domingo, dezembro 07, 2003

A UM MENINO JESUS

Num convento solitário
de Évora, cidade clara,
claro celeiro de pão,
existe uma imagem rara,
obra dum imaginário
dos tempos que já lá vão ...

É um Menino Jesus,
de bochechinha brunida
cor de maçã camoesa,
mas no seu rosto trasluz
uma expressão dolorida
que enche a gente de tristeza ...

De tantíssimas imagens
nenhuma vi que mais prenda,
que maior ternura expanda,
com suas calças de renda,
seu vestido de ramagens,
e coroa posta à banda ...

Gordo, nédio, bem trajado,
deveria ser feliz;
deveria estar sorrindo;
mas o seu olhar magoado,
tão magoado, tão lindo,
que não o é, bem no diz ...

Se não fosse por ser Deus
e o seu poder infinito
ter sempre que o demonstrar
cá na terra e lá nos Céus,
estenderia o beicito
e desataria a chorar!...

Corre o tempo descuidado,
passa uma hora, outra hora,
atrás desta outras se vão.
E quem o vê, encantado,
sem se poder ir embora
numa perpétua atracção ...

Eu entrei com o Sol a pino.
Pouco depois da chegada
(pouco a mim me pareceu)
deixei de ver o Menino ...
Não era a vista cansada,
foi a noite que desceu ...

Mesmo assim lá ficaria
absorto em muda prece
de quem mal sabe rezar,
se o sacristão não viesse,
com rodas de Senhoria,
dizer-me que ia fechar ...

Pudesse tê-lo trazido
e não fosse eu rico apenas
de fantasia, de esp’ranças,
punha-o num nicho florido
por sobre as camas pequenas
dum hospital de crianças ...

Dum hospitalar modelar
sustentado por meus bens,
entre olaias e roseiras,
cheio de sol, cheio de ar,
e em que as boas enfermeiras,
seriam as próprias mães ...

A mais ampla enfermaria
Desse escolhido local
De bondade e sofrimento
era o fundo natural
da funda melancolia
do Menino do convento ...


Augusto Gil

Desde os meus onze ou doze anos (sim, fui sempre muito precoce) me interrogava sobre qual a imagem que teria inspirado ao autor da “Balada da Neve” estas sextilhas de enternecido lirismo. E qual o local onde a teria admirado. Em Évora, num convento? Mas onde? Fui indagando, e meditando.
Curiosamente, em Évora a devoção do Menino Jesus teve sempre larga expressão. A cidade foi marcada por notável abundância de imagens do Menino Jesus, e as mais celebradas encontravam-se em diversos conventos (o Dr. Carvalho Moniz propunha mesmo a designação de “cidade do Menino Jesus”).
Mas penso que não há lugar a muitas dúvidas: pela descrição, a imagem é precisamente a mais famosa e popular (antigamente ...) das imagens do Menino Jesus veneradas em Évora.
Era o Menino Jesus do Convento de Santa Mónica, imagem conhecida desde o século XVI, e de tanta devoção que o convento ficou a ser chamado de Convento do Menino Jesus, e por Carreira do Menino Jesus ficou a ser designada a rua que conduz da Porta Nova até ao Convento (era a antiga Alcárcova dos Mouros).
Segundo os historiadores dessa casa de agostinhas, por intermédio dessa imagem se conseguiram “muitos mimos do céu”...
No meu tempo, no que resta do convento funcionava a Escola do Magistério Primário e ainda as anexas escolas primárias, com entrada pelo Largo de São Mamede, junto à Igreja de São Mamede. Ali este vosso amigo frequentou e completou a instrução primária, fazendo solene exame da 4º classe perante um júri composto por três excelentes senhoras que recorda com saudade. Nesse tempo isso era a sério!
A imagem em causa está há muito na Sé Catedral, e ali deve ter sido observada pelo poeta – não no convento, que estava já profanado na época de Augusto Gil. A localização espacial resultou de liberdade poética.
De acordo com a tradição, a imagem teria sido trazida para a Sé Catedral pelo meirinho, conhecido pelo Tomás da Sé, que na confusão que se seguiu à extinção dos conventos, e para evitar a esta o destino que tantas outras sofreram, conseguiu alcançar a imagem, escondê-la debaixo do capote e trazê-la até à sua Sé. Onde ficou e permanece.
Os eborenses é que esqueceram a antiga devoção.