César escuta como cantas
É preciso que canteis com o folgo poderoso
com que canta o mar as suas mais roucas marés
porque na planície floresceu uma voz que não perece com o vento
uma voz de homem dourada como o sol
que vem dizer como hão-de ser escritos os vossos corações de homens.
É preciso que canteis
enquanto reste um sangue que soluce
uma espiga que não dê pão
uma terra que não tenha o nosso nome.
É preciso.
Quisera que existisse uma árvore cujos ramos
nunca tivessem ouvido o abraço do vento.
Saltarias como potros à sua primeira voz
e mesmo no tempo da neve dura
dariam flores vermelhas como lábios.
É ele, sabeis?, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis.
Nasceu essa voz na planície quando num céu de carvões
a morte entornava os seus poços assassinos.
Não veio essa voz para fantasmas nem para os peitos secos
pois nasceu para homens com asas
e o coração ardente como um licor proibido.
Para nós veio essa voz e por isso cantamos com o vigor real dos robles
até que todo o sangue corra nas veias
até que todas as espigas amadureçam
até que todas as terras digam o nosso nome.
Com as nossas camisas azuis
com os nossos mortos parindo terra debaixo dos nossos pés
com os nossos corações recentes como filhos
sobre o mundo nos vemos como ressuscitamos.
É certo que cantaremos até ao fim.
Oh, tu!, essa formosíssima voz que não cessa!
Oh, tu!, a quem os homens chamam
vem, vem cantar connosco as canções do teu próprio sonho.
Todos quereríamos ter-te nas nossas gargantas
para que à tua carne passasse o tremor dos nossos gritos.
Neles soa o teu nome
como uma espada de César contra um bosque de chamas.
Ouve-nos cantar desde esse bosque
onde foste vencer o teu último sonho.
Cantamos porque tu entre nós
deixaste arder o teu corpo soberano.
É preciso que cantemos até ao fim.
Que José António saiba que não há medo
nem cobras nem lodo nem fome crua.
Que cantemos até que não falte
nem um coração de homem escrito à sua palavra.
Porque é ele, sabeis!, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis como canta o mar as mais roucas marés
porque ele escuta como ressuscitamos.
ÁLVARO CUNQUEIRO
(versão portuguesa de ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, publicada no semanário “A RUA”)


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