domingo, novembro 19, 2006

Outras guerras

Parte da manhã foi ocupada no combate à lagarta da couve. Vão retorquir-me que é fraca epopeia uma batalha contra bicho tão rasteiro. Muito enganados andam. O meu hortejo é sítio onde não entram pozes nem venenos, produção estritamente biológica. De modos que está indefeso ao apetite devorador das malvadas, que se me atiram às couves que nem praga do Egipto. Com o tempinho que tem vindo, em que ora chove ora faz sol, proliferam e medram em infindável exército que incessantemente se renova. Agora em aliança com uma explosão de caracóis, que surgiram aos magotes coligados com as megeras aproveitando o tempo de feição.
Estão os leitores a ver o triste destino das minhas couves, o risco que não corre o meu caldo verde.
Sim, porque, e nisto concedo razão às lagartas e aos caracóis, não há caldo verde como o das minhas couves.
Tem o sabor do que é meu, do que plantei e fiz crescer. Todos deviam meter as mãos na terra para entender estes mistérios.
Calculo que a esta hora alguns leitores estarão um tanto admirados. Se são leitores meus já notaram antes um certo pendor bucólico, um gosto virgiliano pelos campos e pela natureza. Mas daí a praticar, a cavar e sachar e mondar e plantar as couves e as alfaces e os espinafres e mais verduras que trago à minha mesa, por essa não esperavam nem os mais habituais.
Mas é a verdade. O Manuel Azinhal é mesmo um rústico assumido, um camponês nostálgico que sente ser melhor empregado o tempo em que cata as ervas daninhas de entre as alfaces do que aquele que gasta nas inúteis e vãs canseiras com que ganha para as sopas.
Não é a única surpresa que posso fazer aos leitores. Sabem os amigos qual é o diploma com que mais me envaideço? Saibam então que estou devidamente habilitado com curso de tosquia mecânica, apto a livrar as ovelhas que eventualmente tiverem do incómodo manto que as cobre, em chegando o calor. Se precisarem, podem testar os meus serviços. Não posso competir com aqueles matulões australianos que ganham todos os campeonatos da especialidade, mas estou em crer que posso servir. Sou licenciado, pela velha universidade da extinta Junta Nacional dos Produtos Pecuários, que me formou há uns largos anos, ali na Horta do Bispo.
Depois disso tirei outros diplomas, mas nenhum me enche assim de orgulho.

6 Comments:

At 3:50 da tarde, Blogger pedro guedes said...

Curioso que não lhe imaginava esse passatempo. Em Lisboa não dá para isso, quase todos os quintais típicos estão hoje por conta dos carros.

 
At 7:54 da tarde, Anonymous Lammazze said...

.. e não há nada como aquilo que é nosso!

 
At 12:39 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Não tem nada a ver com o seu post, mas não posso deixar de manifestar a minha profunda tristeza por ter deixado de ter o link para o meu blo, depois destes anos todos.

De qualquer forma, um abraço.

O Monarquico
http://monarquico.blogspot.com/

 
At 9:24 da manhã, Blogger Paulo Cunha Porto said...

Um "post" de Manuel Azinhal com sabor a Gustave Thibon, quer pela envergadura intelectual, quer pela relação com a terra. Um Exemplo!
Abraço.

 
At 2:05 da tarde, Blogger Mendo Ramires said...

Muito bom!

 
At 9:59 da tarde, Blogger maria said...

Pois faz muitíssimo bem em cultivar os seus legumes, hortaliças, etc. Eu se pudesse faria o mesmo. Mas em Lisboa nem pensar. Até nos tempos dos meus pais isso já se tornava quase impraticável pelo estilo de vida dos lisboetas, mas sobretudo pelo pouco tempo de que se dipunha e nessa altura todas as casas tinham quintais para quem quisesse cultivá-los. Os meus pais tinham um belo quintal - em plena Lisboa, imagine-se - mas só já com algumas árvores de frutos.
Há uns anos fomos em debandada com a miudagem para um local passar férias e a dona da casa tinha um terreno de cultivo cheio dessas delícias de que o Manuel fala. Bem, viemos de lá carregados de hortaliças e legumes do mais tenro e do mais saboroso que imaginar se possa (em Lisboa nunca tinha encontrado nada aproximado sequer) e que belíssimas sopas de caldo verde eu fiz, com couve galega como é suposto. E a couve portuguesa, que há 30 anos ainda se conseguia comprar mais ou menos tenra, hoje em dia está intragável e é uma pena porque faz parte da nossa alimentação tradicional. Na véspera de Natal, numa tradição que perdura na minha família desde que me lembro, comer-se couve portuguesa a acompanhar o bacalhau tornou-se quase impossível nos dias que correm. Ela é tão rija, mas tão rija, mesmo o seu interior anteriormente mais tenro, embora não tanto como quando eu era miúda, que tivemos que pôr a ideia totalmente de parte e arranjar outro tipo de hortaliça para acompanhar o bacalhau na consoada, descaracterizando esta refeição tão especial. Um horrôr.
E se quer saber, desde que as embalagens com hortaliça biológica apareceram em Lisboa, optei por elas sobretudo para a sopa. E estou a dar-me muitíssimo bem com a opção.

Cumprimentos,
Maria.

 

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