domingo, novembro 09, 2008

"A Cidade do Sossego" - um blogue com voz própria

Desde o início deste ano, há mais um blogue que me habituei a ler: "A Cidade do Sossego". E aconselho os estimados visitantes a fazer o mesmo: pode não se gostar, mas ninguém deixará de reconhecer ali um estilo próprio, uma voz singular, culta e informada. É o blogue do grande Harms, "albicastrense, beirão, português, europeu". Um Harms a que se deseja mais sorte na vida do que teve o outro, o original. Leiam então o Harms, e conheçam "A Cidade do Sossego". Com um aceno de amizade e camaradagem para Castelo Branco, aí vão as minhas perguntas e as respostas dele.

- Parece identificar-se especialmente com referências literárias, cinéfilas e musicais que me levam a perguntar-lhe directamente: - "A Cidade do Sossego" é um blogue "negro"?
- Negro, não sei. Cinzento-escuro, pelo menos, será. A minha referência é, sobretudo, o século XIX e a abrangência dos mestres da época. Gostava de ter a capacidade que eles então demonstravam, o que nunca será possível. Não gosto de especializações. Talvez por isso me agrade ler George Steiner e andar entretido por aquela variedade temática.. Queria ser assim, quando fosse grande, mas esqueço-me de muitas coisas e perco tempo com outras que não interessam para nada.
- O blogue surgiu em Janeiro, e desde então tem mantido notável ritmo e produtividade. Que balanço faz neste momento? Tem leitores? Tem interlocutores? Valeu a pena?
- O blogue acaba por surgir na sequência de uma prática que já vem de trás e que é a dos fanzines. Em 2003 fiz o meu último fanzine e foi um fracasso em termos de recepção. Ninguém se dá ao trabalho de escrever cartas, hoje em dia, sobretudo se for para pedir um fanzine. E isso mudou num espaço de cinco anos, o que é assustador. Depois de uma ou outra experiência blogueira menos séria, decidi-me pela Cidade. Quanto à receptividade, desde que instalei o contador tenho notado um acréscimo de visitas de mês para mês. De qualquer maneira, nem que fosse só uma já valia a pena. Além disso o blogue é um meio útil, para mim, de me levar a ler e a reler coisas que, de outro modo, não abordaria tão cedo. E de dar a conhecer outras de que gosto - como quando andava na faculdade em que quando alguém descobria uma banda nova ou um autor novo ia logo partilhar com o pessoal. Nesse aspecto tive a sorte de encontrar um grupo engraçado, na altura. Claro que tínhamos a mania que éramos poetas e tal, quando não passávamos de uns iniciados de qualidade duvidosa.
- Fale-me sobre a importância dos estrados nas salas de aula... São mais relevantes que o Magalhães?
- O fim dos estrados nas salas de aula representou uma desgraça. Hoje, tirando as que ainda sobram do Estado Novo, nenhuma tem estrados. E o simbolismo é fundamental. Porque tem de haver hierarquia, tem de existir ali a noção da diferença. O aluno não está ao nível do professor. O professor não está ali para "trocar conhecimentos". A função do professor não é aproveitar os "saberes" que o aluno traz para a escola. Esse discurso só serve para manter a estrutura actual das coisas. A estrutura "classista". O professor tem o dever de demonstrar ao aluno que há algo chamado Platão, Mozart, Rembrandt e por aí. Se aquele depois continuar a ouvir hip hop o problema é dele, mas teve oportunidade de escolher. O fim do estrado é o reconhecimento de um nivelamento e de uma igualdade epistemológica que não existem. O problema é que, neste momento, estão a chegar ao sistema de ensino professores que já fazem parte da nova vaga. O que leva ao segundo ponto da questão: o computador é muito útil. O Magalhães pode ser uma maravilha. Desde que seja o ponto de partida para algo mais consistente. No fundo, é a velha história: é preferível ler a Margarida Rebelo Pinto ou não ler? Não se pode exigir a toda a gente que se delicie com a Odisseia, embora em Portugal haja uma elite intelectual absolutamente espantosa que o faz (sobretudo nas férias, quando levam entre duzentos a trezentos livros para reler). Em resumo, sem hierarquia, não há saber. E é aqui que deve ser dado o exemplo, no saber e não nas questões secundárias.
- Há vida em Castelo Branco? Ou só uma solidão povoada?
- Castelo Branco é uma cidade cada vez melhor para viver, agora que eu não vivo lá. No entanto, no blogue e não só continuo a referir-me como de Castelo Branco, Beira Baixa. É aí o meu centro. Foi aí que me formei, foi aí que vivi mais de trinta anos, é aí que volto regularmente para ver a família. E cada vez que me convenço que não há nada como a Beira Baixa. Mas a minha mulher também me diz que saio pouco...
- A blogosfera é uma miragem, ou um caminho?
- A blogosfera é um caminho de paciência. E eu, pessoalmente, sou muito impaciente por vezes. O que me leva a abandonar projectos ou a nem sequer os iniciar. Com a idade já começo a aprender que as coisas demoram a frutificar. Por isso estabeleci como primeira meta para a Cidade alcançar um ano de existência. Depois é seguir. Não sei qual era a média de leitores ao início, mas em Outubro consegui cem por dia e achei isso fantástico. Não podemos é trabalhar para o curto prazo, senão desiste-se rapidamente.
- A aparição e o desenvolvimento da internet modificou os dados na batalha das ideias. Concorda?
- Modificou os dados na batalha das ideias, mas o acesso às pessoas, ao mais profundo delas, continua a ser difícil (admitindo que têm profundidade). Quem quer saber de ideias hoje? Uma minoria. Mas sempre foi assim, ao fim e ao cabo. Talvez hoje o cenário pareça pior. Pensar é um tormento que quase ninguém arrisca. Veja-se o simplismo das análises. O caso do Iraque, por exemplo. Diz-se que os EUA invadiram o país por causa do petróleo. Isso é secundário. A invasão deu-se por causa das ideias, por causa de Platão, o milenarismo e essas coisas. Mas quem é que quer saber disso? Daí a tal necessidade de ser paciente, o que é complicado, na medida que cada dia que passa é mais um dia em que a ditadura do politicamente correcto, do pensamento único (disfarçado de diversidade) se impõe. Mas o pagode quer é tv cabo e afins. Sempre foi assim, por que razão iriam mudar as coisas?

