AINDA O PAGODE
Os cinco ou seis partidos no poder constituem outras tantas imposturas fatigantes — e fatigantes a tempo inteiro!
Não admira.
É da natureza dos partidos políticos (e aqueles que temos não fogem à regra...) serem formados à base de indivíduos que quanto mais falam mais mentem, já que mentem com quantos dentes postiços têm na boca sempre que a abrem — e a verdade é que a têm permanentemente aberta!...
Desovam onde é de lei que desovem partidos; e, entre nós, está escrito que isso seja no sepulcro caiado de São Bento.
Como o próprio nome da firma dá a entender, é lá que se amassa — mal e porcamente — o muito apreciado pão-de-São-Bento, já agora sobejamente conhecido da rapaziada, visto ser o pão nosso que cada dia nos é dado a tragar, na sua versão mais remessa ou empezinhada, pelos referidos ajuntamentos.
Com respeitinho a estes, estão lá estabelecidos, de casa e pucarinho, ao lado uns dos outros, já vai em seis anos, e moer a paciência à gente é o programa comum que os move e anima.
Como nunca fui dado a salivar palavras — e, muito menos, palavras de vida fácil... —, ainda agora desconheço (felizmente!) o que seja dispor de «lugar marcado» no ovante recinto. Falo dele, por isso mesmo, um pouco de cor...
Mas, ao menos por fora, conheço eu de ginjeira (olá se conheço!) o atlético bloco, e até já de uma vez o mandei, por sinal, com todas as letras, para o grande e realíssimo arquitecto que o erigiu. (Porque, a mim, ninguém me tira da ideia que aquilo foi coisa do Grande Arquitecto — e de mais ninguém.)
Mas se é exacto que não sou o que se chama um homem de palavras, em contrapartida prezo-me — e muito! — de sempre ter sido um homem de palavra. E disso é que não há parlamentos...
Um dia, ainda perco o respeito todo que devo a mim próprio e trato de habilitar-me a um bom assento naquele «parque de diversões», candidatando-me a deputado pelo círculo Eça de Queiroz. E sabem vocelências para quê?...
— Primeiro que tudo, com o fim de decretar a aplicação imediata de um valentíssimo imposto sobre o uso (e o abuso) da palavra; e, de caminho, propor que o monstrológico areópago seja declarado, logo ali, monumento de «inutilidade pública».
Feito isso, hei-de passar a ser o orador mais calado de toda a Câmara.
Advertência Final:
Há, nos seres humanos, uma necessidade vital que os políticos ignoram, mas que não ignora os políticos: é a vontade de rir.
Não foi senão ela que me ditou estas linhas.
Rodrigo Emílio (In A Rua, n.º 197, pág. 22, 20. 03.1980)


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