Jorge Luís Borges
Durante muito tempo, Borges foi um dos eternos indigitados para o Prémio Nobel da Literatura.
Sempre que era anunciado o premiado do ano os jornais afadigavam-se a pedir-lhe opinião. Ele respondia com o distanciamento e a ironia que eram a sua marca inconfundível.
Costumava manifestar delicadamente compreensão para o esquecimento da sua obra, e acrescentava que a Academia Sueca dedicava-se a descobrir talentos desconhecidos. Lembro-me sempre dessa resposta quando surge o anúncio de mais um ilustre nobelizado.
Escusado será dizer que Borges nunca recebeu o Prémio Nobel – o que não faz falta nenhuma à sua glória literária.
Actualmente, um sempre apontado sempre preterido parece ser Mário Vargas Llosa. O peruano autor de “A guerra do Fim do Mundo” não preenche os requisitos da ilustre academia – requisitos e motivações esses que toda a gente suspeita não corresponderem aos oficialmente proclamados.
Por mim, vou continuando a ler o que gosto – e nem me lembro das recomendações da tal academia. Já agora, quanto à “Guerra do Fim do Mundo”, faço eu uma recomendação aos leitores: se lerem, leiam também “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Não dá para perceber uma coisa sem a outra - e o brasileiro escrevia muito melhor.
E por falar em Borges, nesta aurora de um novo Nobel, ofereço-vos mais um pequeno poema do dito cujo.
As coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.
Jorge Luis Borges (tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques).


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