segunda-feira, junho 07, 2004

Fim de tarde

Os pombos da Praça do Giraldo já me conhecem. Sabem que sou inofensivo. Quando abro caminho por entre eles limitam-se a desviar-se, sem grande pressa, e só dois ou três esvoaçam brevemente, num volteio mais de cumprimento que de susto. Voltam de imediato à tarefa de debicar os grãos que vão restando da voracidade do bando. Os dadores são poucos e os bicos são muitos. Não lhes levo a mal a concentração, embora me magoe um tanto a indiferença. Não porque a atitude resulte de alguma antipatia especial para com a minha pessoa. Não há ali hostilidade. Passa-se apenas que em geral são pouco deferentes para com os passantes, desde que sejam pacíficos. Cada um fica na sua. A não ser que algum bruto tome comportamentos agressivos, pois então toda a praça se agita num frémito de asas indignadas.
A fleuma rotineira não é de estranhar. Só eles se mantiveram fiéis à praça que nós abandonámos. Hoje nós passamos, mas eles estão. E são de lá, nasceram e vivem lá. É deles a vida e o bulício da praça. Mesmo assim gostava de mais atenções; afinal temos em comum aquela praça, vai e volta, volta e vai, encontramo-nos várias vezes por dia. Existe já uma cumplicidade tácita. Nunca me esqueço de os cumprimentar. A eles e ao Beato Salú, que me acena de longe com uma mão enquanto com a outra continua a cofiar a barba enorme e desgrenhada. Além do cumprimento gestual diz-me qualquer coisa que não entendo e sorri, com uma vénia cerimoniosa. Tem algo de intrigante, o sorriso do Beato Salú. Parece-me uma certa ironia, e, pode ser que me engane, mas parece-me ironia fina, inteligente. Que estará a pensar o Beato Salú quando me vê passar, e atencioso me reverencia? Hei-de perguntar a algum psiquiatra o que acha disto, quando apanhar um a jeito. Não que confie muito na resposta; em geral os psiquiatras sabem muito pouco de loucos. Percebem mais das mentes sãs, porque obedecem a esquemas conhecidos e normalizados. Os mecanismos comuns e ordinários da mente são cientificamente explicáveis. O pior é a extravagância, a infracção às regras estudadas: essa deixa-os perplexos e desorientados, como a qualquer de nós.
Prossigo, absorto, pelo meio das esplanadas e dos expositores da Feira do Livro. Tenho a sensação que todos esses acrescentos temporários são ali mais estranhos do que os pombos. Estes é que estão em casa. O resto está ali por empréstimo, e de passagem. Como todos nós, os que nos apressamos a caminho de casa. São tudo postiços, amovíveis, consumíveis, descartáveis, colocados artificialmente na nudez da praça.
Dali mesmo é Santo Antão, que nos mira com a fachada austera. Nunca deixo de falar a Santo Antão. É um santo de forte personalidade, cheio de virtudes heróicas, um símbolo do despojamento e do desprezo pelo mundo e por tudo o que neste se venera. Creio bem que o rijo eremita se plantou ali, no topo da Praça do Giraldo, para nos lembrar que há sempre uma porta aberta para um mundo outro, ainda que continuemos ignorando a sua presença, sem deter o passo. Depois os homens foram erguer-lhe mesmo em frente, do outro lado do tabuleiro da praça, como em desafio, a sede do Banco de Portugal. No rosto do santo eremita do deserto, que venceu a carne, o diabo, e o mundo, levantou-se o templo venerador do dinheiro, da matéria, do mundo, em permanente afronta ao primado do espírito. No eixo maior da praça do Giraldo ficaram a confrontar-se os templos levantados a Deus e ao Bezerro de Oiro!
Continuo a marcha, sem me deter. Digo adeus à praça, e sigo. Rumo aos meus queridos jacarandás do Largo da Misericórdia, que me estendem o tapete ao ver-me de volta, e passo.