terça-feira, março 02, 2004

Surpresas

Visto de longe, aqui da toca, o mundo por vezes ganha contornos inesperados.
Confesso-me surpreendido com a dimensão do movimento gerado à volta do "Mais Vida Mais Família". No meu ver, talvez deformado por algum negativismo de raiz mais emocional que racional, a causa em que se empenharam os seus activistas nunca poderia deixar de ser significativamente minoritária, de tal modo vai contra a atmosfera reinante. Os resultados obtidos pelo movimento, em um mês de trabalho, contra todos os mecanismos de condicionamento mental estabelecidos pela barreira mediática, contra os consensos do pais político e jornalístico, é impressionante. Tal como o foram os resultados do referendo de há uns anos.
Ortega y Gassett dizia que a história é escrita pelos quarenta que gritam, e não pelos quarenta mil que calam. Será que existia um mundo desconhecido, de gente que está farta de ficar calada?
Acrescento também que o fenómeno de massas que parece estar a ser o filme de Mel Gibson é um acontecimento que surge contra o meu cepticismo inicial. Ao princípio, quando os primeiros ecos da polémica me chegaram, o meu primeiro pensamento foi que não chegaríamos a ver o filme em exibição. As forças desencadeadas contra ele pareciam-me intransponíveis. E não estão habituadas a perder. Todavia, com o apoio de um movimento surgido um pouco de todo o lado, e que se tornou universal, cristalizando na internet, o filme abriu caminho, contra todos os interditos.
Será que também aqui explodiu o sentimento a que aludi, num mundo de gente que se fartou de ser sujeito passivo e abúlico?