Evasões
Há alguns dias, o Pedro recordava a sua Praia das Maçãs, por motivos pouco agradáveis. Acredito na imagem de degradação, e entristece-me. Aqui longe, o que ainda luz em mim é o brilho e o encanto da Praia das Maçãs, no bulício dos Verões de antigamente.
A bem dizer, toda aquela rota me deixava sempre em deslumbramento total. A estrada, chegava só a estrada, posta ao longo da costa para nos encher a alma. Vagabundo irrequieto, nunca soube onde aportar estavelmente. A meta usual era a Ericeira, o mar da Ericeira, o Sol da Ericeira. Aconchegava-me ao frio da Ericeira, nas manhãs de bruma. Torrava ao Sol da Ericeira, nas tardes calmas e ensolaradas. Mas não sou capaz de escolher. Extasiava-me a Foz do Lisandro, onde o riozinho entra no mar, no areal onde a gente se perdia, passada a íngreme descida de acesso. E havia sempre a estrada: quem teria feito uma estrada onde temos que andar - sempre com vontade de parar? Havia a Praia das Maçãs, a Praia Grande ... por vezes não resistia e continuava, entre serra e mar, até aos banhos de vento e areia nos confins do Guincho.
A estrada corre a costa, sempre entre a terra e o mar - e a cada volta traz novo recanto, nova paragem onde me apetecia ficar, a olhar, a sentir, a estar, simplesmente estar.... Havia o apelo do infinito, majestoso, no Cabo da Roca; o conforto familiar da Adraga; o ruído das crianças da colónia em São Julião... E havia o fascínio das Azenhas, presépio montado sobre a falésia, as casas parecendo cair pela encosta ou pelo precipício...
Não sei se era o mar, se era o campo, se era a serra ali tão perto, se era tudo, inesgotável e diverso, nunca consegui afastar-me do fascínio da nossa Riviera saloia sem uma sensação de desgosto, que já era saudade antes de o ser.
Abraço para o Azenhas do Mar, e para o sítio todo em geral.


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