quinta-feira, março 04, 2004

A cura pelo nada. Hoje recebi de novo a "Revista Portuguesa de Psicossomática", oferta que como já aqui confessei uma vez me deixa sempre intrigado.
Dou voltas à ficha técnica, dou reviravoltas à memória, e não conheço ninguém que possa ser responsável por me alistar entre os destinatários. Não sei se estão a perceber - não sendo eu médico, não tendo preparação científica para entender a generalidade do que ali se escreve, folheio a revista um pouco como outros folheiam as Selecções do Reader's Digest... à procura de uma curiosidade qualquer.
Mas em face da amabilidade não me dispenso do esforço de tentar entender alguma coisa, mesmo que seja só um artigo ou outro.
E eis que neste número encontro desenvolvido o estudo de uma questão apaixonante, sobre a qual a reflexão está longe de interessar apenas os especialistas, sejam os médicos ou quaisquer outros. Na verdade, a problemática em causa tem repercussões tais que podem levar-nos a pôr em causa tudo o que sabemos sobre o homem, o corpo e o espírito, as relações entre o físico e o psíquico ....
Trata-se da questão há muito observada dos placebos, ou seja da administração a doentes, como se fossem substâncias activas, de produtos absolutamente anódinos - e dos efeitos daí resultantes, que não podem ser evidentemente explicados pela acção do que não existe. Mas se há efeitos curativos dos placebos (a "cura pelo nada") então esses efeitos só podem ser atribuídos à convicção dos doentes de que aquilo é um medicamento ...
E deste mistério (que eu compreendo que seja muito incómodo de abordar por quem for médico) outros mistérios decorrem. Se efectivamente existem efeitos curativos dos placebos (as tais "curas pelo nada", hipoteticamente resultantes de factores psicológicos) então como evitar a pergunta sobre as situações restantes: quando são administrados aos doentes verdadeiros medicamentos e deles resultam as consequências desejadas o que é que na realidade actuou? Os elementos químicos activos de tais produtos ou a convicção do sujeito de que essas substâncias o vão curar?
Ou, por outras palavras, a cura alguma vez é resultado dos medicamentos administrados, ou serão estes afinal uma inutilidade que vem a ser eficaz por força de uma realidade outra, que está no doente e não neles?
A verdade perturbante é que na administração do mesmo medicamento em situações aparentemente iguais obtêm-se frequentemente resultados bem diferentes, sem que seja possível descortinar explicação científica para o êxito nuns casos e a ineficácia noutros; e do mesmo modo da administração de placebos surgem resultados opostos, que nuns caso são o intrigante sucesso - que não pode ser imputado ao placebo - e noutros casos corresponde à nulidade esperada.
Será toda a ciência médica tradicional uma ilusão? Será que precisamos realmente de feiticeiros, e não de médicos?
Insondáveis mistérios da psicossomática ...