“Um marquês em mangas de camisa que chamava camaradas aos operários”
Passando no dia 20 de Novembro mais um aniversário do fuzilamento de José António, no pátio da prisão de Alicante, em 1936, resolvi afixar aqui as palavras do seu testamento político, escrito por ele a 18 de Novembro de 1936, após ter conhecido a decisão que o condenava à morte (justiça célere e expedita, como por vezes se reclama em Portugal: sentença a 17, execução a 20 – sem apelo nem agravo nem outros expedientes dilatórios).
O título acima é uma frase desdenhosa do conhecido historiador marxista Hugh Thomas, que sempre me pareceu conter mais verdades na sua ingénua tentativa de catalogação caricatural do que foi capaz de compreender o seu ilustrado autor.
Aqui ficam então os trechos relevantes desse testamento político (a tradução é idónea, de José Miguel Alarcão Júdice).
“Testamento redigido e assinado por José António Primo de Rivera y Saenz de Heredia, de trinta e três anos, solteiro, advogado, natural e residente em Madrid, filho de Miguel e Cacilda (falecidos), na Prisão Provincial de Alicante, a dezoito de Novembro de mil novecentos e trinta e seis.
Condenado ontem à morte, peço a Deus que, se não me livrar desse transe, me conserve até ao fim a coragem da resignação com que o aguarde e, ao julgar a minha alma, o não faça pelos meus merecimentos, mas pela medida da sua infinita misericórdia.
Assalta-me o escrúpulo sobre se não será vaidade e excesso de apego às coisas da terra querer neste momento apreciar alguns dos meus actos; mas como, por outro lado, arrastei a fé de muitos camaradas meus em número muito superior as minhas possibilidades (bem conhecidas por mim, ao ponto de escrever esta frase com a mais clara e estrita sinceridade), e como até levei muitos deles a arrostar riscos e responsabilidades enormes, parecer-me-ia grande ingratidão afastar-me de todos sem nenhuma explicação.
Não é preciso repetir agora o que tantas vezes disse e escrevi sobre o que os fundadores da Falange Espanhola queríamos que ela fosse. Espanta-me que, já passados três anos, a imensa maioria dos nossos compatriotas persistam em julgar-nos sem ter começado, nem ao de leve, a entender-nos e até nem ter procurado nem aceitado a menor informação. Se a Falange se consolidar duradouramente, espero que todos percebam a dor por se ter derramado tanto sangue, por não se nos ter aberto uma brecha entre a raiva de um lado e a antipatia do outro. Que esse sangue derramado me perdoe a parte que tive em provocá-lo, e que os camaradas que me precederam no sacrifício me acolham como o último deles.
Ontem, pela ultima vez, expliquei ao Tribunal que me julgava o que é a Falange. Como em tantas ocasiões revivi os velhos textos da nossa familiar doutrina. Uma vez mais, observei que muitíssimas caras, inicialmente hostis, se iluminavam, primeiro por assombro e depois com simpatia. Nos seus olhos parecia-me ler esta frase: "Se soubéssemos que era assim, não estávamos aqui!» E, certamente, não estariam ali, nem eu ante um Tribunal Popular, nem outros matando-se nos campos de Espanha. Não era já possível, no entanto, evitar isso, e eu limitei-me a retribuir a lealdade e a valentia dos meus queridos camaradas, ganhando para eles a atenção respeitosa dos meus inimigos.
Isso fiz, e não procurar para mim, com falsa nobreza, a reputação póstuma de herói. Não me considerei responsável por tudo nem me ajustei a nenhuma outra variante de padrão romântico. Defendi-me com os melhores recursos da minha profissão de advogado. Talvez venha a haver comentadores póstumos que me censurem não ter preferido a fanfarronada. Cada um faz o que lhe parece melhor. A mim, para além de não ser actor principal em tudo que está a decorrer, parecia-me monstruoso e falso entregar sem defesa uma vida que ainda podia ser útil e que me não foi concedida por Deus para a queimar em holocausto à vaidade como girândola de fogo de artifício. Além de que não descia a ardis reprováveis nem comprometia ninguém com a minha defesa, antes, cooperava na de meus irmãos Miguel e Margot, processados comigo e ameaçados de penas gravíssimas (...).
Outra coisa tenho de rectificar. O isolamento absoluto para com o exterior em que vivo desde a altura da revolta militar foi quebrado por um jornalista norte-americano que, com permissão das autoridades daqui, me pediu algumas declarações em Outubro. Até conhecer, há cinco ou seis dias, o processo instruído contra mim, não tive notícia das declarações que me eram atribuídas pois nem os jornais que as trouxeram nem nenhuns outros me eram acessíveis. Ao lê-las agora, declaro que entre os vários parágrafos que se dão como meus, designadamente fiéis na interpretação do meu pensamento, há um que afasto completamente: o que censura os meus camaradas da Falange por cooperarem no movimento insurreccional com «mercenários vindos de fora». Nunca disse nada de semelhante, e ontem mesmo o declarei solenemente no Tribunal, apesar de me prejudicar por o dizer. Eu não posso injuriar as forças militares que prestaram em África enormes serviços a Espanha.
Nem posso lançar daqui censuras a camaradas que ignoro estarem agora sábia ou erradamente dirigidos, mas que de certeza tentam interpretar na melhor boa fé, pese embora a incomunicação que nos separa, as minhas regras e doutrinas de sempre. Queira Deus que a ardorosa ingenuidade dos meus camaradas não seja nunca aproveitada noutro serviço que não o da Espanha grande com que sonha a Falange.
Oxalá seja o meu sangue o último que se perca em discórdias civis. Oxalá o povo espanhol, tão rico em qualidades profundas, encontre já na paz, a Pátria, o Pão e a Justiça”.


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