terça-feira, setembro 09, 2003

Toada de Portalegre


Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças.
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
(Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela

Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!

Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e zuis de distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...

Ora agora,
Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?

Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?

Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere... e consola
Como o próprio mal que faz?

Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites de tal suão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...

Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!

Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acaciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!

O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...

E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

sábado, junho 28, 2008

Não apaguem a memória

Excelente, n'A Cidade do Sossego:
"Não convém não. Por isso há que falar, sempre, do comunismo e dos seus crimes. Se uma das maiores virtudes do Diabo é fazer-nos crer que não existe, como dizia o outro, uma das mais conseguidas estratégias do comunismo consiste em branquear a memória. Apesar de se referirem com frequência à necessidade de preservação da mesma permanecem entre os seus maiores adversários."

sábado, maio 24, 2008

Os culpados do costume

"Eu bem desconfiava. Hoje, tive a prova. Ouvido num telejornal da rtpn: "Um responsável pelos serviços secretos sul-africanos afirmou que os distúrbios ocorridos nos últimos dias têm sido instigados por elementos ligados ao antigo regime do apartheid". Cito de memória, mas foi praticamente isto. Está explicado, portanto. A África do Sul continua ser um paraíso multiracial, onde impera a paz e o amor. Simplesmente, alguns canalhas conspiram para a demolição desse verdadeiro Éden." (in A Cidade do Sossego)
O mundo suspira de alívio. Os maus estão onde sempre estiveram.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Os meus vizinhos do IP2

