Manuel Maria Baptista Múrias
A primeira vez que o vi, em pessoa, foi na redacção de “A Rua”, num andar da Sampaio e Pina, pertinho do Liceu Maria Amália e do Rádio Clube Português.
Lembro-me como se fosse agora: ao subir o velho elevador fez-me companhia um sujeito que chamava a atenção pelo volume extraordinário – ameaçava imobilizar o ronceiro aparelho, que avançava balouçando e arfando.
Passava a meia idade, calvo, calado, olhos vivos a sobressair no rosto enorme e inchado. Vestia como um funcionário público dos anos quarenta, um apertado e antiquado fato cinzento, chapéu na mão, a condizer, colete a rebentar nos botões, gravata discreta.
Soube mais tarde que o gordíssimo personagem era Fernando Jasmins Pereira, o erudito autor do ensaio “O Estudo da História”, e de exaustivas investigações sobre a história económica da Madeira.
Lembro-me como nos divertíamos - juventude leviana e inconsciente! - com os seus requintes de erudição: a importância da cultura da cana sacarina para a economia madeirense nos séculos XVII e XVIII não estava entre as nossas primeiras preocupações. O subtítulo explicativo do livro sobre o estudo da história é, com toda a pompa, “refutação de algumas proposições de anti-história”.
Tenho mesmo um amigo que tinha o hábito de ler os artigos do Jasmins munido previamente de um dicionário; uma vez chegou junto de mim eufórico e confidenciou-me: “esta semana só precisei de ir ver catorze palavras!”.
Entrados na redacção (na verdade uma casa para habitação de bairro burguês onde se instalara uma redacção de jornal) ressaltava a presença esfuziante do pequeno Vítor Luís. Os seus talentos de caricaturista, a sua veia humorista, estavam documentados por todo o lado. O Vítor, então jovem e transbordante de entusiasmo, não era só o paginador, ou o responsável gráfico, era o benjamim do grupo, e a sua irrequietude contagiante tornavam-no querido de todo o jornal.
Sem ofensa, mas afectivamente era a mascote da instituição.
Os desenhos do Vítor, e as piadas, surgiam nos locais menos esperados (não, nesse dia não fui à casa de banho...)
Ao avançar no corredor uma porta de gabinete ostentava um letreiro a pedir “Bata no Talone antes de entrar”. Olhei intrigado, até perceber que as palavras “ no Talone” tinham sido intercaladas no letreiro original; nessa altura saiu de dentro do gabinete, mal humorado, o então administrador do jornal, João Talone.
Uma ou duas portas adiante outro solene aviso: “Caverna do Urso”. Antes tinha sido gabinete do director.
Segui, e fiquei uns instantes à conversa; lembro-me que estava o Walter Ventura, enfiado num velho sofá, uma perna cruzada sobre a outra a exibir a bota de elástico, a poluir a atmosfera já saturada de fumo e nicotina. Filosofava sobre qualquer coisa, com pouca fé e metódico cepticismo, como é seu uso.
De outro ponto da casa ouvia-se um vozear grosso de chefe zangado, a ralhar, irritado, em agitação exigente e insatisfeita.
Encolhi-me, apreensivo com o barulho, mas na sala o pessoal da casa encolhia os ombros, e entreolhava-se com sorrisos irónicos; as cóleras eram normais, e ninguém ligava excessivamente.
De súbito, entrou na sala o esperado urso: impressionava logo pela estatura, e estacou, com cara de poucos amigos. Levantei-me e empertiguei-me, mais respeitoso que os demais circunstantes, olhando-o de frente, embora um palmo mais abaixo.
Apresentaram-me então o senhor director, Manuel Maria Múrias.


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