domingo, janeiro 04, 2004

Frei Tomás

Quase sempre aludindo a uma conduta que se tem como hipócrita, é frequente encontrar quem com ar de superioridade moral recorde um antigo ditado: “bem prega Frei Tomás: façam como ele diz, não façam como ele faz”.
O provérbio significaria assim reprovação e desprezo por aqueles que actuam de modo diferente do que apregoam como estando certo.
Como sabem os leitores, os tempos que correm trazem-me meditabundo. E dei por mim a meditar se Frei Tomás não seria merecedor de mais benévola compreensão.
Não sei a origem do anexim; mas olhando-o com atenção constatamos que Frei Tomás seria alguém que estava certo no que dizia, pregava o caminho justo, aconselhava rectamente. Por isso o povo, sábio, concluiu que, dada a desconformidade do seu agir com o seu dizer, o melhor era fazer como ele dizia, não como ele fazia.
Visto assim, o brocardo aparece com uma homenagem à boa pregação – e uma indicação para que o mau exemplo não nos perturbe.
Chegou-me assim uma súbita simpatia por Frei Tomás. Com efeito, aconselhar o bem já é, em si, um bem. E não será esse o verdadeiro significado do dito popular?
Certo é que, ao que parece, Frei Tomás não agia de acordo com o que dizia. Era imperfeito e pecador – como qualquer de nós. Mas será isso bastante para desde logo o crismarmos de hipócrita? Se o fosse, haveria que observar que a hipocrisia é muitas vezes uma homenagem que o vício presta à virtude. Ainda que hipócrita fosse o frade, isso não invalidaria a bondade da pregação. E a seguir a pregação é que o ditado aconselha.
E não pode ter-se como axiomático que se tratava de um hipócrita. Sabemos nós o sofrimento interior com que Frei Tomás, fraco como qualquer mortal, se afastava do caminho que conhecia como certo? Sabemos nós a angústia com que ele se sentia a resvalar nas tentações? Sabemos por acaso o sincero ardor com que ele pregava o que estava certo, apontando aos outros um rumo que não os levasse também à perdição?
Nada sabemos disso. Sabemos apenas que ele agia torto – mas aconselhava direito. A ser assim, certamente no tribunal celeste quando algum pecador se desculpar do que fez com o seu mau exemplo sempre ele poderá defender-se: - “Por acaso dei-te maus conselhos? Por acaso ensinei-te mal? Porque não seguiste o dever ser, que te indicava, e optaste antes pelo meu ser, que não prestava?”
Longe de mim com esta conversa pretender justificar a fraqueza do pregador. O ideal seria que ele para além de falar bem também se comportasse bem. Conseguisse alcançar inteira harmonia entre a palavra e os actos. Mas todos sabemos como isso é difícil. Todos sabemos, porque todos somos frágeis, feitos do mesmo barro. Todos pecamos.
Porque não admirar primeiro o mérito do que apregoa a verdade, em vez de lhe atirar pedras porque ele se perde dela?
Actualmente, um Frei Tomás assim não é fácil de encontrar. Os émulos de Frei Tomás alcançaram quase todos a plena coerência entre o que fazem e o que dizem. As acções são vis. E a pregação também. Se nos guiarmos pelo que eles fazem, é perdição certa. Se nos conduzirmos pelo que eles dizem, é perdição garantida.
Que falta faz Frei Tomás!