quinta-feira, dezembro 11, 2003

VINTE DE MAIO (Timor... e não só!)

Vinte de Maio de dois mil e dois. Nasce uma nova nação. Gerada no sofrimento. Combatendo a indiferença. Com sangue, muito sangue.
Vinte de Maio de dois mil e dois. Esta data ficará na História. Vinte sete anos depois, e duzentos mil mortos como preço e marca de ocupação, a Indonésia vê surgir nas suas fronteiras um novo país ao qual quis negar a liberdade, apoiada por um grande deste mundo, em nome da estabilidade do seu próprio regime. Como se se pudessem invadir vizinhos só porque o sistema político não agrada. Não há lei que tal contemple. As instâncias internacionais nunca aceitarão a legalidade da acção.
Vinte de Maio. Uma data marcante na História de Portugal.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Um governador militar, perante um ataque iminente, decide capitular. Afinal, o invasor mais não é que um peão manobrado por uma potência exterior. Lutar para quê ?
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Espera-se que, tal como sucedeu em situações anteriores, tudo volte a ser como antes quando uma verdadeira paz for assinada. O invasor sairá então.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Olivença capitula, sem disparar um tiro. A população inquieta-se, mas confia. Com o tempo, tudo regressará ao normal.
Muitos anos antes, em mil seiscentos e cinquenta e sete, ocorrera algo idêntico. Quase todos tinham fugido, para regressar onze anos depois. Tudo se recompusera.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um.
Não houve sangue. Uns poucos (os pessimistas!) atravessaram o Guadiana. Em Elvas, o invasor encontraria resistência, bem como em Campo Maior. Na primeira, conseguiu uns ramos de laranjeira. Na segunda, acabou por vencer, mas a que preço!!!
E veio uma paz falsa e logo violada. E outras guerras. E uma paz verdadeira, em que se apagou o vinte de Maio de mil oitocentos e um. Para todos. Mas não para o invasor. Que não matou duzentos mil, nem mil, nem cem. Mas matou uma cultura. Ou, pelo menos, deixou-a vazia, moribunda. Em duzentos e um anos, muito se consegue. Recorrendo à repressão, quando necessário. Às claras, ou discretamente.
Vinte de Maio de dois mil e dois. Timor-Leste é uma nação livre. Este vinte de Maio é diferente. Timor derramou sangue, muito sangue. Disparou-se sem contemplações.
Olivença não viu sangue derramado em vinte de Maio de mil oitocentos e um. Por isso, nesse aspecto, não é comparável.
Mas... Olivença viu ser sangrada a sua cultura e a sua história. Viu gente sua dispersa, numa sangria dos seus filhos. Não morreu na carne. Morreu no espírito. O passado tornou-se um conjunto de sombras vagas, contraditórias, falsidades contra as quais quase não consegue reagir. Perdeu as referências.
Vinte de Maio de dois mil e dois. A bandeira de Timor Lorosae tremula sobre um povo libertado. Consciente da sua história. Dolorosa. Mas de todos conhecida. Por todos sofrida.
O invasor teve quase vinte e cinco anos para diluir uma nação e fazê-la esquecer-se de si própria. Algumas vozes calaram-se. Outras, nunca o fizeram. Tiveram dúvidas, mas não desistiram.
E fizeram-se ouvir. Alguns resistiram em Timor. Outros, principalmente os que falavam em Português (ainda que não só...), protestavam. E não deixavam esquecer. Teimosamente. Vinte e cinco anos de teimosia.
O ocupante não conseguiu, em vinte e cinco anos, apagar a chama. Poucos se vergaram.
Vinte de Maio. Uma data no calendário. Consoante o ano, o início de uma ocupação persistente, contínua, preocupada em apagar um passado de seiscentos anos, numa população que resistiu com fracos recursos e apoios. Ou o início da vida independente de um povo. Que sofreu, mas venceu. Que a diplomacia nunca abandonou. Corajosamente. Crente em princípios.
Mil oitocentos e um. Dois mil e dois.
Dois vinte de Maio...

Carlos Eduardo da Cruz Luna