segunda-feira, junho 07, 2004

Eu não sei que tenho em Évora

Nunca compreendi a estranha e difícil relação que sempre mantive com Évora.
A cidade olha-nos desde o fundo dos tempos, muda e esfíngica, fechada nos seus mistérios como uma interrogação silenciosa. Nada ajuda à desocultação do que está, indefinível, na raiz da atracção e da incomodidade que coexistem a cada aproximação.
Vergílio Ferreira apresenta-a como lembrando uma ermida, para onde convergiam os caminhos da planície. Mas é uma ermida que nos interpela, e não responde.
Estando ausentes nunca se perde a sensação vivida do fascínio, a necessidade sempre presente de regressar e ver. Estando presentes logo nos inunda a impressão difícil do silêncio, da incomunicabilidade, do peso que nos esmaga e asfixia. Da paradoxal ausência, não se sabe de quê. A vontade de fugir, de voar, de escapar. A cidade prende-nos como um cárcere invisível.
As pessoas movem-se por entre as pedras e a cal que os poetas cantam de um modo que sempre me deixou uma intrigante sensação de vazio, de fantasmagórica ilusão de vida. Passa-se, por entre a gente, uma vida inteira, e continuamos a sentir-nos intocados e distantes.
Com o calor do Verão acentua-se a irrealidade do conjunto. O calor e a luz enchem cada recanto, e o silêncio instala-se ainda mais pesado e sufocante. Há gente, e não há ninguém. Caminho sempre, como se fosse eu só a perder-me por entre o sol e as sombras de uma cidade esquecida no deserto. Não fossem os velhos jacarandás do Largo da Misericórdia, que se exibem em floração garrida, e juro que não teria visto uma pincelada de vida. Instalo-me na tarde quente e vazia, e olho aqui de dentro, para lá das janelas, por sobre os telhados e os quintais. Nada rasga o manto acolchoado e morno do silêncio que tudo envolve, a não ser o piar insistente de uns pardais, que parecem estar zangados, não sei se entre eles ou também com o mundo, que não traz ninguém contente. Creio que se queixam também. Em Évora não se morre e não se vive.