Vizinhos é como quem diz; Portalegre e Castelo Branco são logo ali, mas é em alentejano puro. Tivesse o declarante outro berço e creio que a distância se lhe apresentaria mais agigantada. Seja como for, o certo é que partindo de Évora e seguindo pelo IP2 (quando a via aqui chegar a Évora, acontecimento que ouço ser iminente há uns vinte anos, sem ainda nunca o ter visto) de certo o indígena alcançará a terra que Régio cantou, e, passando o Tejo, chegará à urbe albicastrense.
Estamos todos três deste lado do país; o lado que se afunda, ou, noutra perspectiva, o lado que está a ir ao ar, porque o peso está todo concentrado lá longe, no litoral onde fica tudo e onde as multidões se aglomeram.
Chamo-lhes pois os meus vizinhos do IP2; são dois blogues por que nutro especial carinho, e que visito dia dia sim. Reconhecem-se pela natural distinção, e por invulgar preparação cultural. Também por terem voz própria e não afinarem pelo rebanho.
São o Voz Portalegrense e o Cidade do Sossego.
É o meu percurso IP2, no sentido Sul-Norte: paragens em Portalegre e Castelo Branco. Em internéticas ondas.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

lamento para a língua portuguesa


não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.


Vasco Graça Moura

quarta-feira, setembro 17, 2008

Liberdade

Abel Bonnard, citado na Cidade do Sossego:
"A cultura, por si só, dá-nos desde logo o poder de nos escaparmos. O homem inculto pertence por inteiro ao presente, ele sujeita-se sem reserva e sem remissão à tirania das circunstâncias. O homem culto tem sempre algo dentro de si que ultrapassa aquilo que lhe acontece. Ele não está nunca apenas presente num só tempo, num só lugar. A liberdade do seu espírito assegura-lhe uma espécie de dom da ubiquidade."

segunda-feira, maio 12, 2008

Posta do dia

Os telejornais das oito iniciaram as respectivas emissões com a aguardada conferência de imprensa destinada a anunciar os eleitos para o campeonato da Europa de futebol. É um momento muito importante, que marca o início dos rituais patrioteiros visíveis nestas épocas. Assim, em Junho, vamos assistir a mais uma grande manifestação de orgulho pátrio, que está cada vez mais parecido com as eleições. Nestas, bota-se o voto de quatro em quatro anos. Aquele, tira-se da gaveta também de quatro em quatro anos (ou de dois em dois, se os apuramentos correrem bem), acompanha-se com umas minis, uns tremoços e uma bandeirinha comprada no chinês.

in A Cidade do Sossego

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Mesa Redonda

Recordando uma dúzia de conversas registadas no "Sexo dos Anjos":

“A Cidade do Sossego” - Um blogue com voz própria.

“A Voz Portalegrense” - Um alentejano útil.

“Alma Pátria - Pátria Alma” - Agir localmente, pensar globalmente.

“Do Portugal Profundo” - A paixão da verdade e da justiça.

“Inconformista” - Vanguarda e Tradição.

Mente Vertical - uma questão de atitude.

“Nonas” - Sempre de serviço à blogosfera.

“O Pasquim da Reacção” - A reacção é a vida.

“Odisseia” - À maneira de Ulisses.

“Pena & Espada” - A História, a Política, a Cultura.

“Tomar Partido” - O imperativo de tomar partido.

“Último Reduto” - O que é preciso é que ninguém se abstenha!

terça-feira, setembro 02, 2008

H. P. Lovecraft

Lembrou-se dele a Voz Portalegrense.
É um escritor muito lá de casa ali pela Cidade do Sossego e pelo Dragoscópio.
E muito actual: os tempos vão negros.

quarta-feira, maio 14, 2008

A cidade do sossego

Um caso sério, este bloguista de Castelo Branco.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Fora de moda

"Penso que o modo como as pessoas são hoje educadas tende a diminuir a sua capacidade para sofrer. Presentemente, uma escola considera-se boa 'se as crianças se divertem'. E esse não costumava ser o critério. Além disso, os pais querem que os seus filhos cresçam como eles (só que mais), mas sujeitam-nos, contudo, a uma educação muito diferente da deles. - A resistência ao sofrimento não é muito cotada, porque não deve haver sofrimento; de facto, está fora de moda."
Ludwig Wittgenstein, lembrado no Cidade do Sossego

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Para a net, rapidamente e em força!

