terça-feira, novembro 01, 2005

A esquerda que não quer saber

Pelo "Figaro Magazine" fiquei a saber da publicação de um livro de Guillaume Perrault, prefaciado por Gilles Martinet, com o título "Génération Battisti - ils ne voulaient pas savoir".
O tema é a polémica desencadeada em França pelo chamado caso Battisti, ou seja, abreviadamente, a mobilização extraordinária da intelectualidade francesa para lutar contra a extradição para Itália de um antigo terrorista, Cesare Battisti, refugiado em França há anos e condenado pela justiça italiana por vários crimes de sangue, nomeadamente assassinatos, quando da sua militância nos PAC (Proletários Armados pelo Comunismo).
O autor, jornalista do "Figaro", analisa com acutilância o fenómeno geracional da solidarização instintiva e emocional daqueles a quem chama "les intellos les plus myopes du monde" com todas as causas que se liguem ao "esquerdismo imanente" que constitui o único cimento a unir as multidões de órfãos da revolução.
E espanta-se perante a evidência da sua observação: os participantes na histeria colectiva em causa estavam prontos para caucionar todas as mentiras só para preservar as suas crenças e as suas recordações. Eles não agiam assim por não saber dos factos, eles simplesmente não queriam saber deles.
Lembrei-me a propósito de recentes acontecimentos em Madrid, despoletados pela homenagem solene da universidade a Santiago Carrillo. Os jornais espanhóis dos dias seguintes noticiavam, com algum embaraço e com estranheza que me pareceu sincera, que algumas dezenas de pessoas se tinham indignado perante tais homenagens e tinham protestado, alegando que Carrillo é um assassino.
Naturalmente: o inofensivo nonagenário é uma figura maior da mitologia esquerdista, um ícone do movimento comunista internacional, um artífice da democratização espanhola, enfim um santarrão dos altares modernos.
Resta o facto embaraçoso do massacre de Paracuellos del Jarama, que não pode confundir-se com um daqueles exageros propagandísticos que surgem sempre em tempo de guerra para diabolizar o inimigo. Os acontecimentos são conhecidos com um rigor pouco vulgar, é pública a lista dos vários milhares de fuzilados, sabe-se quem são e quem são as suas famílias, existem as suas campas e os cemitérios são públicos. Os relatos sobre o que se passou nesses dias em que foi decidido esvaziar as prisões de Madrid e levar os presos em levas, de comboio, até aos lugares da morte, não permitem esconder a verdade sobre o que se passou nem sobre as responsabilidades pessoais do executor da operação, Santiago Carrillo.
A esquerda espanhola não sabe? Sabe. Sempre soube. Simplesmente não quer saber.
Quando se fala de Paracuellos surgem geralmente explicações espantosas: os fuzilados ou eram fascistas, ou eram familiares de fascistas, ou temia-se que pudessem vir a ser, ou eram suspeitos de o ser; temia-se o avanço do fascismo sobre Madrid, e o ambiente era de histeria contra o inimigo interno; era tempo de guerra, e os outros também cometeram massacres; em resumo, o infeliz acidente está justificado, e seja como for as intenções subjacentes dos revolucionários em causa eram boas, e nem podiam deixar de ser. As intenções deles são sempre as melhores, por definição, mesmo que haja erros, que nunca serão mais do que isso - erros -, que não podem embaciar nem deslustrar a infinita generosidade e bondade das forças revolucionárias.
A esquerda não sabe? Leiam-se os cânticos de Aragon em louvor de Estaline. A esquerda soube sempre. Simplesmente não quer saber.

1 Comments:

At 7:13 p.m., Anonymous Anónimo said...

Santiago Carrillo (Paracuellos, Enrique Lister, Julian Grimau); Manuel Fraga( Julian Grimau, Delgado, C. Blanco, Montejurra, Vitoria, Jorge Verstrynge), Adolfo Suarez (Torcuato Fernandez Miranda, Ruiz Mateos, Mario Conde), Felipe Gonzalez(Amedo, Dominguez,Garcia Damborenea)....

 

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