O meu blogue
Hoje apetece-me falar, abrir a alma, com os leitores que imagino que terei. Sobre o meu blogue. Acredito que o meu blogue é um caso singular. Provavelmente os outros pensam o mesmo – mas pronto: é o que eu sinto. “Falo de mim. Só falo/daquilo que conheço./O resto calo, e esqueço”. Comecei por um impulso momentâneo e solitário. Divagava distraído pela net e encontrei um blogue com a assinatura e a escrita de alguém que conheço e estimo. Como quem encontra à esquina um amigo que há muitos anos não via. E assim nasceu: pareceu-me simples e fácil – porque não eu, aqui dos longes do exílio para onde a vida me atirou.
Começou assim, o vício, e depois seguiu. Entranhou-se, como um vício. Nunca mais houve um dia em que não lhe prestasse o tributo. Estivesse onde estivesse, em computador próprio ou alheio, pessoal ou de serviço, a horas ou a desoras. E tudo o que aqui publico é meu; mesmo quando as palavras são dos outros, é de mim que falam. Porque não tenho tempo para mais produção original, recorro muito a textos alheios. É o que chamo os meus congelados, que tiro da arca quando quero dizer algo mas me falta de todo a possibilidade de o fazer por palavras minhas. Mas nem por isso o blogue é menos pessoal; na verdade, ele é estrita e rigorosamente pessoal. Comecei sem dizer a ninguém. Em casa ninguém faz ideia que eu tenho um blogue. No trabalho muito menos. Como a vida social desde há muitos anos se restringe aos cumprimentos rituais com quem me cruzo entre casa e trabalho, percurso que faço a pé diariamente por quatro vezes, no meu já de si reduzido círculo habitual ninguém tem conhecimento de tal extravagância.
Um exercício inteiramente solitário, portanto.
Durante os quatro meses que já se completaram sobre esse início, houve quatro ou cinco pessoas que embora distantes acabaram por reconhecer o bloguista – que ainda tinham presente, de tempos remotos. E houve entretanto mais três ou quatro que travaram conhecimento virtual com o mesmo, e desde aí são fiéis e constantes apoiantes da empresa – pese embora não poderem reconhecer o autor, se o virem na rua.
Assim se resume o feedback disponível. Um punhado de gente que se conta pelos dedos, fisicamente separada do escriba por centenas de quilómetros e/ou por muitos anos de afastamento, mas que por generosidade e humana simpatia toma posições de encorajamento e apreço, mesmo quando discorda.
Mas, e os outros? Muitas vezes, em frente do teclado e do écran, pergunto a mim mesmo quem serão os outros. Os que não conheço, nem deste convívio virtual, porque não os posso ver, nem com certeza sentir se estão algures noutro terminal da rede, nem nunca se deram a conhecer.
De acordo com o blogómetro, o número de visitantes do meu blogue, em cada dia, ronda em média os cento e cinquenta (os visitantes reais, não os clics, evidentemente). Quem serão? O que os traz aqui? Serão novos? Serão velhos? Homens? Mulheres? Corações de esperança? Vencidos da vida? Vêm ao engano? Vieram por gosto? Por simpatia? Por aversão? Nunca saberei.
Quero todavia dizer a todos, sejam quais forem as suas pessoalíssimas circunstâncias, que lhes agradeço o que me dão. Esta teia difusa de cumplicidade distante que se entretece entre quem está deste lado e quem do outro está, e que afinal reconforta e aconchega, como lareira no Inverno.


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