Segunda-feira, Dezembro 15, 2003

“A Paixão”, segundo Mel Gibson

O actor, produtor e director Mel Gibson acabou recentemente de fazer um filme chamado "A Paixão".
O filme é uma descrição das últimas dozes horas da vida de Jesus Cristo, e conta com o actor americano James Caveziel (como Jesus) e a actriz italiana Monica Bellucci (como Maria Madalena).
Para saber mais sobre o filme, e as controvérsias a ele associadas, visite o website respectivo.
Poderá ver um trailer, olhar imagens e ler novidades e notícias sobre o filme.

O DIREITO DOS HOMENS

Uma crítica à ideologia dos direitos do homem não deve naturalmente fazer acreditar a ideia extravagante segundo a qual os homens não teriam direitos. Os direitos individuais existem. Toda a questão está em saber se são melhor defendidos por uma teoria jurídica mundialista de essência igualitária (todos os homens têm os mesmos direitos) ou por uma pluralidade de tipologias jurídicas. Não pretendemos que certos homens tenham mais direitos que outros, mas simplesmente que se deve reconhecer a cada comunidade política, histórica e cultural, o direito de especificar a natureza das protecções individuais que entende atribuir aos seus membros. Uma nação, com efeito, só respeita os direitos individuais na medida em que provenham de origens conformes à sua história. Por outras palavras, a soberania política e jurídica total é a condição sine qua non do respeito concreto dos direitos individuais reais. Fora da soberania, não há garantia do direito possível; não há liberdade.
À ideologia dos direitos do homem, que se pôde observar conduzir muito frequentemente è destruição das liberdades reais, podem contrapor-se concepções muito diferentes, permitindo a defesa mais concreta e mais eficaz destas liberdades. Entre todas as formuladas na Europa, três merecem ser estudadas mais particularmente: a concepção dos direitos e das liberdades sustentada por Jean Bodin no séc. XVI, a de Thomas Hobbes, o fundador da ciência política moderna, no séc. XVII, e finalmente a de Carl Schmitt, sem dúvida o maior jurista político do nosso tempo.
Estas concepções têm em comum o fundar os direitos e as liberdades dos homens sobre a soberania política.
O jurista angevino Jean Bodin tenta formular um direito simultaneamente comunitário e soberano, que não faz concessão alguma ao mundialismo do “direito natural”, sem para tanto cair no excesso do positivismo, do particularismo e do etnismo jurídicos. Opera assim uma síntese magistral do espírito germânico e do espírito latino (o qual toca sem dúvida muito profundamente o francês). “É a História - escreveu em 1566 - que nos permite reunir as leis dos Antigos por aqui e por ali, para operar a síntese”.
O direito, segundo Bodin, deve respeitar os “costumes dos povos” e rejeitar o absolutismo tirânico, garantindo totalmente o estatuto de soberania. A República, no sentido romano do termo, constitui o princípio superior da legitimidade. É ela que faz reinar um “direito do povo”, que nada tem de abstracto nem de universal, mas que respeita “as tradições e os valores morais de justiça e de equidade. A República sem poder soberano que una todos os membros e partes de icelle e todos mésnages e colégios num Corpo - escreveu Bodin - não é a República”.
Na concepção de Bodin, o direito protege antes de mais “le mesnage et la famille”, elementos primeiros do organismo comunitário, assim como garante a soberania que, como em Maquiavel, está colocada, com realismo “acima das leis”.
Afastando toda a tirania (“o tirano abusa das pessoas livres como dos escravos e dos bens dos súbditos como dos seus”..) Bodin também se precavê contra a atitude demagógica que consiste em confiar à lei o sonho de realizar a “felicidade” dos humanos: "aponhamos a mira mais alta que a felicidade”.
Ao mesmo tempo instrumento do poder soberano e protector das liberdades conquistadas, o direito pode então dispensar uma justiça “que se vê e faz crescer tão clara e luzenta como o esplendor do sol”.
A filosofia do direito de Jean Bodin ensina-nos que é possível fugir ao falso dilema posto pela ideologia dos direitos do homem: ou se protege o indivíduo e se arruina o Estado, ou se garante a soberania do Estado, e se arruinam as liberdades individuais.
Seguindo Jean Bodin, o inglês Thomas Hobbes, nos seus Elementa philosophica de cive (1650) e no Léviathan (1651), admitiu como não contraditórias as noções de libertas (que se poderia traduzir por “personalidade individual”) e de imperium (“autoridade soberana”), e demonstrou que uma se apoia na outra e reciprocamente. Como o verá Augusto Comte, Hobbes emitiu a ideia, que formará mais tarde o fundamento do pensamento de Carl Schmitt, que o Direito carece totalmente de sentido se não for fundado, segundo a expressão de Halbwachs, sobre o “relevo brutal da realidade política”.
Hobbes admite que o direito individual possa precisar uma “liberdade de fazer ou de se abster” (liberty to do or to forbear), mas concebe esta “liberdade virtual” como uma ressonância entre o sujeito e o poder atribuidor. O Direito, para ele, é simultaneamente um atributo do indivíduo e uma manifestação do seu poder. O direito à segurança garantido pela segurança jurídica resulta então de um elo entre o cidadão e os poderes, uma consequência política da existência de uma soberania. O termo inglês ought (“o que funda um direito e uma obrigação”) traduz bem esta ideia: o indivíduo obtém direitos, não em virtude duma necessidade metafísica qualquer, mas do facto de uma adesão a uma instância soberana que lhos garante em troca. O direito individual não é então autónomo, e apenas logra depender de formas de soberania eminentemente variáveis. Esta filosofia é conforme à tradição romana: o jus apenas toma em conta uma regra moral, na medida em que corresponde a costumes e a tradições particulares. O direito individual não procede dum devido universal mas de uma ética comunitária. Até se encontra o oposto da concepção moderna do “direito natural”, do moral right segundo a terminologia anglo-saxónica, que define a liberdade, segundo Hohfeld, como “libertação de todo o dever” (freedom from duty).
Na época em que os povos se desfazem e em que os indivíduos perdem toda a personalidade sob o efeito de sistemas económicos e ideologias internacionais que, homogeneizando os comportamentos, danificam o único direito “natural” que existe sem dúvida, o de se realizar a si mesmo segundo as capacidades e as potencialidades próprias, é talvez na renascença das soberanias políticas que se encontrará o melhor meio de proteger as liberdades.
No séc. XX, Carl Schmitt, e posteriormente Julien Freund, verão precisamente no poder protector da soberania política (o “bloco de mármore” de que falava Bodin) a melhor garantia possível para os direitos individuais e colectivos. Enquanto a ideologia dos direitos do homem visa distinguir soberania política e soberania jurídica (cfr. Montesquieu), Carl Schmitt, no seu tratado sobre o direito constitucional (Verfassungund Verfassungsrecht), pronuncia-se para uma fusão destas duas formas de soberania. Ele demonstra como o universalismo jurídico liberal visa abandonar a noção de acaso e, por conseguinte, a percepção dos “riscos históricos” a que toda a comunidade humana pode expor-se: o Direito, assim falseado, ilude os homens sobre as realidades socio-históricas, gera uma tranquilidade ilusória, fundada abstractamente sobre uma normalidade social e política imutável, e conduz os Estados a tornarem-se os despojos de uma História realizada por outros.

