quarta-feira, outubro 08, 2003

Lembrando a nossa Amália

Passados que são quatro anos sobre a morte de Amália, dei por mim a lembrar essa minha vizinha da Rua de São Bento, e o tempo em que ali vivi, numa travessa a meio caminho entre o Convento de Jesus e o Palácio das nossas tristezas, num espaço onde ainda se misturavam no seu viver diário o povinho miúdo e a senhora marquesa de Mendia, a casa arruinada que foi do Visconde de Santarém e a moradia apalaçada de Soares Martinez, as casas aristocráticas dos Bobone e dos Alcáçovas e dos Sanches de Baena, e as casinhas de janelas compostas com vasos e floreiras, e gaiolas de pintassilgos e canários, com cheiro de bairro popular, tudo já envolto por misérias que iam avançando, enquanto se mantinha um resto de convívio com sabor a pátio das cantigas.
Na sua voz e no seu sentir, Amália era nós todos.
Mulher inteligente e sensível, sofreu como poucos os desvarios da abrilada, que desde cedo a atingiram com violência.
Mesmo quando se fazia distraída, e como ela sabia fazer-se distraída, Amália tudo observava e ia guardando – e sofria, em silêncio.
Como muitas vezes acontecia, exprimia-se em verso – naqueles seus versos tão característicos, de voluntária ingenuidade, em que procurava deixar a verdade das coisas simples na linguagem singela do povo.
Amizade que lhe vinha de longe, feita de laços de mútua admiração e ternura, era com Vitorino Nemésio.
No ano de 1975, o reformado Nemésio aceitou ser director de “O Dia”, o jornal fundado então pelos profissionais expulsos do “Diário de Notícias”, no famoso episódio que ainda hoje não se pode recordar – para não ferir a glória de Saramago.
Como consequência imediata, concitou Nemésio de imediato contra si os ódios de todos os entusiastas do PREC – que não o pouparam.
Mas chega já de desenhar o contexto: entre Amália e Nemésio havia convívio assíduo que, quando não podia ser directo e pessoal (Nemésio era frequentador da casa de Amália), era pelo menos epistolar. Aqui fica para os meus estimadíssimos leitores uma carta resposta de Amália para o Professor Nemésio.


Carta a Vitorino Nemésio

Ai meu querido professor
O senhor fez-me chorar
Apesar do bom humor
Com que se quis disfarçar.
Não se pode ser mais triste
Nem ter-se maior razão
Em tudo aquilo que disse,
Do pobre deste país.
Também eu, senhor professor,
Estou triste como o senhor,
Sem poder desabafar
Por não saber versejar.
Mas não me posso calar
Falo comigo sozinha:
Aonde a terra que eu tinha?
Aonde os heróis que amava?
Ou eu andava enganada
Amando o que muito amei?
Francamente já não sei
Aonde está a razão.
Só me dói o coração,
E o coração não engana.
A mim nunca me enganou
De si sempre ele gostou!
E continua a gostar.
Por isso me fez chorar;
Chorou o meu coração
Que lhe sentiu a razão.
Ai meu querido professor
Eu nunca fui sua aluna
Não tenho instrução nenhuma,
Como é que posso entender
O que o senhor quis dizer
Sem saber ler nem escrever?
Há coisas, senhor professor,
Que até se entendem melhor
Se se não é complicado.
Há quem, por ter estudado
Tudo o que outros escreveram,
Entre as letras se perderam,
Já não sabem sequer quem são;
Perderam o coração
Que não se deve perder...
Renego a preparação
De gente tão preparada,
De angústias fazedores
Tudo em nome da justiça
[Desculpe mas digo Chiça!
E eu não sou malcriada]
Mas há coisas que por feias
Dizem melhor das idéias
Que nos passam pela cabeça...
A mim, faltam-me argumentos
Mas ficam-me os sentimentos:
Com eles gosto de si,
Com eles o distingui,
Sem saber ler nem escrever!

Amália Rodrigues