O Bispo do Porto e o aborto
O senhor Bispo do Porto, como outros mais, faz-me sempre lembrar um dito de um velho Cónego meu amigo.
Quando o encontro, mesmo na rua e ocasionalmente, e a conversa começa a descambar para certas malfeitorias e desvarios hoje generalizados, o meu idoso amigo clérigo agarra-me no braço, aproxima-se mais e diz-me, em tom confidencial, como quem comunica um segredo importante: – “olha meu rapaz, a grande prova da origem divina da nossa Igreja está em que ela ainda aí está, ao fim de dois mil anos, apesar de tudo o que nós os padres temos feito para acabar com ela ...”
Quer ele dizer na sua que o tamanho dos dislates não pode distrair-nos do essencial – e o melhor é passar à frente.
Seguindo essa orientação, que além do mais evita complicações com as úlceras no estômago, quando me surge o sobredito mitrado perorando em qualquer meio de intoxicação social procuro fixar a atenção noutra coisa qualquer – e nunca ficar a saber o que ele diz.
Mas por vezes é difícil. A tirania dos títulos garrafais na primeira página, dos telejornais que nos apanham sem ter tempo para mudar de canal, tudo tem tornado inevitável que algumas vezes tenham chegado até mim as lucubrações de Sua Eminência.
Logo ao chegar ao importante cargo fez-se notar por, com grande alarido publicitário, ter feito questão de se deslocar às Antas para se fazer sócio do Futebol Clube do Porto, explicando que com tal gesto visava identificar-se e integrar-se com as gentes da sua nova diocese.
Pasmei, esperando logo o que se seguiria, com as reacções de outros lados. Mas não, nem o Boavista promoveu uma manifestação pedindo um Bispo só para eles, nem o senhor Bispo do Algarve surgiu na televisão a dançar o corridinho, nem o Senhor Bispo de Angra apareceu a actuar numa tourada à corda, nem o D. Januário se inscreveu nos “Diabos Vermelhos” – onde de resto não ficava nada mal.
Quer dizer que o bem senso dos outros foi maior, e a doutrina de D. Armindo foi sabiamente ignorada. Como desejaria o meu amigo Cónego.
Muito mais recentemente irrompeu o Ilustre Prelado na praça pública para se insurgir contra as perseguições que estavam a vitimar uma sua patrícia, de nome Fátima Felgueiras, dama impoluta e incompreendida. Sobre esta questão também ninguém disse nada, e perante as evoluções imediatas do caso parece que até o impulsivo purpurado decidiu calar-se.
Agora, em súbita recrudescência das polémicas abortistas, veio o Senhor Bispo fazer declarações ao mais importante jornal português, certamente de modo estudado, para alinhar ao lado das teses que a sua Igreja, por imperativo que o vincula, tem rejeitado e combatido.
Não se percebe com nitidez qual seja a posição do Senhor Bispo, enredado em conceitos obscuros como despenalização, legalização, descriminalização, etc. Mas entende-se o mais importante.
Lamentavelmente, ficou por dizer se o Senhor Bispo prefere os abortos feitos no sistema nacional de saúde, portanto públicos, livres e gratuitos, como gostam os abortistas de linha socializante, ou os abortos em clínicas próprias, privadas e custeadas pelos interessados, como propõem, em clara defesa dos contribuintes e da iniciativa privada, os abortistas neodireitistas.
Sobre essa divergência crucial o Sr. Bispo nada disse, concerteza porque acha que não deve pronunciar-se sobre política.
Como os meus conselhos serão inúteis, não valerá a pena exarar o que me parecia adequado ao Sr. Bispo do Porto: penitência e oração, muita penitência e muita oração, e voto de silêncio perpétuo. Que se calasse, ao menos, era um ganho inestimável para a Igreja e para os católicos. Mas deixo isto para o seu confessor, se ele o tiver.
Limito-me a consignar que também desta vez me escapam as motivações e as finalidades que animam o Senhor Bispo. O que procura não será apenas uma coluna no “Independente”, que, aliás, certamente lhe seria franqueada.
Mas também aqui e agora o melhor é seguir a orientação do meu amigo Cónego.
Quero lá saber do que diz o Bispo do Porto!


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