Guillaume Faye

Em prol do Estilo

Já aqui expressei várias vezes apreço por Olavo Bilac, o poeta que marca o cume mais elevado do parnasianismo brasileiro. Trago hoje um poema que, a quem saiba ler, explica tudo: é como um ensaio de teoria da literatura, mas belamente esculpido, com todo o capricho do artista. Como se lê, Olavo Bilac tinha a consciência perfeita que era de um tempo que acabava; e o que vinha não lhe seguia as passadas. Mas veja-se com que convicção afirma a crença na sua arte; face ao modernismo, afirma a arte, eterna porque intemporal. Não tinha dúvidas que aquilo que vale fica para além das modas. Veja-se, então.

PROFISSÃO DE FÉ

(Le poète est ciseleur, le ciseleur est poète) (Victor Hugo).

Não quero o Zeus Capitolino,
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o martelo.
Que outro – não eu! – a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atena o altivo porte
Descomunal.
Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário
De fino artista.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O onix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
E que o lavor do verso, acaso,
Por tão sutil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
De Becerril.
E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo,
O pensamento.
Porque o escrever – tanta perícia,
Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!
Deusa! A onda vil, que se avoluma
De um torvo mar,
Deixa-a crescer: e o lodo e a espuma
Deixa-a rolar!
Blasfemo, em grita surda e horrendo
Ímpeto, o bando
Venha dos Bárbaros crescendo,
Vociferando...
Deixa-o: que venha e uivando passe.
– Bando feroz!
Não se te mude a cor da face
E o tom da voz!
Olha-os somente, armada e pronta,
Radiante e bela:
E, ao braço o escudo, a raiva afronta
Dessa procela!
Este que à frente vem, e o todo
Possui minaz
De um Vândalo ou de um visigodo,
Cruel e audaz;
Este, que, de entre os mais, o vulto
Ferrenho alteia,
E, em jato, expele o amargo insulto
Que te enlameia;
É em vão que as forças cansa, e à luta
Se atira; é em vão
Que brande no ar a maça bruta
À bruta mão.
Não morrerás, Deusa sublime!
Do trono egrégio
Assistirás intata ao crime
Do sacrilégio.
E, se morreres por ventura,
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura
Nos envolver!
Ah! ver por terra, profanada,
A ara partida;
E a Arte imortal aos pés calcada,
Prostituída!...
Ver derribar do eterno sólio
O Belo, e o som
Ouvir da queda do Acropólio,
Do Partenon!...
Sem sacerdote, a Crença morta
Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta
Do templo augusto!...
Ver esta língua, que cultivo,
Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo
Dos infiéis!...
Não! Morra tudo que me é caro,
Fique eu sozinho!
Que não encontre um só amparo
Em meu caminho!
Que a minha dor nem a um amigo
Inspire dó...
Mas, ah! que eu fique só contigo,
Contigo só!
Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro.
Celebrarei o teu ofício
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!
Caia eu também, sem esperança,
Porém tranquilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!


