sexta-feira, fevereiro 27, 2009

A Casa de Sarto: o farol da Tradição

Quando algum dia se fizer a história da restauração católica em Portugal haverá nela um lugar honroso para A Casa de Sarto. Não se ouviu na nossa terra nestes últimos anos nenhuma outra voz que com tanta persistência e firmeza recusasse aceitar o fatalismo da autodemolição da Igreja Católica, e que com invariável constância e lucidez nos tivesse apontado o caminho do reencontro. Aqui na nossa casa nunca houve dúvidas sobre a transcendência deste combate, até numa perspectiva nacionalista (sem a vivência religiosa não podem existir senão formas inferiores de espiritualidade, de civilização e de cultura), e, como foi possível, fomos sempre apoiando A Casa de Sarto.
Nestes dias em que a Providência nos enviou o sinal maior que é a canonização de Nuno Álvares Pereira, temos a honra de oferecer aos nossos leitores uma pequena entrevista com o principal responsável pela existência de A Casa de Sarto.

1 - O Rodrigo Emílio dizia que nos transformámos "de país de missionários em país demissionário". O que aconteceu ao catolicismo em Portugal para chegar à situação presente?
- Ao catolicismo português aconteceu o mesmo que ao restante catolicismo à escala global: por força das concepções antitradicionais consagradas pelo Concílio Vaticano II, demitiu-se de instaurar tudo em Cristo e optou por render-se aos disparates do mundo. Com os resultados deploráveis à vista de todos.
2 - Se tentasse raciocinar num plano exclusivamente humano, diria que existe um futuro para a Igreja Católica em Portugal?
- Num plano exclusivamente humano, seria tentado a afirmar que inexiste qualquer outro futuro para a Igreja Católica em Portugal que não seja o da sua extinção pura e simples; contudo, sei bem que a Igreja Católica não é uma instituição exclusivamente humana e que goza da indefectibilidade que lhe foi prometida pelo seu fundador Jesus Cristo até ao final dos tempos, acrescendo-lhe, no caso específico português, a garantia dada em Fátima por Nossa Senhora de que o dogma da fé há-de manter-se sempre em terras lusitanas.
Sem prejuízo, aos mais acomodados, que supõem que tão magnas promessas os dispensam de qualquer esforço, recordo que nada substitui a acção dos crentes na defesa das verdades de fé e moral. De facto, a indefectibilidade da Igreja não implica a intangibilidade desta (como a história das perseguições que tem sofrido ao longo dos tempos o demonstra), nem a manutenção do dogma da fé pressupõe que este beneficie para sempre de visibilidade pública. Havia fé - e que fé! - nas catacumbas…

3 -Quando surgiu "A Casa de Sarto", não existiam na blogosfera portuguesa os blogues declaradamente católicos e tradicionalistas que entretanto apareceram. Hoje existem alguns. Brasileiros também. Não considera, ainda assim, que é escassa a presença na blogosfera de língua portuguesa das correntes representativas da tradição católica?
- Quando iniciei "A Casa de Sarto", os católicos tradicionais portugueses não tinham qualquer voz, nem se faziam ouvir minimamente para além das paredes dos priorados da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X. No espaço público, a discussão estava praticamente monopolizada pelos modernistas e progressistas, por figuras como o Bispo D. Januário Torgal Ferreira, Frei Bento Domingues, o Padre Mário Oliveira ou o teólogo Anselmo Borges, todos sempre muito críticos da Igreja, não por esta recusar a sua total demolição, mas por não executá-la com a rapidez por eles julgada ideal!
Ora, a um nível muito modesto, parece-me que consegui alterar um pouco este estado de coisas. Na Igreja institucional portuguesa era inadmissível defender-se a excelência da Missa tradicional de rito latino-gregoriano ou criticar as doutrinas não-tradicionais acolhidas a um nível meramente pastoral pelo Concílio Vaticano II. Isso acabou! Agora tais questões começam a ser debatidas à luz do dia. Os modernistas e os progressistas deixaram de poder ignorar a tradição, ainda que seja tão-só para insultá-la. E é um excelente sinal dos tempos que a insultem!
Fico igualmente muito satisfeito por "A Casa de Sarto" ter dado frutos. Apraz-me constatar a expansão que os blogues católicos tradicionais de língua portuguesa têm registado nos tempos mais recentes, dos quais destacaria no nosso país o "Tradição Católica", da Magdalia, a boa surpresa do "Economia da Alma", de Hugo Pinto Abreu e Diogo Pereira Nunes, e o circunspecto mas muito importante "Missa Tridentina em Portugal", de Sebastião Silva. Noutro plano, sublinho a notável evolução do "Corcunda", de um conservadorismo político de recorte anglo-saxónico para um vigoroso tradicionalismo católico, e não termino sem aludir ao mais discreto dos blogues católicos tradicionais portugueses - um certo "O Sexo dos Anjos".
No Brasil, e sabendo que estou a ser injusto com muitos e excelentes amigos, realçaria o "Fratres in Unum" e o "Contra Impugnantes", sem olvidar os magníficos recursos doutrinários que sítios como a "Permanência" ou a "Associação Montfort" colocam à disposição de todos os católicos tradicionais que dominam o português.

