sexta-feira, março 05, 2004

Desvario. Por vezes penso que a relação de muitos portugueses, dos poderosos, com a sua terra, não é somente de desprezo ou de desmazelo; é ódio mesmo. Soube agora da decisão de um Secretário de Estado, efémero ocupante de uma cadeira secundária do Poder, que implica a destruição de um troço de 180 metros do Aqueduto das Águas Livres. A generalidade do público ignora a real magnificência desse monumento; só é conhecido o que salta à vista, sobretudo a beleza e a grandiosidade dos arcos grandes que sobrepassam o vale de Alcântara. Mas quem tenha tido o privilégio de o visitar em pormenor compreende que o Aqueduto é um todo, um sistema extraordinariamente complexo e, espantosamente, até aqui bem conservado. Podemos ainda entrar no reservatório em Campolide e caminhar tranquilamente pelas galerias até sair na Amadora, ou desviar a rota e chegar junto de Caneças, ou sair no Olival do Santíssimo ... ou seguir no sentido oposto e atingir o antigo e belíssimo reservatório da Patriarcal, sob o Jardim do Príncipe Real, ou os arcos das Amoreiras, com o encanto esmagador da Mãe de Água, verdadeira catedral, já perto do Largo do Rato.
O Aqueduto é um monumento único no mundo, pela sua dimensão e perfeição, é uma jóia incomparável do barroco nacional, um legado sem preço da engenharia portuguesa. Um irresponsável de passagem resolve amputá-lo irremediavelmente - e nada podemos fazer?