Olavo Bilac

Domingo, Dezembro 14, 2003

O Bispo do Porto e o aborto

O senhor Bispo do Porto, como outros mais, faz-me sempre lembrar um dito de um velho Cónego meu amigo.
Quando o encontro, mesmo na rua e ocasionalmente, e a conversa começa a descambar para certas malfeitorias e desvarios hoje generalizados, o meu idoso amigo clérigo agarra-me no braço, aproxima-se mais e diz-me, em tom confidencial, como quem comunica um segredo importante: – “olha meu rapaz, a grande prova da origem divina da nossa Igreja está em que ela ainda aí está, ao fim de dois mil anos, apesar de tudo o que nós os padres temos feito para acabar com ela ...”
Quer ele dizer na sua que o tamanho dos dislates não pode distrair-nos do essencial – e o melhor é passar à frente.
Seguindo essa orientação, que além do mais evita complicações com as úlceras no estômago, quando me surge o sobredito mitrado perorando em qualquer meio de intoxicação social procuro fixar a atenção noutra coisa qualquer – e nunca ficar a saber o que ele diz.
Mas por vezes é difícil. A tirania dos títulos garrafais na primeira página, dos telejornais que nos apanham sem ter tempo para mudar de canal, tudo tem tornado inevitável que algumas vezes tenham chegado até mim as lucubrações de Sua Eminência.
Logo ao chegar ao importante cargo fez-se notar por, com grande alarido publicitário, ter feito questão de se deslocar às Antas para se fazer sócio do Futebol Clube do Porto, explicando que com tal gesto visava identificar-se e integrar-se com as gentes da sua nova diocese.
Pasmei, esperando logo o que se seguiria, com as reacções de outros lados. Mas não, nem o Boavista promoveu uma manifestação pedindo um Bispo só para eles, nem o senhor Bispo do Algarve surgiu na televisão a dançar o corridinho, nem o Senhor Bispo de Angra apareceu a actuar numa tourada à corda, nem o D. Januário se inscreveu nos “Diabos Vermelhos” – onde de resto não ficava nada mal.
Quer dizer que o bem senso dos outros foi maior, e a doutrina de D. Armindo foi sabiamente ignorada. Como desejaria o meu amigo Cónego.
Muito mais recentemente irrompeu o Ilustre Prelado na praça pública para se insurgir contra as perseguições que estavam a vitimar uma sua patrícia, de nome Fátima Felgueiras, dama impoluta e incompreendida. Sobre esta questão também ninguém disse nada, e perante as evoluções imediatas do caso parece que até o impulsivo purpurado decidiu calar-se.
Agora, em súbita recrudescência das polémicas abortistas, veio o Senhor Bispo fazer declarações ao mais importante jornal português, certamente de modo estudado, para alinhar ao lado das teses que a sua Igreja, por imperativo que o vincula, tem rejeitado e combatido.
Não se percebe com nitidez qual seja a posição do Senhor Bispo, enredado em conceitos obscuros como despenalização, legalização, descriminalização, etc. Mas entende-se o mais importante.
Lamentavelmente, ficou por dizer se o Senhor Bispo prefere os abortos feitos no sistema nacional de saúde, portanto públicos, livres e gratuitos, como gostam os abortistas de linha socializante, ou os abortos em clínicas próprias, privadas e custeadas pelos interessados, como propõem, em clara defesa dos contribuintes e da iniciativa privada, os abortistas neodireitistas.
Sobre essa divergência crucial o Sr. Bispo nada disse, concerteza porque acha que não deve pronunciar-se sobre política.
Como os meus conselhos serão inúteis, não valerá a pena exarar o que me parecia adequado ao Sr. Bispo do Porto: penitência e oração, muita penitência e muita oração, e voto de silêncio perpétuo. Que se calasse, ao menos, era um ganho inestimável para a Igreja e para os católicos. Mas deixo isto para o seu confessor, se ele o tiver.
Limito-me a consignar que também desta vez me escapam as motivações e as finalidades que animam o Senhor Bispo. O que procura não será apenas uma coluna no “Independente”, que, aliás, certamente lhe seria franqueada.
Mas também aqui e agora o melhor é seguir a orientação do meu amigo Cónego.
Quero lá saber do que diz o Bispo do Porto!

