nascimento de algo a que se pode chamar o “homo tecnocraticus”, o cibernantropo. Uma nova forma de homem, no pensar, no ser, no estar, num actuar que, de humano, provavelmente nada tem.
Por outro lado, que o poder recuperou e foi recuperado pela ideologia tecnocrática é também um factor extremamente evidente nas duas superpotências. Não governa mas proporciona a governação. É que cada vez mais os técnicos impõem os seus pontos de vista, reclamando-se de “objectividade científica”, utilizando-se desse conceito para iludir o problema palpável da sua posição, também objectiva, no sistema. Mas não fiquemos por aqui. Curiosamente, também costumam eles afirmar que não são burgueses, mas sim “homens modernos”.
Uma maneira fácil, defensiva e hábil, de se subtraírem à crítica social. Mas há ainda mais do que isso: estão tentando atingir a posição de uma casta intocável e detentora do saber absoluto. Por esse motivo pactuam com o Poder.
No entanto, em certos países, como os U.S.A., a sua ideologia propagou-se de tal modo que hoje o Poder já se encontra nas suas mãos. Reunindo todos os sinais e sintomas é lógico deduzir que, dentro de alguns anos, a maioria dos países do mundo serão governados pela tecnocracia, logo pelos tecnocratas.
E que será o governo da tecnocracia? A resposta tem sido constantemente dada por muitos ficcionistas atentos ao mundo em que vivem, só que a maior parte dos seus leitores, por via de um abaixamento da sua própria capacidade crítica e imaginação, julgam estar na presença de um delírio persecutório. O governo da tecnocracia será um novo totalitarismo uniformizante, onde se verificará uma significativa inversão. Em vez dos métodos brutais de repressão usual (pouco eficazes e pouco consentâneos com a mentalidade tecnocrática) imperará um sistema para alienação total dos homens, alienação essa conseguida por meio de psicodrogas e de novos e vários consumismos. Será o paradoxo do génio, a solução final proposta pela tecnocracia e posta em movimento por ela para obviar problemas da sociedade humana. A fórmula última pode ser já hoje resumida: o amor dos escravos à própria escravidão!
Mas não paremos aqui. Devemos ir mais longe e esse mais longe é a “ditadura da cibernética”. Não é o que se pode chamar uma hipótese porque essa ditadura é decorrente das características do “tecnocraticus erectus”, o cibernantropo.
Esse ser limpo, asséptico, certeiro, equilibrado como o bom cientifista, detestará, até com horror (claro que já não sentirá horror) quaisquer sinais de desequilíbrio individual ou social. Admirador profundo da perfeição auto-limitante da máquina, procurará identificar-se com ela na sua auto-regulação automática. Lógicamente, ele vai abominar a emoção, a espontaneidade, e todos os factores que colidam com o princípio sagrado da economia. O princípio da economia é o princípio da execução de objectivos sem as mínimas divagações. Sem desperdícios! É o princípio que preside ao anti-espírito da máquina. A máquina é perfeita, no âmbito das suas limitações: as limitações de uma objectividade mecânica. Mecanizar o homem é sem dúvida destruir a sua subjectividade e isto é destruir o próprio homem. Caminhará o mundo para uma ditadura cibernética onde os homens-máquinas e as máquinas suprimirão os homens-homens? Não é tão remota a hipótese como parece. Ela será um facto se se verificar a predominância ideológica de camadas que advoguem a necessidade de o homem se adaptar a uma ciência e a uma técnica. Eis porque a utilização da ciência e da técnica para o bem estar dos homens e à sua medida, terá de passar pela destruição do mito tecnocrático tanto a Leste como a Oeste.
(Nota: o texto supra foi escrito e publicado em 1977, quando ainda não se discutia o fim da história, nem se via iminente a queda do império soviético.)


1 Comments:
Caminhamos para um "Admiravel Mundo Novo" em que os "Big Brothers" serão reis! Eu quero acreditar que existirão sempre mentes "selvagens" entre nós!
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