segunda-feira, dezembro 08, 2003

Dia da Mãe

Por vezes, os olhos de minha mãe abrem-se, devagarinho.
Baços, entre olheiras escuras e encovadas, janelas sombrias no rosto imóvel, amarelecido e sem vida, fitam-me em súbito reencontro.
A vida pára, e suspende-me nesse olhar, no silêncio sem fim.
Olho-a também. Tudo o mais se desvanece, num momento.
O corpo mirrado e hirto. Os tubos por onde a vida se escoa. O quarto. A cama. O odor a agonia e hospital.
O universo fica ali, inteiro, naquele olhar.
No fundo dos seus olhos doloridos e sem luz, uma leve chama se acende, num lampejo suave e mudo.
E de novo devagar se recolhem, adormecidos num torpor sem esperança - os olhos de minha mãe ....