Sábado, Dezembro 13, 2003

Missas de rito tradicional latino-gregoriano

Domingos: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III), em Lisboa
Segunda-Feira a Sábado: às 19 horas, no mesmo local

Neste Domingo 14 de Dezembro: também em Monforte, às 18.30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3, Monforte

Velharias

Se nada existe de superior ao Indivíduo, como sempre acreditou certa direita, então não há como fundamentar a imposição de regras e condutas que não sejam o resultado livre da vontade dele - tal como proclama certa esquerda.
Comportamentos sexuais, uniões pessoais, hábitos de consumo, tudo pertence à esfera íntima e pessoal de cada um.
E se isto é certo, como acredita a tal esquerda, o que não tem lógica é insistir na mania do socialismo, que releva da preocupação da justiça social - como basear essa ideia de justiça, se não existem valores, senão as particulares e subjectivas representações que disso tenha cada Indivíduo? E como justificar a luta por tal modelo concreto, no seu impulso moralizante, perante a liberdade das vontades que eventualmente o rejeitam?
Em resumo: na sua admiração pelo Indivíduo e pela liberdade apresenta-se plenamente coerente a posição da esquerda louçã nas matérias de costumes, da chamada agenda social - seja a droga, seja o aborto, sejam as uniões de facto, sejam os direitos de homosexuais, seja lá o que for. O que não bate certo é o projecto de imposição ao colectivo dos tais seres livres de um modelo definido de sociedade que é dado à partida como justo e a que os interesses e vontades individuais terão que submeter-se - apesar de não se conhecer valor independente e superior a tais vontades.
E por outro lado, no campo da direita catita com assinatura na Independente e estágio nos bares do Príncipe Real, se nada existe a legitimar a sujeição do Indivíduo a normas que ele rejeita, por ser ele o supremo valor e ser soberana a liberdade, compreende-se a rejeição do socialismo, quadro rígido a cercear a livre expressão do agregado voluntário de indivíduos que a sociedade seria - e do mesmo passo decorre a aceitação do essencial do pensamento atrás exposto como a "agenda social" da tal esquerda festiva. Onde se iria apoiar a construção de uma Ética, negando desse modo o lugar cimeiro do Indivíduo a ela sujeito?
Nada trazem de novo portanto os cronistas que nestes últimos tempos têm provocado, a meu ver sem justificação, alguma agitação no chocho debate de ideias que de quando em vez anima as redacções da capital.
Tudo está certo, coerente e lógico. Com o rótulo de "nova direita" ou outro qualquer, têm razão os injustiçados teorizadores. Daqui lhes expresso a minha aprovação plena.
E mais digo, que o pobre casamento ideológico entre a visão da sociedade e dos costumes que tem sido defendida pela esquerda festiva e a concepção do homem, dos valores e da organização social que é própria da citada direita apresenta-se em tudo como um casamento natural e equilibrado, que decorre das posições conhecidas das partes e não de qualquer inovação.
Parece-me que talvez nem se justificará dizer de tal união o que acerca de certos casamentos de conveniência ironizava Silva Tavares (outro alentejão, mais bem humorado que este vosso escriba):

Com separação de bens,
casou-se a minha vizinha.
Ele tinha os seus vinténs
E ela nem isso tinha.

Bella Mariana

Estava Maria feliz e descuidada
Da presidência gozando o usufruto
Lá no palácio rosa da cruzada
Quando, em gesto fero e bruto,

O ministro, em reles intrigada,
Sem aviso lhe manda um substituto,
Com acto vil ferindo a alma honrada
Ainda hoje envolta em negro luto.

Mas não julgues, vilão, que já escapaste
airoso de tal feito, e que consegues
Safar-te da tramóia que arranjaste

da manha e da perfídia assim empregues.
Treme, mimoso Portas, que acordaste
A fúria e o poder dos soaregues!


P. S. (post-scriptum, pois claro): este soneto tem por título “Bella Mariana” para que se note que aqui nesta velha frente também somos lidos e cultivados, como o BOS; em vernáculo significa a expressão, literalmente, “guerras de Mário”. É pra que saibam ...

Sexta-feira, Dezembro 12, 2003

INTERVENÇÃO NACIONALISTA: UMA APOSTA NO HOMEM PORTUGUÊS

“Uma aposta no Homem Português, na sua tentação de grandeza e na sua vocação de responsabilidade” - assim se apresentava a «Intervenção Nacionalista», no final de Abril de 1980, no seu primeiro texto público, em que se dava a conhecer como movimento em vias de constituição.
Desse manifesto constavam também as assinaturas dos oitenta primeiros militantes, os fundadores. Ao reler hoje a lista noto o pormenor curioso da forte presença do Instituto Superior Técnico (para além dos já então históricos nessas andanças). Mas quem não conhece fica sem conhecer ...
Na sequência de anterior referência já feita aqui a esse movimento, e sobretudo por se afigurar relevante registar, mesmo que só para a história, as afirmações e os subscritores, segue-se o que acabo de mencionar – sem crítica nem julgamentos, que seriam aqui pretensiosos e descabidos..

