Regresso
Depois de muitas e variadas postas tratando dos assuntos da pátria, é altura de recolher a casa.
Évora, fascínio e nostalgia.
Presente sempre, quando longe nos pensamos, ausência esfíngica, misteriosa e indefinível, quando presentes nos julgamos.
Mistério puro, em enigma silencioso feito de pedras e de sombras.
Conheci um poema, deveras a propósito, e não resisto a partilhá-lo.
Fica para meditação, nas angústias e depressões eborenses.
S. Vicente, Évora
No largo de S. Vicente em Évora há uma
esplanada que se
estende por todo o passeio fronteiro à igreja.
O largo que não é grande ficou convertido na sua
quase total extensão: mesas e cadeiras ocupam-no.
O ângulo formado pela igreja e casario estabelece
uma zona de sombra. Não deixa de ser agradável.
No entanto, eu guardo comigo uma
incompreensível oposição à cidade e não me
esqueço de um distante comentário do João
Palolo quando nos conhecemos: Évora é uma
terra construída sobre mortos. Há esqueletos sob
todas as casas e ruas. Onde quer que se escave
estão mortos. A capela dos ossos na igreja de
S. Francisco não passa de um sinal do que é na
realidade toda a cidade: mortos, cadáveres
mumificados, esqueletos, ossos. Évora a
morte..". E suspendeu o que me dizia para
concluir um pouco depois, sob evidente temor:
" A morte nunca teve voz. Não fique preso a
Évora. Évora é uma cidade de grande solidão.
Persegue-nos de uma forma duradoura, mortal.
Temos de lhe resistir, porque senão acabamos por
perder nela, para sempre, os nossos dias, como
quem procura alguém que nunca existiu ou que,
ainda, existiu menos que nós."
João Miguel Fernandes Jorge (in Alentejo não tem sombra)


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