quarta-feira, dezembro 03, 2003

O POÇO

Lembro-me de que havia um poço no quintalão de uma das velhas casas em que passei a minha infância. Era a um canto, onde os muros se uniam por fiapos de trepadeira.
O poço estava seco. No fundo tinha só o entulho de sucessivos outonos, a despejarem-lhe folhas caídas das árvores; e teria também algum lixo para lá deitado pelas criadas, quando lhes não aprazia ir até mais longe.
Tinham-me dito que aquilo era um poço, mas eu não acreditava. Os outros poços que eu conhecia de quintais vizinhos nunca deixavam de replicar com um chape-chape sonoro ou com um simples murmúrio às pedradas com que eu lhes alvejava a fundura. O poço do meu quintal, por mais pedras que eu lhe atirasse, ficava sempre mudo. Dos outros poços, mesmo dos mais soturnos, vinha sempre até mim o fresco bafo da água que escondiam. Do poço do meu quintal vinha apenas um seco cheiro a lixo. Pior do que a lixo - a nada.
Nunca soube se o poço estava realmente seco ou só entulhado. Entulhado de todo em todo não estaria; por mais longas e fortes bátegas em que se desfizessem as nuvens, não havia chuva que chegasse para o encher uma hora que fosse. Toda a água se escapava lá dentro, não sei para onde.
Quarenta e tantos anos passados, uma imagem que me persegue nas insónias, é de novo a do seco e estéril poço da minha infância. Isto acontece se por acaso me ponho a pensar naquilo em que se tornou o meu País, ou, mais exactamente, naquilo em que o tornaram desde um certo Abril. Quando me ponho a pensar em quantos inquéritos se abriram e se não concluíram, em quantos escândalos se revelaram e logo se abafaram, em quantos crimes têm ficado impunes, em quantos projectos regeneradores se prometeram, em quantos brados angustiosos se têm feito ouvir, clamando por melhores condições de vida, por mais justiça, por mais verdade e, sobretudo, por mais portugalidade - a imagem que me ocorre é sempre, inevitavelmente, a do seco e fundo poço do antigo quintal da minha infância, de onde nunca me chegou o som de um rumor de água nem o eco de resposta a nenhum dos meus berros de garoto.
E talvez o poço não estivesse perdido; nem de todo em todo seco. Talvez o poço estivesse, apenas, um pouco entulhado. Quem sabe?

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(in A RUA, 22 de Maio de 1980)