“Perante o imobilismo e o acomodamento, a descrença, a transigência, o confusionismo e a corrosão que invadem as gentes portugueses e começam até a ameaçar os redutos mais puros, algumas pessoas de diversas origens, idades e condições consideram urgente formar um movimento que se designou “INTERVENÇÃO NACIONALISTA” e se destina a congregar esforços para a restauração da grandeza nacional.
“INTERVENÇÃO NACIONALISTA” é:
- Uma ordem militante de portugueses, iguais na dureza da sua exigência moral e unidos na intransigência do seu nacionalismo;
- Um movimento de inteira solidariedade e camaradagem, cuja honra é fidelidade;
- Uma comunidade de luta independente, de crítica serena e fria, impiedosa e sem equívoco;
- Uma comunidade de convívio, exclusiva de uma certa qualidade de homens - intransigentes, capazes de amizade e de desprezo;
- Um desafio ao conformismo fácil das revoltas e ideologias dominantes e um repúdio da habilidade sistemática dos interesses feitos ideias e da política feita demagogia, mentira e traição;
- Um grupo de pensamento rigoroso e acção eficaz e duradoura;
- Uma aposta no Homem Português, na sua tentação de grandeza e na sua vocação de responsabilidade;
- Um estilo de vida, uma concepção do Mundo, uma filosofia de acção;
- Uma recusa definitiva das superficiais coerências e das falsas hierarquias;
- Um acordo profundo de homens livres, unidos fraternalmente no amor da Terra e na lealdade ao sangue.


ASSINAM:
Alberto Carlos Dionísio Coelho, Alberto Pedro Maia Trindade, Alexandre I. Canelhas, Amílcar G. Gonçalves. António José de Almeida, Dr. António José de Brito, António José Oliveira Martins, António Manuel Ferreira, António Manuel Monteiro, António Miguel Rodrigues da Silva, António Vasco Meneses, Dr. Armando Costa e Silva, Arnaldo Gomes, Bernardino Margalho Soares, Dr. Caetano de Mello Beirão, Carlos Costa, Carlos Manuel Baptista Simões, Cristina Aguiar Câmara, Diogo Ferreira, Domingos G. Leal, Edgar Emanuel Azevedo, Eduardo J. Ramos Filipe, Eduardo Lopes, Eduardo Quiñones da Silva Pereira, Eurico Lima, Filomena Duarte Conde Agostinho, Fernando B. Andrade Gomes, Fernando L. Ferreira, Francisco T. Bastos, Graça Aguiar Câmara, Goulart Nogueira, Isabel Aguiar Câmara, João Aguiar Câmara, João Henrique Sacadura, João José Santos Pereira, João M. Gaivão, João Paulo Bilé Serra, João V. Monteiro, Joaquim Valente, Jorge Chambel da Fonseca, Jorge Manuel Osório Gomes, Jorge Mota, Jorge N. Rocha, José António Cunha e Costa, José Rebordão Esteves Pinto, José Alves Diollo, José Carlos Silva, José Frederico Prazeres, José Manuel Ferreira, José Manuel Monteiro, José Manuel Santos Costa, José Rafael Rebelo Espírito Santo, Júlio Dâmaso, Lúcio da Costa Rodrigues, Luís Aguiar Câmara, Luís F. Nascimento, Luís Forjó, Luís Pedro Correia, Luísa Aguiar Câmara, Manuel Gil Botto, Maria Teresa Barreto Soares, Mário Dias de Almeida, Miguel Abranges Pinho, Miguel Angelo Ferreira, Nelson Dias de Almeida, Nuno Luís da França Duarte, Paulo Brito, Paulo Sérgio Guimarães Silva, Pedro J. Nunes, Pedro Manuel Lima, Pedro Pimenta Valentim, Pedro Pree, Preciosa Miranda Maio, Porfírio Maio Agostinho, Rodrigo da Costa, Rodrigo Emílio, Rodrigues de Brito, Sebastião D. Garão, Vítor Ferraz, Vítor Hugo Rodrigues, Walter Ventura e Dr. Zarco Moniz Ferreira.”

