domingo, junho 06, 2004

Escrever na net

Escrever é um exercício solitário. Sempre. Mesmo em experiências de escrita conjunta, por mais que se tente apagar qualquer traço de individualidade no contributo de cada um. Dêem lá as voltas que derem é sempre de dentro de si que cada participante arranca a sua parte. Só depois é possível apagar as marcas, e tentar amassar a ficção da autoria colectiva.
Portanto, escrever é um exercício solitário. Tanto para o adolescente que se confia ao seu diário, que ninguém há-de ler, como para o fabricante de sucessos literários que programa a linha de montagem estudando a melhor maneira de fazer a boca doce aos consumidores. E tanto num monumental "Guerra e Paz" ou "A la recherche du tempos perdu" como no mais insonso dos produtos da fast-food literateira.
Todavia, o exercício não pode fazer-se sem a presença de um outro qualquer - ainda que seja um "alter ego" do autor. É da natureza da escrita, como instrumento de comunicação que é. Vive como um meio, um elo de intermediação entre o emissor e um qualquer destinatário, mesmo que por força de uma duplicação artificiosa de papéis seja o próprio que escreve o seu próprio interlocutor. Diálogo, pois, é sempre, por mais monologante que nos apareça.
Está presente no exercício tanto a sua característica solidão como a necessária presença do outro. Tal como na vida, afinal.
E na rede? A pergunta tem-me surgido, insistente, perante a novidade deste novo suporte. Sublinho que é ainda escrita, tal qual, mas num novo suporte. E este traz algumas novidades. Como se verifica as mais das vezes o escrevinhador escreve sózinho, algures num ponto perdido do universo, frente a um teclado e a um écran, sem o calor de uma presença física. O interlocutor, para ser presente, tem que ser por ele ficcionado ou imaginado. Nisto não se distingue o novo suporte, na sua solitude, dos mais antigos exercícios. O monge na sua cela gravando laboriosamente os seus preciosos manuscritos está na mesma situação em face do mundo distante.
As diferenças, porém, não são para desprezar. Desde logo o tempo, o diferente funcionamento do tempo. Nesta escrita o escriba pode estar a ser lido em tempo real, enquanto escreve, por uma infinidade de destinatários. Logo que solta a mensagem um sem número de receptores, que ele não controla, podem recebê-la e fazê-la sua. E podem reagir! Esta é uma mudança formidável. Aqui o escriba pode ter logo o que em tempos só após longa espera seria possível alcançar: o retorno, o eco, a resposta que mereceram as palavras que largou à sua sorte.
Por este modo o autor pode envolver-se num diálgo imediato e directo com o seu público. Pode discutir com ele, ouvi-lo e partilhar o que ele pensa, ir fazendo a sua obra enquanto mede a temperatura das reacções. Situação inteiramente nova.
Poderá esta novidade afastar a solidão que apontei ao exercício de escrever? Enquanto acto de criação, certamente que não. Criar é como respirar; podemos todos fazer o mesmo, mas cada um faz por si e só pode fazer por si.
E enquanto sentimento? Pode a partilha na rede, a cumplicidade que nasça, trazer o conforto da amizade, ou a graça do amor, ou a alegria do companheirismo e da camaradagem, como se a rede nos desse o que a vida nega?