sábado, julho 03, 2004

ALTO, GLORIOSO EMBLEMA

Enquanto se aguarda o momento exaltante da vitória, neste êxtase colectivo ditado pelos deuses dos estádios, dedico aqui aos nossos rapazes da bola, e a toda a juventude que ergue bem alto a bandeira das quinas, um poema do alentejano Mário Beirão, nascido de outras exaltações místicas, lá pelos longínquos tempos de 1940.

ALTO, GLORIOSO EMBLEMA

Chagas sangrando, áureos castelos, quinas:
Heráldica suprema,
Composição de coisas peregrinas...

Esse glorioso Emblema
Que no teu peito brilha, oh Mocidade,
Qual trémulo raiar do sete-estrelo
Ou do verbo dos santos o esplendor
Ou flama, desprendendo-se da Cruz,
Místico e heróico é o signo da verdade:
Para que possas compreendê-lo,
Ergue a tua alma a Deus, em viva prece,
Que Deus tudo esclarece;
Ergue-a, no mesmo estado de fervor
Do padre que, no altar, a Hóstia eleva
E expulsa a treva
E faz a Luz!
Tão belo que outro assim jamais se viu,
Ele, o precioso Emblema, ardeu, fulgiu
Sobre a enrolada vaga tormentória,
No tumulto das épicas batalhas,
Como penhor sagrado da Vitória!
Ele fulgiu no linho das mortalhas:
Ficou a memorar, a enobrecer
Aqueles que souberam bem morrer!
Ele fulgiu — doce oração extasiada —
Nos Livros de Horas
Dos Príncipes de Aviz!
E, entre nuvens, em pálida revoada,
Fulge a cantar, nos halos das auroras
Oh Mocidade em flor — do teu país!

Chagas sangrando, áureos castelos, quinas:
Heráldica suprema,
Composição de coisas peregrinas...
Oh Mocidade, exulta! Desse Emblema,
Que, no teu peito, brilha,
Do Emblema que reflecte a maravilha
Duma fogueira, no infinito, acesa,
Mana outra luz, (não sei como dizer...)
Uma luz que está sempre a amanhecer;
Luz, que, em sonhos, diviso, debuxando,
Longe, — no Azul, na sideral pureza,
Versos de exaltação, febril transporte:
Os espantosos versos que, da Morte,
Camões lhe vai ditando!

Mário Beirão