Baasismo e nacionalismo árabe

1- Explicação breve
Há algum tempo atrás deixei neste blogue uma sequência de artigos sobre os acontecimentos do Iraque. O decurso do tempo parece-me ter reforçado a pertinência de muito do que aí ficou escrito.
Numa das análises de então, como terá entendido o leitor, eu considerava que no mundo árabe há que contar com duas forças substancialmente diferentes e a prazo incompatíveis entre si, todavia agora a agitar-se e a confluir contra as intromissões ocidentais.
Uma delas é o nacionalismo árabe, de pendor modernizante e laico, mas com um projecto de unidade e independência árabe que se confronta com as divisões e o domínio que desde os tempos coloniais o Ocidente assegura nas terras dos árabes (aproveitando e incentivando muitas vezes as divisões já existentes).
Essa orientação é bem visível nos partidos governantes no Iraque, antes da actual guerra, e agora ainda na Síria, como também é visível na Organização de Libertação da Palestina. E atraiu sempre um escol notável de árabes cristãos: veja-se no caso da Síria Michel Aflaq, fundador do baasismo, no Iraque com Tarek Aziz, na Palestina Georges Habache, e a própria mulher de Arafat.
Esta tendência política está fatalmente destinada a chocar-se com o integrismo religioso (ou o contrário!), o qual assola as populações árabes como os demais países islâmicos no mundo. Melhor seria dito integrismos, no plural, já que pela sua natureza esse integrismo se traduz no acirrar de divisões internas, conforme as linhas de fractura dos particularismos religiosos da religião islâmica, onde sempre proliferaram escolas, correntes, seitas, orientações teológicas diversificadas.
Esta onda integrista assumiu clara visibilidade no Irão, no Afeganistão, na Palestina e no Líbano, com o Hamas, a Jihad, o Hezbollah, ultimamente no Iraque ou até na Indonésia. De imediato se constata, como consequência, por exemplo, a existência de um clima conflitual entre os dois grupos maiores, sunitas e xiitas, tal como há muitos séculos não se verificava. A esse respeito, veja-se a situação interna no Iraque ou no Paquistão.
Por se me afigurar que a compreensão desta problemática ganha com algum conhecimento histórico sobre o nacionalismo árabe no século XX, o qual necessariamente se prolongará no nosso século, ainda que sob outras roupagens e designações, resolvi reincidir, e publicar alguns apontamentos sobre a mais importante das forças históricas do nacionalismo árabe, o BAAS.

2 - O partido.
O partido BAAS foi fundado por um grupo de intelectuais árabes, fundamentalmente de Damasco, destacando-se como teórico Michel Aflaq. De carácter nacionalista, socializante e panarabista, o partido BAAS (ressurgimento, ou renascimento, em árabe) organizou-se em quase todos os países árabes, e inclusivamente dentro da OLP, com Al Saiqa, alcançando o poder na Síria e no Iraque em 1963. Ao longo dos anos, tanto na Síria como no Iraque, sofre diversas vicissitudes, pelo que as cisões e enfrentamentos internos darão lugar à presença de numerosos partidos de inspiração baasista em diversos países árabes. Assim, por exemplo, no Líbano chegarão a coexistir três partidos baasistas confrontando-se entre si.
Os dois pilares doutrinais sobre que assenta, desde as origens, o partido BAAS, são o nacionalismo e o socialismo. Deste modo, cada país árabe formaria parte da grande nação árabe, pelo que a actual estrutura estatal, herdeira em parte do colonialismo europeu, deveria desaparecer progressivamente. O segundo pilar do edifício teórico do baasismo é o socialismo, pouco definido e, em qualquer caso, não marxista.
Ambos os conceitos estariam inseparavelmente unidos dentro de um projecto revolucionário e de transformação; nas palavras de Aflaq: "A identificação que efectuamos entre a unidade (árabe) e o socialismo consiste em dar corpo à ideia da unidade. O socialismo é o corpo e a unidade é a alma, se assim se pode dizer".

3 - Os fundadores
Como ficou dito, o nascimento do moderno nacionalismo árabe, laico e socialista, tem na sua origem um cristão sírio: Michel Aflaq.
O partido BAAS, motor do nacionalismo árabe moderno, juntamente com o nasserismo, está inseparavelmente ligado, durante os seus primeiros vinte anos de existência, à personalidade de Michel Aflaq.
Na fundação do partido destacam-se dois personagens: o cristão sírio Michel Aflaq, nascido em 1910, como teórico do partido, e Salah Bitar, como o seu organizador. Ambos faziam parte da pequena burguesia de Damasco. Os dois estudaram na Sorbonne, onde contactaram com as ideologias que se confrontavam na Europa dos anos trinta: marxismo e fascismo.
Michel Aflaq regressará depois a Damasco, onde trabalhará como professor de história, ao mesmo tempo que se destaca como doutrinário das ideias nacionalistas árabes e anticolonialistas.
Conheceu a prisão em várias ocasiões. Em 1939 foi preso pela administração francesa. Participa na fundação de diversos círculos políticos que darão origem ao futuro partido BAAS. Em 1948 foi de novo encarcerado, sendo então chefe do governo Shukri el Quwatli. Em 1949 foi novamente encarcerado pelo governo de Husni El Zaim, autor do primeiro golpe de estado na Síria após a independência da potência colonial, a França. Sob o governo de Adib El Shishakli, Aflaq entra outra vez na prisão em 1952, e posteriormente, de novo, em 1954.

