Um quase inédito de António Sardinha
Em 1981, há já vinte e dois anos, o semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, publicou sob o título “Um inédito de António Sardinha” um soneto do autor datado de 1916.
Não está acompanhado de nenhuma explicação, pelo que nada sei sobre o modo como o poema ali chegou.
Teria sido algum familiar do poeta? Existiam sobrinhos de António Sardinha, mas não sei de relações de algum com a redacção do semanário.
Nessa altura ainda era viva a viúva de António Sardinha, Sra. D. Ana Júlia, vivendo em Elvas na sua Quinta do Bispo.
Mas até pela sua idade e pelo seu afastamento da turbulência lisboeta não creio possível que tenha sido ela a oferecer o soneto a alguém ligado ao jornal.
Fico portanto na ignorância. Quanto aos motivos da sua falta de publicação em vida do autor eles percebem-se bem, face ao teor dos versos.
O soneto, sentido e belíssimo, versa sobre o drama pessoal de Sardinha, o mais íntimo dos seus desgostos. Homem de família, sentia-se amputado do que mais queria, marcado para sempre pela morte do único filho, ainda de berço. A ausência ficou para sempre presente em todos os momentos da sua vida – que se iria velozmente, sem ter conhecido a velhice que o poema ternamente antevia.
Gostaria que os leitores apreciassem tanto como eu este soneto, que, a meu ver, enfileira entre os mais belos da língua portuguesa. E cabe sem favor em qualquer antologia de poemas de amor, como ainda recentemente vi nos escaparates.
Soneto do desalento
Deita a cabeça sobre os meus joelhos,
- descansa a tua dor na minha dor.
Como seremos nós em sendo velhos?
Como seremos nós então, amor?
Agora ainda os lábios são vermelhos.
Temos ainda mocidade e cor.
Mas que seremos nós, em sendo velhos,
Quando nas veias nos faltar calor?
Como é que iremos nós contando os dias,
sem ter um filho, com um berço em casa,
deserto, frio, como as coisas frias?
Oh, esse berço embala-o docemente!
E assim cantando à dor que nos abrasa
que bom será o envelhecer da gente!
António Sardinha (1916)


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