sexta-feira, março 05, 2004

Longe da vista...

Um dos aspectos mais curiosos das posições pró-abortistas está na relevância decisiva que assume a invisibilidade do feto; nascesse a criança e aí tudo seriam desvelos, ai de quem não assegurasse a devida "protecção materno-infantil"... Mas o não nascido não é visível. E o aborto normalmente também não. Por isso a extrema sensibilidade dessas correntes a que se mostre, por imagens cruas e verdadeiras, o que na realidade é o aborto.
E têm razão: a visualização acaba com a argumentação oca e vazia. Um obstetra meu conhecido contava-me há uns anos que, primeiro por razões científicas, tinha uma interessante colecção de filmes sobre a vida intra-uterina, que ia realizando no seu trabalho. Depois, a certa altura, quando as suas grávidas surgiam com as dúvidas dramáticas que conduzem ao aborto, lembrou-se de algo muito simples: passou a convidá-las a ver os filmes. Dizia-me ele que era uma experiência espantosa: muitas mulheres não se tinham dado conta antes que aquilo que sentiam dentro de si era uma criança, igual a todas as crianças. E ninguém decidia fazer abortos depois de ver aquelas imagens.
A este propósito, achei deliciosa a estória que li nos "Ecos da Província". No café via-se em grupo o telejornal. De súbito passa em rodapé a notícia: um bébé tinha sido encontrado morto numa sanita. E alguém exclama triunfante: "É por estas coisas que sou a favor do aborto..."
Admire-se o desabafo: se aquela criança tivesse sido eliminada uns tempos antes ainda na barriga da mãe não teria surgido assim no telejornal, a estragar as digestões. Teria simplesmente sumido por uma sanita qualquer. E quem fosse responsável por essa atempada decisão teria sempre a seu favor as opiniões generosas de quem assim se impressiona com a patente malfeitoria de a abandonar para morrer numa sanita ....