4 - As origens
Existe alguma confusão quanto às origens e os primeiros anos da vida do partido.
As origens mais remotas do BAAS encontram-se em 1941, quando Michel Aflaq e Salah Bitar criam um comité sírio de apoio ao Iraque, para evitar a sua entrada na segunda guerra mundial.
Segundo Wahib al Ghanem, um dos primeiros dirigentes, o BAAS nasceu da fusão de dois pequenos grupos: “Ihya el Arabi” (o despertar árabe) de Michel Aflaq, e “Baas el Arabi” (a ressurreição árabe) de Takri Arzuzi.
Foi em 1947 que se celebrou o primeiro congresso, coincidindo neste ponto os diversos autores. A ele assistiram cerca de 250 intelectuais procedentes de diversos países árabes. Os assistentes tinham orientações ideológicas muito distintas, o que levou a um acordo programático final de compromisso, muito genérico. Essa aparente debilidade ideológica inicial permitiu, no futuro, uma ampla margem de flexibilidade táctica e doutrinal.
O congresso nomeou então Michel Aflaq presidente e Salah Bitar como secretário geral. O primeiro comité executivo será formado por Salah Bitar, Yalal As-Sayid e Wahib al Ghanem.
O BAAS, desde o seu nascimento, em parte pelo generalidade do seu programa em diversos aspectos, mostrou-se um partido realista e flexível nas suas alianças com outras forças políticas, pelo que pactuará depois com nasseristas e comunistas, por pura conveniência, de forma a alcançar o poder.
As suas principais ideias, nessa fase inicial, eram:
1 - Os povos árabes formam uma unidade política e económica, a que denominou de nação árabe, expressão que logrará grande aceitação.
2 - A nação árabe também forma uma unidade cultural.
3. Apenas os árabes, como habitantes da nação árabe, têm o direito a determinar o seu futuro. Daí o seu inicial posicionamento face ao colonialismo, e o seu neutralismo doutrinal.
O partido sofreu depois diversas transformações, incorporando-se no mesmo outros partidos socialistas e nacionalistas que alargariam a sua base sociológica, muito estreita nas suas origens (intelectuais, basicamente). Assim, em 1954, o BAAS funde-se com o Partido Árabe Socialista de Akram Hurani, pelo que desde então adoptará o socialismo como sinal de identidade, embora segundo alguns autores a sua denominação "socialista" figurasse já desde 1947.
O objectivo fundamental do BAAS era a unidade da nação árabe e o partido definir-se-à logo na sua constituição, por isso, como árabe, nacionalista, socialista, democrático e revolucionário.

5- A ideologia
Durante a sua permanência em Paris, inicialmente ambos os fundadores simpatizaram com o nacional-socialismo alemão, por haver conseguido, a seu ver, uma síntese entre ambos os conceitos, nacionalismo e socialismo, que eles queriam aplicar ao mundo árabe.
Como causa da debilidade deste diagnosticaram a fragmentação territorial e de poder que atingia os árabes. Em concreto, alguns autores referem o teórico alemão Alfred Rosenberg como inspirador de ambos.
Nacionalismo e socialismo são as colunas fundamentais sobre que se apoia a ideologia de Aflaq e que se transmitirá ao BAAS.
Dada a sua confissão cristã, concretamente greco-ortodoxa, vejamos a sua posição perante o islamismo. Alguns autores, egípcios especialmente, consideraram que nacionalismo e Islão eram incompatíveis. Tal pretensão logo foi tentada desmentir desde as altas instâncias do partido. Logicamente, Michel Aflaq, como principal teórico do partido, já em 1943, assinalará que:
"O Islão representa a imagem mais brilhante da sua língua e da sua literatura (árabes), e a parte mais importante da sua história nacional é indissociável dele, porque o Islão na sua essência e na sua verdade é um movimento árabe que representa a renovação e o apogeu dessa realidade, porque nasceu no seu solo e da sua língua, porque o apóstolo (Maomé) é árabe e os primeiros heróis que lutaram pelo Islão e o fizeram triunfar foram árabes, porque a sua visão da realidade se identificava com o espírito árabe, as virtudes que fomentou eram virtudes árabes, implícitas ou explícitas, e os defeitos que fustigou eram defeitos árabes em vias de desaparecer".
Para Michel Aflaq o Islão tinha-se regenerado na época moderna no nacionalismo árabe.
Em qualquer caso, apesar de tais afirmações, o BAAS sempre foi suspeito de laicismo para os movimentos islâmicos, confrontando-se com estes em numerosas ocasiões.
A busca de um nacionalismo socialista levou-o a uma neutralidade teórica em política exterior, não alinhando nas correntes europeias.

