terça-feira, junho 17, 2008

Pais de afecto

O país acompanhou com comoção o caso do bebé que foi raptado sábado à tarde na maternidade do Hospital Padre Américo, em Penafiel.
Devido à rápida actuação das autoridades, a criança foi encontrada algumas horas mais tarde.
Foi entregue aos pais biológicos.
Quanto à presumível raptora, vai aguardar julgamento em prisão domiciliária.
Teve azar, a rapariga. Ela só aspirava à maternidade, e também era esse o sonho do namorado.
Tivessem-lhe dado tempo, e teríamos ali um casal de pais afectivos erguidos em triunfo por toda a comunicação social, mais o movimento nacional feminino das ex-presidentas da república e os influentes da associação 25 de abril.
Não houve foi tempo para consolidar os vínculos da paternidade psicológica.
Raios.
Para a próxima deviam fugir para mais longe, ou esconder-se melhor - ou garantir uns protectores capazes de evitar surpresas policiais.

17 Comments:

At 12:08 da manhã, Blogger Orlando said...

Aprecio a lucidez de análise dos seus postais, mas este é uma excepção que confirma a regra. Neste caso, aconteceu um rapto. No outro caso a que se refere, uma mãe sem possibilidades económicas deu a filha a adopção a um casal, e o pai biológico, que ignorou a criança por algum tempo, resolveu depois litigar por ela. São coisas diferentes; eu sei que o povo é burro, mas nem tanto...

 
At 9:32 da manhã, Blogger Manuel said...

Lamento dizer-lhe, mas não sou eu que estou enganado.
É o senhor que não conhece os factos que refere.
Em quatro linhas reproduziu várias mentiras de conveniência postas a circular pelos interessados no negócio.
É um argumento bom para telenovela, mas a realidade foi bem mais feia.

 
At 9:47 da manhã, Blogger O Jansenista said...

Concordo inteiramente com o post. É uma variante do velho argumento de Santo Agostinho na Cidade de Deus: quem exerce a força sem sucesso, acaba enforcado como bandido; quem a exerce com sucesso, acaba entronizado como Imperador...
E sim, o Sr. Orlando repetiu, decerto de boa fé, as mentiras estridentes que por aí pululam...

 
At 10:55 da manhã, Blogger Luís Bonifácio said...

A raptora foi pouco inteligente. Não planeou bem a operação.
Devia ter escolhido uma família miserável (sob o ponto de vista económico). Assim a policia não agiria tão prontamente, e os brinquedos fariam o resto.

 
At 11:22 da manhã, Blogger Orlando said...

Dizem-me que não conheço os factos. Ponto final. Dizem-me que acredito em mentiras. Oonto final. Mas ninguém me diz em que consistem as mentiras e quais são os factos. Não é preciso citar nomes para que a “verdade” seja assim referida. Concluo que se os leitores ― como eu ― andam enganados, existe uma culpa primordial por parte de quem sabe a verdade e não desengana. Naturalmente que não é vossa obrigação, mas se tenho que me basear em factos para julgar os dois casos, não vejo como possa existir uma similitude jurídica (moralidade à parte) entre os dois casos. Se me fizerem o favor de elucidar, agradeço.

 
At 2:46 da tarde, Blogger Manuel said...

Orlando, olhe que do ponto de vista moral parece-me mais desculpável uma acção provavelmente destrambelhada de uma rapariga emocionalmente desquilibrada (e sublinho que neste caso só conheço estritamente o que saiu nos despachos noticiosos das agências) do que a actuação planeada e fria de um casal já de idade madura que recorre ao mercado para adquirir uma criança alheia e depois se serve de influências sociais diversas para a conservar a todo o custo (sobretudo depois de alertado e instado por todas as entidades administrativas e judiciais com competências na matéria, dada a evidente ilegalidade da situação).
E já que fala no plano jurídico, estranho que não repare no absurdo que ressalta das suas próprias palavras: uma mãe biológica não pode "dar para adopção" (nem obviamente vender), e os candidatos a adoptantes também não podem "receber para adopção", à margem dos mecanismos legalmente estabelecidos para isso.
No resto, quanto aos pormenores concretos desse caso, garanto-lhe que não estou a opinar apenas baseado no que vai saindo na imprensa.
Pareceu-me sempre, porém, mais sensato manter reserva sobre isso (ao menos neste meio, que sendo privado é público).
Tenho as minhas razões.

 
At 3:05 da tarde, Blogger Orlando said...

Exactamente por isso é que escrevi "moralidade à parte"; se formos a abordar o aspecto moral da questão, daria "pano para mangas".

Contudo, não deixo de fazer referência à morosidade excessiva dos processos de adopção em Portugal; e a talhe de foice, nos interesses das organizações de acolhimento que ganham com a guarda ad eternum das crianças que não são adoptadas. Naturalmente que a adopção é coisa muito séria; mas um casal não pode esperar anos a fio até que o sistema reconheça o direito da criança, em primeiro lugar. E depois, tudo se vende e tudo se compra...

 
At 3:35 da tarde, Blogger Manuel said...

