A língua portuguesa na net
Um estudo realizado pela gigante das telecomunicações espanholas, a Telefónica, em Maio de 2002 (não conheço outro mais recente) revelou que três por cento dos conteúdos online estavam em português, o que significa que a língua portuguesa é a nona mais utilizada no ciberespaço.
Apesar de ser a terceira língua mais falada no mundo, o espanhol só aparecia no quinto lugar entre as línguas mais utilizadas pelos conteúdos da net.
Em primeiro surgia o inglês (com 44,7 por cento), seguido do chinês (11,9), o japonês (9,5) e o alemão (6,1).
Segundo o estudo, o espanhol, que tem mais do dobro de falantes no mundo em relação à língua portuguesa, só conseguia atingir uma presença de 5,6 por cento na rede.
O português aparece como a nona língua mais utilizada na rede, depois do espanhol, do francês (4,4 por cento), do coreano (4,4), e do italiano (3,1).
De acordo com este estudo da Telefónica, as línguas que mais avançaram na Internet nos últimos três anos considerados (de 1999 a 2002) foram o japonês, que passou de 8,2 por cento para os 9,5, e, sobretudo, o chinês, que subiu posições com enorme rapidez. A língua chinesa representava, em 1999, apenas 4,1 por cento dos conteúdos da web e em Maio de 2002 ocupava já uma percentagem de 11,9.
O avanço rápido de algumas línguas na net tem sido feito à custa da redução da presença do inglês. Apesar de continuar a ser, de longe, a língua mais utilizada, está longe da presença esmagadora de há alguns anos. Em 1999, o inglês representava 64 por cento dos conteúdos da net. Em Maio de 2002, não passava dos 44,7 por cento.
Como se constata, entre as línguas cuja presença excede a portuguesa somente o inglês, o chinês e o espanhol correspondem a línguas com maior expressão que a portuguesa quando consideramos o critério do número de indivíduos que as têm como a sua primeira língua.
O coreano, o japonês, o italiano, o alemão, mesmo o francês, são línguas cuja presença na net não deveria exceder a do português – se os falantes respectivos tivessem igualdade de acesso, e igualdade de condições económicas e culturais para marcar a sua presença.
Ou seja, o tal nono lugar não é nenhuma distinção com que devamos ficar satisfeitos, e antes revela as carências de desenvolvimento que afectam o universo lusófono. Sobretudo se pensarmos que mesmo esse lugar resulta da dimensão do Brasil.
Como é evidente para quem pensa em termos de estratégia nacional e de futuro, esta devia ser uma causa de mobilização nacional, e imediata: a capacidade de marcar presença na net é decisiva para a própria presença de Portugal no mundo.
Considerando o universo de falantes da língua portuguesa, em África, no Brasil, na Europa, em Timor, ou um pouco por todo o mundo, onde quase não existe lugar em que não haja uma comunidade portuguesa, haveria condições únicas para incrementar uma rede universal em língua portuguesa que assegurasse um papel de destaque para a língua e cultura nacionais.
Uma ligação efectiva entre todas as comunidades de língua portuguesa, estejam em Macau, em Goa ou em Malaca ....
Torna-se desnecessário sublinhar como esse investimento seria compensador, dos pontos de vista cultural, económico e político.
Da mesma forma, o rápido desenvolvimento das tecnologias de informação é decisivo para a nossa competitividade entre as sociedades avançadas.
Justificava-se por isso um enorme esforço nacional, quer na generalização das tecnologias de informação a nível interno quer no rápido estabelecimento dessa rede universal.
Porém, não se conhecem planos governamentais nessa área; parece que vamos continuar a ter políticas mesquinhas e sem visão de futuro, em que miseráveis debates internos se sobrepõem a qualquer projecto global.
Será mais importante castigar os produtos informáticos com impostos, ou apostar numa isenção fiscal que provocasse uma forte descida de preços e com isso o acesso generalizado dos portugueses aos produtos de hardware ou de software necessários para nos colocar no pelotão da frente entre as sociedades de informação?
Será mais importante poupar uns tantos euros, ou fornecer a tantas e tantas associações e clubes de portugueses espalhados pelo mundo os apoios que precisem para assegurar computadores, ligações e conteúdos que lhes mantenham um contacto permanente com todos os portugueses, onde quer que estejam?
Existe uma política nacional de informação e de informatização? Existe uma política nacional de produção de conteúdos? Existe sequer uma política nacional de divulgação através das tecnologias de informação?
É de recear que a manter-se a ausência de estratégias e a permanente preocupação com o imediato, o que enche o olho, o que rende eleitoralmente, venhamos a encontrar-nos irremediavelmente ultrapassados.


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