domingo, junho 06, 2004

Relatório breve

Pela vez primeira estou com a sensação de que há crise na blogosfera. Noto um certo esgotamento, rareiam os assuntos, desertam os blogonautas, fecham blogues, escasseia a inspiração, cai a pique o ritmo da escrita. Há um tom geral de cansaço. Não há polémica que aqueça, nem discussão que afugente o tédio.
O que será? Não sei. Para onde terão migrado atenções e entusiasmos? Para as eleições europeias não, certamente, para a praia pode ser que sim.
Mas é certo que uma vaga atmosfera de aborrecimento instalou-se sobre o vasto mar das navegações blogosféricas. Não digam que não, porque até os visitantes sentem e se passeiam desinteressados com o mesmo ar ausente e neurótico com que costumam pairar por entre as barracas da Feira do Livro. Um gosto a desilusão, de quem esperava novidade e só encontra o já visto e mais que visto.
A nossa blogosfera precisa de ar fresco, gente nova e diferente, outro estilo, outras preocupações, outras ideias. A renovação já não virá dos instalados no mercado, por mais fusões, aquisições, transformações, ou maquilhagens com que se apresentem.
Por mim aqui vou continuar, mas confesso que também tacteando no escuro à procura do tom. Provavelmente vai ser como calhar, ao sabor do dia. Conforme o estado do espírito que comanda a escrita; umas vezes mais sombrio, outras talvez em cores mais garridas. Por estes dias a coloração não anda muito alegre. Sendo embora verdade que já tenho idade para me surpreender pouco, sobretudo com a natureza humana que os incorrigíveis optimistas me asseguram ser excelente de seu natural, nunca a alma conseguiu criar a habituação e o calo precisos para aprender a indiferença - e acontece que me doem as manifestações cruas da bondade e generosidade tão frequentemente proclamadas. Será dos meus olhos, que não têm as luzes dos filósofos, mas parece-me realmente que cada vez que um homem está a afundar-se há sempre outro que não resiste à tentação de lhe pôr o pé em cima. Pessimismo antropológico, quiçá patológico, direis vós - pois sim, fiquem-se na vossa que da minha patologia quem sabe sou eu.