quinta-feira, outubro 09, 2003

O GRANDE GINÁSIO DAS CORDAS VOCAIS

Não digo que seja um imóvel propriamente bem-parecido, como não acho que seja um prédio manifestamente mal-encarado. Antes o considero como aquilo que é: um desses esbeltos edifícios, de porte altamente helénico, mas que têm escarradinhos no rosto os crimes todos que lá se cometem.
Pela imponência do estilo, dir-se-ia que traz «o rei na barriga» — mas não traz tal. Alojados no bojo, à laia de miudezas, povoam-no, sim (e roem-no por dentro o mais que podem, e o melhor que sabem) meia-dúzia de monárquicos republicanos e mais duzentos democratas puro sangue, com outros parasitas correlativos à mistura...
É um verdadeiro recipiente de palavras e funciona em regime de sessões contínuas.
Se visto por dentro, lembra um boião, contemplado de fora não engana ninguém, — até porque a fachada ostenta uma expressão spínolamente alvar (condizente, aliás, com o resto do conjunto).
E, por aqui, já com certeza terão percebido que estou a falar, concretamente, do velho Pagode parlamentar — porventura mais conhecido, nos dias que vão correndo pel`O Animatógrafo da Estrela ou por Teatro-de-São-Bento-da-Porta-Aberta.
Sobre esta, honestamente devo dizer que nunca uma porta aberta se pareceu tanto com uma porta fechada. Mais: não sendo uma porta aberta «com vista para o futuro», visto dar directamente para o hemicirco, ainda agora não enxergo muito bem que espécie de serventia suplementar pode ela ter, para ser tão demandada como é. A não ser... (Cala-te boca!).
E depois, muito mau-hálito tem o estafermo do casarão!... Tem mesmo mau-hálito: um hálito empestado que lhe vem das entranhas e que fede, à distância — chamando a atenção das narinas em trânsito.
Quem lhe passe ao portar é certo e sabido que apanha pelas ventas com um cheiro tão intenso a vinhaça parlamentar, que é de tombar logo ali inanimado.
E nem outra coisa se poderia esperar da capitosa construção; bem vêem porquê: para todos os efeitos, trata-se de um viveiro de tribunos e oradores, que é gente que defeca por via oral. Logo... tudo aquilo tresanda!
Mas ainda que eu quisesse — e claro está que não quero! — explicar a vocelências porque carga d`água (ou de vinho...) fui visto e achado em semelhante sítio, não poderia.
Parei ali, nem eu sei porquê. Sendo um homem de poucas falas, nunca o Parlamento me atraiu — nem mesmo exteriormente. Parei ali, como poderia ter parado noutro lado.
... Mas tive, de repente, a sensação de me estar a ser deitado um mau-olhado. E, pelo sim, pelo não, estaquei ali mesmo. — E não é que vi, daí a nadinha, o frontão do Pagode a franzir(-me) o sobrolho?!...
Como devem compreender, tomei aquilo à conta de impertinência e, considerando-me hostilizado, bati em retirada.
Moral da história: mal por mal, melhor me fora ter ido parar ao Mercado de Santa Clara (Gomes?), ali à Feira da Ladra, ou estar aninhado na «covinha do ladrão» — que é como é conhecida hoje a tebaida do sr. Palma Inácio.


RODRIGO EMÍLIO (In A Rua, n.º 192, pág. 20, 14.12.1980)