quinta-feira, dezembro 11, 2003

Mais papéis velhos

Continuando a publicitar, em desinteressada acção de benefício à ciência histórica, as extraordinárias descobertas que a comissão ad hoc para investigação dos acontecimentos do 28 de Setembro de 1974 exarou no seu relatório, após poucos meses de porfiado labor, reproduzo hoje o que foi possível apurar sobre um sinistro agrupamento, de que ainda restam por aí uns salafrários, que operou impunemente durante uns meses de 1974. Impunemente ... até a gloriosa revolução se lançar a eles! Que depois pagaram-nas bem, os malandros ...

“10. Movimento de Acção Portuguesa (MAP)
Este agrupamento resultou de uma cisão operada num sector da direita portuguesa, cisão essa que foi motivada primordialmente por uma divergência ideológica quanto à problemática colonial.
Assim, parte desse sector compreendeu que a alternativa possível, depois do 25 de Abril, em relação àqueles territórios, ainda poderia ser a tese federalista, perfilhando (ou pseudo-perfilhando) as ideias do General Spínola, expostas no seu livro "Portugal e o Futuro" pelo que se apressou a erguer o Movimento Federalista Português/Partido do Progresso.
A outra parte (ou resíduo) dessa direita permaneceu agarrada à tese integracionista de Salazar e Caetano, negando-se à associação, que inicialmente foi proposta, ao Movimento Federalista. Por isso, os indivíduos que estiveram na origem do MAP, Florentino Goulart Nogueira e Rodrigo Emílio Alarcão Ribeiro de Melo, ambos poetas e amigos de José Valle de Figueiredo, resolveram formar um outro grupo político, cuja designação seria Movimento Nacionalista Português, a qual teve de ser alterada em virtude do aparecimento do Partido Nacionalista.
As linhas programáticas do Movimento de Acção Portuguesa (MAP), para além de desenvolverem as ideias integracionistas, eram orientadas num sentido unipartidário, anticomunista e apologista de governos de minorias. A título exemplificativo, transcrevem-se alguns dos pontos básicos do seu programa, onde as características indicadas ressaltam com maior nitidez: - defesa da unidade nacional, como País pluricontinental; - respeito pela verdadeira independência da Pátria, que não se compadece com a imitação servil de modelos estrangeiros; - apologia da autoridade e da ordem; - repúdio do dogma da luta de classes; - condenação do espírito de divisão partidarista; - libertação da cultura, dominada pelo dogmatismo marxista.
Paralelamente à adopção destas linhas ideológicas orientadoras da sua actividade política, o facto de certos ex-legionários constituírem um dos principais campos de recrutamento de elementos para o MAP, se não é conclusivo, legitima, contudo, todas as dúvidas que pode levantar.
0 Movimento de Acção Portuguesa acabou por se revelar somente como um grupo de perigosos activistas que poderiam inclusive dedicar-se à prática de acções específicas, das quais se não excluíam mesmo os atentados. A sua sede localizava-se na zona da Calçada da Estrela, muito próximo da residência oficial do Primeiro-Ministro em São Bento.
0 presidente de honra do MAP era o Professor Guilherme Braga da Cruz, de Coimbra, com quem os fundadores já citados mantinham boas relações. Outros membros desta tenebrosa organização eram: Walter Cândido Ventura, maníaco por armas de fogo, potencialmente perigoso, administrador de posto em Angola, com estágio de "comandos"; Delfim Fuentes Mendes, pertencente ao movimento "Jovem Portugal", nazi fanático, presente numa reunião da comissão organizadora da manifestação dita da "maioria silenciosa"; Vasco Emanuel de Centeno Barata e José Rebordão Esteves Pinto, também activos ex-legionários e antigos colaboradores da Radiotelevisão Portuguesa”.


Que se há-de dizer? Desde a adjectivação à perspicácia dedutiva, um prodígio! E quanto a descobertas, estes rapazes do MFA são de fazer inveja a Sherlock Holmes ... vejam bem os leitores: quem iria desconfiar que o Walter era ... cândido?