terça-feira, junho 01, 2004

A poesia que promete

São os poetas que movem os povos; mas ai dos que frente à poesia que destrói não erguem a poesia que promete...
Essa máxima célebre de um rapaz muito cá de casa serve às mil maravilhas para introduzir mais um poema de Couto Viana, na continuação da homenagem a que me propus, face à publicação pela INCM do conjunto da sua obra poética ("60 anos de Poesia").
Juntamente com "Vitorial", já aqui publicado há mais tempo, é este um dos mais apelativos e convocatórios, e digamos também prometaicos, dos grandes poemas de Couto Viana.
Está musicado, praticamente desde que apareceu, tal como o "Vitorial". Divulgado na voz e na música de Manuel Sobral Torres, primeiro, na voz e na viola de Manuel Rebanda,também, e depois no canto do trovador José Campos e Sousa.
Reparem na afinidade com o "Quinto Império", de Fernando Pessoa ("triste de quem vive em casa/ contente com o seu lar/ sem que um sonho, no erguer da asa,/ torne até mais viva a brasa/ da lareira a abandonar". Leiam, e vão cantando baixinho, para dentro de alma somente.

COMÍCIO

Diz adeus à terra
Que te viu nascer:
Deixa aqui teus filhos
E tua mulher,
Vai buscar a pátria
Onde ela estiver!
Aqui tudo exige,
Ali tudo pede:
Acharás justiça
Para a tua sede
E o peixe divino
Cairá na rede.
Haverá domingos
Por toda a semana,
Ali tudo é firme,
Aqui tudo engana,
Ali a alegria
Tem a forma humana.

Diz adeus à terra
Que te viu gerar.
A palavra imunda
Tem aqui lugar:
Perversão da rosa,
Poluição do ar.
Ali tudo habita
No seu próprio chão.
A raiz só prende
Pelo coração
Aqueles que enlaçam
Pecado e perdão.
Aqui quem procura
Encontra o espelho:
Ali gira um jovem,
Aqui dorme um velho.
Ali todo o sangue
Azul é vermelho.

Diz adeus à terra
Onde o amor não basta.
Vai buscar a pátria
Primitiva e casta
Que o terror repele
E o orgulho afasta.
Aqui todo o espaço
Cabe num só medo.
Aqui há denúncia,
Ali há segredo.
Aqui já é tarde,
Ali muito cedo.
Aqui tens um signo,
Ali tens um nome,
Sem voz que divida,
Diminua ou some.
Ali tens a esperança
Para a tua fome.

Diz adeus à terra
Onde a vida passa
Como um rio de água
Morna, lenta e baça,
Onde o vento é brisa
E o clarim desgraça.
Vai buscar a pátria
De bandeiras vivas,
Busca os gestos livres,
Foge às mãos cativas,
Abandona as sombras
E as fontes esquivas.
Busca o teu futuro,
Nega o teu passado,
Vai erguer teu sonho
Solene e sagrado:
Vai morrer na pátria
Que te faz soldado!

António Manuel Couto Viana