sexta-feira, junho 04, 2004

A campanha: ainda não foi desta que passou para a net

Ao princípio ainda pensei que as presentes eleições fossem as primeiras a ficar marcadas pelo recurso generalizado à internet como meio privilegiado de campanha. Sobretudo por parte daqueles que não têm as menores condições de acesso aos meios tradicionais de comunicação, todos ferreamente controlados pelas mesmas mãos que detêm as rédeas do poder económico, político ou cultural. Quem não tem quaisquer meios para superar com êxito o bloqueio imposto nesses terrenos era de esperar que apostasse em força no único grande meio de comunicação ainda aberto, e para mais com potencialidades infinitas de desenvolvimento que dependem em grande parte do mero execício da imaginação e da criatividade. A certa altura deu a sensação de que podia ser assim.
Mas não: os hábitos, os atavismos, os impulsos convencionais foram mais fortes. Ninguém resistiu à tentação de andar a imitar em pequenino o que os grandes fazem em grande. Os desabafos falam por si: se nós tivéssemos dinheiro para os outdoors que eles têm... se nós tivéssemos meios para pagar os cartazes que eles espalham por aí...
As lamentações traduzem em geral o desgosto de não poder fazer igual aos outros. E então faz-se o mesmo, embora em miniatura. Instintivamente rejeita-se a hipótese de, simplesmente, fazer outra coisa.
Deste modo a campanha, se olharmos o conjunto das treze candidaturas, parece uma corrida de Fórmula 1 em que uns tantos possuidores de uns velhos e ronceiros 2CV não resistiram em ir alinhar na partida ao lado dos reluzentes Ferraris.
Na tentação de mostrar músculo nos mesmos campos em que os gigantes dominam irremediavelmente esqueceu-se como se fora um terreno ainda marginal a aposta na internet. Tanto forum de debate e informação, tanto órgão de informação em linha a pedir comentários e participação, tanto espaço na blogosfera, e nota-se até que tudo foi secundarizado e desertificado pelos afazeres da campanha (entendendo aqui campanha, por deslize inconsciente, nos estritos termos determinados pelos usos e costumes).
Quem ficou na rede em liça foi apenas quem já estava antes. Esta observação é bem constatável na blogosfera, na qual dadas as suas características próprias, de instrumento de grande maleabilidade e flexibilidade, seria de esperar uma possível explosão de novos blogues motivados pela luta eleitoral (já aconteceu noutros lugares).
Enfim, ainda não foi desta. Eu compreendo, porque conheço a psicologia do militante tipo, ardendo de entusiasmo combativo: o fervoroso rapaz do MRPP preferirá mil vezes ir agitar uma enorme bandeira vermelha no Rossio à hora de ponta, sentir no rosto afogueado o vento que agita o pano e o calor que lhe aquece a fé, por entre o ruído da multidão que passa e o olha, do que sentar-se num canto escuro e frio a escrever mensagens para pessoas que nem vê nem o vêem. Com efeito, é uma triste e melancólica cena que nem dá para um cartaz.
Provavelmente o trabalho paciente e sistemático na internet seria bem mais compensador do que a efemeridade da fotografia desse momento. Mas é realmente difícil vencer os instintos profundos (a espécie é gregária, precisa do conforto da camaradagem, do sentir físico das gentes, das ruas, das caravanas, dos comícios, das bandeiras, dos cartazes, dos papéis, das palavras de ordem - até eu gosto!) e desenvolver uma estratégia que só a frieza do raciocínio aconselharia.