terça-feira, outubro 07, 2003

Uma proposta inovadora

Num recente post, o Rui, da Catalaxia, confessava que uma das razões dos seus engulhos com o ideal monárquico estava no elevado nível de imbecilidade de uns quantos personagens que tinha conhecido e que tinham em comum a sua devoção à monarquia.
O critério deixou-me a pensar. Ora aí está um método original e interessante para avaliar da bondade das doutrinas políticas. Já que os sábios tantas vezes se enganam, confiemos nos imbecis. Se uma doutrina provoca a adesão entusiasmada de notórios cretinos então não pode valer grande coisa.
Pois bem: façamos desta intuição um método. Parece simples de executar: a partir de agora prestamos atenção a todos os idiotas que vamos encontrando nos caminhos da vida. De preferência consideremos apenas os grandes idiotas, os que se apresentem como indiscutíveis idiotas, de estupidez sólida e inexpugnável (a fim de escapar a subjectividades). Não será difícil encontrá-los, visto que, como é de experiência, eles abundam a cada passo.
Quando detectarmos um, anota-se o facto; e trata-se logo de indagar das suas crenças políticas (este método também poderia resultar por exemplo com as preferências clubísticas, mas aqui é das doutrinas políticas que estamos a tratar).
Em face do sondado, proceda-se como os rapazes das empresas de sondagens: consigna-se a respectiva convicção política na ficha de inquérito. Convém usar sempre um caderninho, para aumentar o rigor da amostra (bem, isto de falar em amostras e sondagens traz associações perigosas; mas continuemos).
Uma vez que o grau de fiabilidade das conclusões estatísticas aumenta tanto mais quanto maior for o universo da amostragem, deve ser considerado o maior número possível de tolos. Repare-se que caso fosse considerado apenas um universo limitado (os amigos do Rui, por exemplo, ou os frequentadores de certo bar, ou de determinada loja, etc. etc.) as conclusões sairiam naturalmente distorcidas.
Na posse do maior número de dados possível, faça-se então a classificação das ideologias políticas segundo o seu grau de atracção para a imbecilidade. Obtém-se necessariamente uma gradação, em que num extremo estará aquela posição política que maior sentimento de adesão provoca nos imbecis e no extremo oposto a posição política que menos adesão causa na classe em estudo, ou que lhe causa maior repulsa.
Sem esquecer a valia científica das conclusões, neste campo sempre tão espinhoso da avaliação das ideias políticas, a utilidade operacional dessa classificação das doutrinas políticas estará em que, se bem acompanho o rasgo de génio do meu inspirador, uma vez estabelecida e conhecida permitirá a qualquer um que não goste de confundir-se com imbecis colocar-se com segurança na posição mais afastada daquela em que se manifeste a mais intensa adesão de cretinos.
Deixo aqui a teorização da ideia, convencido do seu valor e da sua originalidade. E fico a aguardar os resultados práticos da respectiva aplicação – que antevejo especialmente divertidos.