4 - Nestes últimos anos, em que A Casa de Sarto e os seus autores têm marcado presença na blogosfera, a causa da tradição católica em Portugal estagnou, avançou ou regrediu?
- Creio que timidamente a causa da tradição avançou em Portugal.
Hoje, para além dos priorados da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, já existe uma diocese nacional - a de Leiria-Fátima - onde a Missa tradicional é oficiada regularmente, o que era inimaginável quando "A Casa de Sarto" apareceu. Fonte segura afirmou-me que mais três dioceses seguirão brevemente o exemplo leiriense. É claro que os bispos portugueses - na sua maioria completamente imbuídos do "espírito do Vaticano II" e da hermenêutica da ruptura a este adstrita - continuam a ser uma enorme força de bloqueio à expansão da tradição; porém, dado grande parte deles estar à beira de atingir o limite de idade para o exercício do múnus episcopal, o panorama acabará por alterar-se para melhor, à imagem do que já vai sucedendo noutros países.
Por outro lado, e aqui reside uma das maiores esperanças da tradição em Portugal, um cada vez maior número de fiéis leigos, em especial jovens, tem vindo a consciencializar-se da extraordinária riqueza da doutrina católica, bem como do esplendor e beleza da Santa Missa de rito latino-gregoriano. A esta circunstância específica não é alheia a influência que a tradição católica conseguiu conquistar na internet, em particular na blogosfera à escala mundial.

5 - Houve momentos de um passado recente, como as mobilizações da campanha contra o aborto, em que pareceu que havia mais fiéis dispostos a dar testemunho e a combater o bom combate do que a própria hierarquia gostaria. Não haverá aqui um drama e uma esperança?
- Há em primeiro lugar um drama! No caso do aborto, como noutros - e aí está a questão das parelhas homossexuais a prová-lo uma vez mais - foi e tem sido deplorável a pusilanimidade demonstrada pelos membros da Conferência Episcopal Portuguesa, contaminando directamente a quase totalidade do clero sob sua jurisdição. Os bispos demitiram-se de ensinar e defender a fé e a moral, e muitos deles não compreenderão sequer o motivo por que um dos símbolos do seu estatuto é o báculo! Que pastores de almas são estes que desertam da batalha e nela deixam abandonadas as suas ovelhas a lutar sozinhas contra alcateias de lobos esfaimados?! Aliás, mais do que deserção, o episcopado nacional está a ser sistematicamente derrotado por falta de comparência, a qual constitui o grande drama corrente da Igreja portuguesa. Esta renuncia voluntariamente a estar presente no espaço público, que é assim ocupado sem luta pelas forças inimigas anticristãs.
Depois, em menor escala, há também uma esperança, na medida em que os leigos não se conformam mais com o estado de coisas acima referido. Ao invés, resistem e defendem a boa doutrina, sem cederem a falsas obediências que num passado recente tanto mal fizeram.

6 - Tenho pensado que a grande razão para o curto tempo de vida da generalidade dos blogues que constantemente aparecem e desaparecem reside no facto de os seus autores terem muito pouco para dizer. O que lhe parece?
- Um blogue deve ter sempre bem definida uma linha editorial que lhe sirva de fio condutor, pois, caso contrário, estará fadado a desaparecer rapidamente sem haver tido outra razão de ser que não fosse a de satisfazer um mero capricho passageiro do seu autor. Penso que será esta a principal causa da curta duração de muitos blogues; mas não olvido também esforço tremendo que estes exigem para ser mantidos em permanência dentro de um nível de qualidade mínima aceitável…
7 - Proponho um exercício difícil: procure apresentar em breves linhas os autores que indico a seguir.
a) G. K. Chesterton.
- Ortodoxia, senso comum e bom humor. Um autor com características semelhantes é o meu muito estimado Padre Leonardo Castellani.
b) Charles Maurras.
- O mestre da contra-revolução, antimoderno e ultramoderno; António Sardinha equipara-se-lhe e com a vantagem de não sofrer tentações pagãs.
c) Julio Meinville.
- O grande refutador do sistema progressista e de dois dos principais subprodutos deste: o teilhardismo e o maritainismo.
d) Gustavo Corção.
- Em conjunto com Dom António de Castro Mayer, a grande glória do combate católico tradicional em língua portuguesa. Um justíssimo orgulho do Brasil e - por que não? - de Portugal! “O Século do Nada” é uma obra-prima de leitura absolutamente obrigatória para os tradicionalistas do mundo inteiro!
e) Nicolás Goméz Dávila.
- Um genial escritor católico colombiano - o reaccionário solitário de Bogotá (1913-1994) - que começa a ser merecidamente conhecido na Europa e América do Norte. A sua obra, quase toda escrita sob a forma de aforismos, é uma crítica devastadora, estribada em finíssima ironia, da ideologia revolucionária contemporânea e das suas consequências religiosas morais, políticas e culturais. Um autor a descobrir com urgência!

3 Comments:

At 2:29 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Oportuníssima entrevista, esta. Excelentes perguntas e melhores respostas, como outra coisa não
seria de esperar de intervenientes com o perfíl intelectual dos presentes.
A Casa de Sarto é um Blog católico tradicional de altíssimo nível, que não pode deixar de ser visitado por quem necessite de alimentar a alma, muito particularmente nos tempos que correm.
A Associação Montfort é outro espaço blogosférico, que conheci não há muito tempo através de uma ligação, de visita obrigatória para quem aprecie a mais pura religiosidade católica, erudição absoluta, coerência nos temas que aborda, desenvolvimento dos mesmos de forma límpida e inigualável e de trato irrepreensível com os seus leitores. É um prazer imenso ler Bogs com a elevação destes dois. Embora saiba que existem outros Blogs de igual temática de qualidade superior, por absoluta falta de tempo cinjo a minha leitura aos citados. E devo dizer que em muito boa hora o fiz.
Maria

 
At 3:38 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Esta entrevista reanimou-me.
Obrigado.

 
At 4:24 da tarde, OpenID atrida said...

Ao nível de Sarto: excelente!

 

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