sexta-feira, junho 04, 2004

O jogo viciado

Perante o desenrolar da presente campanha eleitoral não consigo deixar de pensar naqueles casinos em que o prémio sai sempre à casa. Nunca tinha sido tão ostensivo o encerramento sobre si mesmo do círculo fechado dos detentores do poder. Nem nos grandes meios de comunicação oficialista se procurou fingir um mínimo de abertura: quem veja os noticiários das televisões, como eu ontem vi, constatará que só existem as candidaturas situadas dentro do arco situacionista. Das outras nem sequer se refere a existência.
Como resultado do entendimento cordial entre os condóminos do país que nos resta, consegue-se o milagre de não aflorar sequer nenhuma das questões que em tese seriam o centro das atenções nesta campanha. Alguém ouviu falar da Europa? Alguma vez se falou sobre qual a Europa que se pretende? Tocou-se uma vez que fosse, e ainda que fosse ao de leve, em questões como a Constituição Europeia, o hipotético referendo, a possível entrada da Turquia, o controlo dos fluxos migratórios, no exterior e no interior das fronteiras comunitárias, a configuração das instituições, seja o Conselho ou o Parlamento, seja o problema do directório ou os poderes de cada Estado, a federação ou a confederação... Nada que pudesse ser relevante foi sequer abordado! Em vez de uma campanha de participação e discussão pública tivémos uma campanha de ocultação.
Os cidadãos são chamados a votar, de entre os eleitos previamente pelo sistema, a partir das suas peculiaridades físicas ou das suas performances em matéria de marketing e comunicação, como numa promoção de supermercado em que se confrontassem o SKIP e o TIDE.
E assim vamos para os votos, já daqui a poucos dias.