Feira de Marvão
Juntamente com Monsaraz, que referi há pouco, Marvão é outro dos meus lugares de eleição. A beleza agreste de Marvão, o encanto de Castelo de Vide, os caminhos da Serra de São Mamede, eis pedaços do Portugal desconhecido, um Alentejo surpreendente e diferente.
A primeira vez que estive em Marvão foi numa já longínqua manhã de Dezembro. Ainda me lembro da sensação estranhíssima que senti ao subir lentamente, de automóvel em faróis de nevoeiro, a estreita e sinuosa estrada que nos conduz à vila, e ir descobrindo, por entre o frio e o vento, o cenário irreal que se revelaria melhor ao depois, ao caminhar, passo a passo e quase tacteando, pelo nevoeiro denso que enchia o ar de uma humidade que nos entranhava, feita de miríades de gotas de água que pareciam ignorar a lei da gravidade, dançando à nossa volta e encharcando tudo, no fundo negro de uma atmosfera carregada que não permitia ver a mais de dois metros. Ia avançando, descortinando casas, ruas, esquinas, portas, janelas, que se desocultavam de súbito como aparição fantamagórica no escuro e no nevoeiro, e havia uma impressão espantosa de solidão. Só o silêncio, a água, o vento, o frio, o escuro, e ninguém, ninguém, não se via ninguém, não se lobrigava um movimento, um ser vivo, um cão que fosse.
Só bem mais tarde, ia a manhã adiantada, consegui ter uma percepção mais larga do lugar, e verificar como tinha chegado alto, acima das nuvens que se acumulavam então já mais baixas, abaixo do nível das muralhas de onde as mirávamos, já fortalecidos por um sol que a nós privilegiava enquanto aos nossos pés um mar de nuvens impedia a visão do vale, dos vales que dali se estendem, a perder de vista, quando a atmosfera límpida revela em toda a sua dimensão o panorama daquele ninho de águias.
Voltei muitas vezes a Marvão, sobretudo em épocas de Primavera ou Verão, quando a terra se oferece radiosa como se vê nos bilhetes postais. Mas nunca a vi nem senti como nessa primeira vez, nesse Inverno de outros tempos.


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