Não, não é assim.
Uma menina perfeitinha e só com um ou dois meses de idade, teria de imediato muitos casais interessados e os serviços seleccionavam o que se afigurasse mais adequado, com grande rapidez. Em muito poucos meses estaria concluído o processo, caso não faltasse nenhum dos requisitos legais para isso.
É a experiência do que geralmente acontece.
Os tais milhares que estão disponíveis mas não têm saída, estão lá exactamente por isso: não correspondem à procura. Existem muitos interessados, mas só naquele produto que previamente configuraram para si mesmos.
O problema que existe é insolúvel, trata-se de desencontro entre a oferta existente e a procura também existente.
Isto para falar em abstracto, porque se estiver a pensar nesse tal caso concreto então há que dizer que nunca poderia ser decretada adopção nenhuma, porque a criança não é adoptável. Nunca houve nenhuma declaração judicial da mãe no sentido de consentir expressamente na adopção, mas simplesmente o tal escrito que o casal exigiu que lhes fosse entregue com a bébé, quando negociaram com a "intermediária". Tal como exigiram que não existisse contacto nenhum entre eles e a mãe, para evitar problemas futuros (por isso esta nunca os viu, não os conhecia nem conheceu, nem sabia quem eram ou onde moravam, e não lhes deu coisa nenhuma. A criança foi entregue pela "intermediária" num local combinado, onde os interessados esperaram no automóvel... a bébé passou simplesmente de carro para carro, contra pagamento... a tal declaração foi uma espécie de recibo).
Em relação ao pai, obviamente, não havia declaração de consentimento nem poderia falar-se em abandono, pois o que salta à vista é que apesar de ser um miúdo de 21 anos levado por uma mulher da vida já com 37, e que precisava de engravidar para assegurar a permanência no país, ainda assim logo que a criança nasceu até lhe deu o nome da sua própria mãe. Depois terá tido alguma hesitação, mas imagine você viver numa aldeia como Cernache e ser gozado por toda a gente a perguntar-lhe como é que sabia se a filha da brasileira, que todos conheciam da vida, era precisamente dele... Não seria de fazer os tais testes de paternidade? O certo é que assim que houve resultados desses testes o rapaz não descansou até conseguir localizar a criança, e insistentemte a reclamou. É um feito notável, para um miúdo pobre de Cernache, que até é bastante longe do Entroncamento...
E aí é que começa a parte mais complicada dessa história.

 
At 3:40 da tarde, Blogger Orlando said...

Fiquei esclarecido.

 
At 3:54 da tarde, Blogger Manuel said...

Não ficou, não...
Só um exemplo para ver que não ficou: alguma vez ouviu falar em "Carlos Vale Ferraz"?
Relaciona esse nome com esta história?

 
At 4:51 da tarde, Blogger Orlando said...

Conheço a pessoa (de nome) e penso que já fiz as associações correctas. Estou a ver que esta história dava um opúsculo.

 
At 4:51 da tarde, Anonymous Anónimo said...

«à margem dos mecanismos legalmente estabelecidos para isso»

Pois é, os filhos da p... dos mecanismos legalmente estabelecidos! Um pau de dois bicos...
A propósito - ainda à bem pouco passou uma reportagem na tv sobre as meninas (mais procuradas que os rapazes) chinesas para adopção. Tudo com mecanismos legais estabelecidos!
Mas deixe que lhe diga - comparar, e quase justificar, não juridicamente mas emocionalmente (a mesma emoção que critica no resto da população), o rapto calculado em Penafiel com o caso Esmeralda... Santa paciência! Mas enfim à sempre qualquer coisa muito escondida que justifica o seu ponto de vista. Mesmo que juridicamente tenha (quase) toda a razão do mundo a comparação me parece infeliz.

Ah! E lá na terrinha do pai biológico, este vai continuar a ser o gajo que emprenhou a p... da brasileira – azar do carago!

Optio

 
At 5:06 da tarde, Blogger Orlando said...

O "Ferraz" (que não é o nome dele, e não me lembra agora) também esteve destacado na "zona centro". Disso sei porque o li no prólogo do "Memórias de África" (salvo erro é este o título)

 
At 9:33 da tarde, Blogger Manuel said...

"Carlos Vale Ferraz" é nome literário.
O nome civil é Carlos Matos Gomes.
Matos Gomes, Coronel, dirigente da Associação 25 de Abril...
O nome verdadeiro é que é relevante para este efeito.
Já agora uma curiosidade desse processo que me parece significativa: há um outro oficial do Exército na reserva, muito conhecido como psicólogo e por ser director do Refúgio Aboim Ascensão, que na fase inicial do processo tinha emitido um parecer muito contundente contra a acção dos "pais afectivos" (nessa altura ainda um casal que inexplicavelmente resistia a obedecer a todos os despachos judiciais até então proferidos). Passou o tempo, e quando as coisas passaram do processo para a campanha mediática a mesma pessoa surgiu tonitruante a berrar os direitos dos "pais afectivos"...
O que se terá passado entretanto?

 
At 11:23 da tarde, Blogger Orlando said...

Não sabia que esse senhor do Refúgio Aboim Ascensão era oficial na Reserva. Mas sabia que o "Ferraz" é (ou foi) militar de alta patente (porque tudo o que seja publicado em relação à ex-África portuguesa, compro). Ora, se o pai adoptante também é militar (e também é Gomes; coincidência?), fiz as contas do que poderia eu não saber, mas deduzir -- e por isso disse que fazia a ideia.

 
At 6:24 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Esta coisa de adoptar crianças que são filhas da puta é uma chatice.
Pobres cianças! Como se já não bastasse as mãezinhas...
E, também, pobres dos que entram nesse jogo de que, invariavelmente, saem sempre a perder.
Porém, a questão é esta: tudo quanto se tem passado - e apenas o que conhecemos sobre este assunto - revela ums estupidez e ignorância inqualificáveis.
É uma coisa séria demais para fazer negócio de ciganos (os ciganos que, por favor, me perdoem...)

Nuno

 
At 7:09 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Um dia depois regresso aqui e não vejo ninguém preocupado com os sérios problemas que Portugal e o nosso Povo estamos a sofrer.
É espantoso...

Nuno

 

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