Após ter colocado o postal anterior, focando a crescente relevância da internet e dos blogues nestas coisas da política, ocorreu-me a pergunta: - mas há quanto tempo ando eu a repetir isso, e a chamar a atenção dos distraídos?
E fui verificar. Constatei que a primeira vez que produzi um apelo a esse respeito foi precisamente na segunda-feira dia 4 de Agosto de 2003!!!
Há quanto tempo! Praticamente ano e meio, a insistir continuamente...
Para que todos possam admirar a minha prodigiosa inteligência e capacidade de antecipação (qual sociólogos americanos qual quê!) reproduzo integralmente o que então produzi. A ver se se reproduz...

Para a net, rapidamente e em força!
Estou entusiasmado com esta coisa. Comecei eu aqui a escrever há três dias, temeroso e inseguro, e vejam só o resultado. O que era para ser um obscuro diário pessoal, falho de interesse que não fosse para o autor, está mais concorrido que um arraial popular em véspera de Santo António. Os visitantes, tendo em conta o contador, afluem em barda. Surtos de todos os lados....
Mas esta gente não tem mais nada que fazer?
Isto da net deve ter qualquer mecanismo para favorecer os principiantes. Não há outra explicação para as visitas: vir espreitar o novato. O pior é que me estragam o sossego e a intimidade do lugar. E nem deixam explicação, que já fui ver o guestbook e ninguém escreve no dito.
(Rais os partam! Atão fui eu prantar aqui o livro praquei? Ganda porra!)
Mas assim seja: se é para reunir pessoal, vamos a isto. Venham daí os amigos, conhecidos e desconhecidos. Instalai-vos, e militai na net. Quem se queixa que tem muito para dizer, e não sabe onde – aqui tem o sítio. Quem se lamenta da repressão e da censura – aproveite que aqui ainda não há. Quem procura ter voz, e não encontra altifalante, lance mão de engenho e arte – e venha pregar na rede.
Dinheiro não é preciso. Público, há mil vezes mais do que se consegue a colar cartazes para que ninguém olha, distribuir panfletos que ninguém lê, espalhar boletins pelos amigos – tudo caríssimo, em trabalho e capital – e sem retorno algum.
Camaradas, da cidade e dos campos, das escolas e das oficinas, do Carmo e da Trindade, de Mafra ou de Aveiro, da Feira ou do Porto, todos para a net, rapidamente e em força, como fez cá o Manel Alentejano. Ponham-se em rede!

segunda-feira, agosto 04, 2003

Para a net, rapidamente e em força!

Estou entusiasmado com esta coisa. Comecei eu aqui a escrever há três dias, temeroso e inseguro, e vejam só o resultado. O que era para ser um obscuro diário pessoal, falho de interesse que não fosse para o autor, está mais concorrido que um arraial popular em véspera de Santo António. Os visitantes, tendo em conta o contador, afluem em barda. Surtos de todos os lados....
Mas esta gente não tem mais nada que fazer?
Isto da net deve ter qualquer mecanismo para favorecer os principiantes. Não há outra explicação para as visitas: vir espreitar o novato. O pior é que me estragam o sossego e a intimidade do lugar. E nem deixam explicação, que já fui ver o guestbook e ninguém escreve no dito.
(Rais os partam! Atão fui eu prantar aqui o livro praquei? Ganda porra!)
Mas assim seja: se é para reunir pessoal, vamos a isto. Venham daí os amigos, conhecidos e desconhecidos. Instalai-vos, e militai na net. Quem se queixa que tem muito para dizer, e não sabe onde – aqui tem o sítio. Quem se lamenta da repressão e da censura – aproveite que aqui ainda não há. Quem procura ter voz, e não encontra altifalante, lance mão de engenho e arte – e venha pregar na rede.
Dinheiro não é preciso. Público, há mil vezes mais do que se consegue a colar cartazes para que ninguém olha, distribuir panfletos que ninguém lê, espalhar boletins pelos amigos – tudo caríssimo, em trabalho e capital – e sem retorno algum.
Camaradas, da cidade e dos campos, das escolas e das oficinas, do Carmo e da Trindade, de Mafra ou de Aveiro, da Feira ou do Porto, todos para a net, rapidamente e em força, como fez cá o Manel Alentejano. Ponham-se em rede!