Sobre solitários
A solidão será sempre um estado, uma mera situação, acidental e transitória, ou será para alguns uma natureza?
Por outras palavras, haverá quem não possa deixar de estar só? Quem nasça ou se faça incapaz para a comunhão plena com outro?
O tema é complexo e difícil. A incapacidade para amar parece que existe. Muitos entendidos assinalam essa deficiência em D. Juan - o homem que procuraria em todas as mulheres o que não pode encontrar em nenhuma. No mito donjuanesco o que estaria representado era esse drama íntimo, essa incapacidade pessoal profunda e intransponível.
Incansavelmente D. Juan conhece mulher após mulher, para em cada uma se descobrir só - ausente o Amor que poderia ser o graal daquela demanda.
Desconhecendo o Amor, o herói está condenado à busca inglória e frustrada, até ao fim. Na desgraça delas prolonga-se a impotência dele. No encontro com a carne ele encontra sempre o vazio, a fome do absoluto, e nunca a saciedade. É ele o vencido, vergado pela sua impotência até ao desepero final. Don Juan, o impotente!
Drieu La Rochelle expõe, no fundo, a mesma angústia em "L'homme couvert de femmes". Ele procura e não acha - a perfeição, a plenitude, a felicidade, o absoluto, ou lá o que for. O que terá ficado perdido, lá para trás, no abismo escuro que é a alma de cada um, que condena um ser à viagem perpétua, à inquietação do que não sabe e não encontra?
O sexo surge aí como uma compensação amarga, um fruto que não é o que Eva prometia - o da eterna sabedoria, da árvore da vida e da morte - mas é o que Eva podia dar. Com sabor de abismo e transcendência, vertigens, de altura e queda.
Por vezes o sentimento de incapacidade chega à renúncia. Já não há sonho, nem procura. Fica só a carne. E nem vou falar de Montherlant (leiam "Pitié pour les femmes"). Lembro-me muitas vezes de uma passagem de Jacques Laurent (em "Les Délices") em que o protagonista (o escritor, a obra é autobiográfica, seja a autobiografia ficcionada ou real) descreve a sua relação com uma leitora jovem que conheceu de passagem, após uma conferência. Tem que dar-lhe conversa, falar-lhe de literatura e da sua literatura, porque sabe que é isso que a traz fascinada até ele. Mas por si não cultiva ilusões, mira-lhe o corpo, cobiça-lhe a frescura do corpo, e sabe que é só isso o que pretende. A dado passo explica coloquialmente ao leitor, com franqueza, enquanto a olha e faz para dentro o diagnóstico sumário da situação, que ela o desejava pelos seus romances enquanto ele a desejava pelas suas pernas. Talvez a troca fosse justa; certamente que nem a moça sabia escrever romances como os dele nem ele tinha muitas possibilidades de fruir de pernas como as dela, sem os romances.
Mas também nessa confidência havia a renúncia, o desencanto, a solidão. Por condenação, destino ou fatalidade, e não por escolha.


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