6 – Ocidente e comunismo
Perante o ocidente, Michel Aflaq assume uma oposição resoluta, por entender estar face às potências coloniais que um dia exploraram os árabes, e impediram a sua unidade.
Mas tampouco se identificará com os países comunistas, pois o marxismo, na sua base ideológica, é contrário aos nacionalismos, e, portanto, antiárabe.
Perante o comunismo, Aflaq mostra um absoluto desacordo que concretizará em três aspectos:
1 - Contra o determinismo marxista, considera a revolução como um acto explosivo de liberdade.
2 - Contra o internacionalismo proletário, afirma o nacionalismo árabe.
3.Quanto ao papel da religião, Aflaq, contra o afirmado pelo marxismo, considera que moral e religião são valores fundamentais e eternos.
Isto levará a que o partido BAAS nos anos 40 e 50 seja profundamente anticomunista. Posteriormente, já no poder, estabelecerá algumas alianças temporárias com partidos comunistas, seguindo a política de Frente Nacional.
Mas, dado que o Ocidente apoia tradicionalmente Israel, em particular os Estados Unidos, Aflaq considerara já em 1956 como lógica a convergência com a União Soviética, por esta convergir na sua luta contra o Estado de Israel, e precisar de apoios exteriores neste sentido.
Na sequência disso, já em 1971, Salah Bitar analisará a situação do partido de forma muito crítica, afirmando que os jovens tinham passado a estudar o marxismo-leninismo, não por convicção comunista, mas por necessidade de uma formação ideológica que o partido não havia sido capaz de proporcionar.
Com o decurso do tempo, o poder baasista na Síria e no Iraque, onde governavam os dois ramos principais, e rivais, do Baas, viria a ser transformado por dentro em estrutura de suporte às ditaduras pessoais de Hafez Al Assad e Saddam Hussein.
Mas isto já é história conhecida.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2003

Mais papéis velhos

Continuando a publicitar, em desinteressada acção de benefício à ciência histórica, as extraordinárias descobertas que a comissão ad hoc para investigação dos acontecimentos do 28 de Setembro de 1974 exarou no seu relatório, após poucos meses de porfiado labor, reproduzo hoje o que foi possível apurar sobre um sinistro agrupamento, de que ainda restam por aí uns salafrários, que operou impunemente durante uns meses de 1974. Impunemente ... até a gloriosa revolução se lançar a eles! Que depois pagaram-nas bem, os malandros ...

“10. Movimento de Acção Portuguesa (MAP)
Este agrupamento resultou de uma cisão operada num sector da direita portuguesa, cisão essa que foi motivada primordialmente por uma divergência ideológica quanto à problemática colonial.
Assim, parte desse sector compreendeu que a alternativa possível, depois do 25 de Abril, em relação àqueles territórios, ainda poderia ser a tese federalista, perfilhando (ou pseudo-perfilhando) as ideias do General Spínola, expostas no seu livro "Portugal e o Futuro" pelo que se apressou a erguer o Movimento Federalista Português/Partido do Progresso.
A outra parte (ou resíduo) dessa direita permaneceu agarrada à tese integracionista de Salazar e Caetano, negando-se à associação, que inicialmente foi proposta, ao Movimento Federalista. Por isso, os indivíduos que estiveram na origem do MAP, Florentino Goulart Nogueira e Rodrigo Emílio Alarcão Ribeiro de Melo, ambos poetas e amigos de José Valle de Figueiredo, resolveram formar um outro grupo político, cuja designação seria Movimento Nacionalista Português, a qual teve de ser alterada em virtude do aparecimento do Partido Nacionalista.
As linhas programáticas do Movimento de Acção Portuguesa (MAP), para além de desenvolverem as ideias integracionistas, eram orientadas num sentido unipartidário, anticomunista e apologista de governos de minorias. A título exemplificativo, transcrevem-se alguns dos pontos básicos do seu programa, onde as características indicadas ressaltam com maior nitidez: - defesa da unidade nacional, como País pluricontinental; - respeito pela verdadeira independência da Pátria, que não se compadece com a imitação servil de modelos estrangeiros; - apologia da autoridade e da ordem; - repúdio do dogma da luta de classes; - condenação do espírito de divisão partidarista; - libertação da cultura, dominada pelo dogmatismo marxista.
Paralelamente à adopção destas linhas ideológicas orientadoras da sua actividade política, o facto de certos ex-legionários constituírem um dos principais campos de recrutamento de elementos para o MAP, se não é conclusivo, legitima, contudo, todas as dúvidas que pode levantar.
0 Movimento de Acção Portuguesa acabou por se revelar somente como um grupo de perigosos activistas que poderiam inclusive dedicar-se à prática de acções específicas, das quais se não excluíam mesmo os atentados. A sua sede localizava-se na zona da Calçada da Estrela, muito próximo da residência oficial do Primeiro-Ministro em São Bento.
0 presidente de honra do MAP era o Professor Guilherme Braga da Cruz, de Coimbra, com quem os fundadores já citados mantinham boas relações. Outros membros desta tenebrosa organização eram: Walter Cândido Ventura, maníaco por armas de fogo, potencialmente perigoso, administrador de posto em Angola, com estágio de "comandos"; Delfim Fuentes Mendes, pertencente ao movimento "Jovem Portugal", nazi fanático, presente numa reunião da comissão organizadora da manifestação dita da "maioria silenciosa"; Vasco Emanuel de Centeno Barata e José Rebordão Esteves Pinto, também activos ex-legionários e antigos colaboradores da Radiotelevisão Portuguesa”.


Que se há-de dizer? Desde a adjectivação à perspicácia dedutiva, um prodígio! E quanto a descobertas, estes rapazes do MFA são de fazer inveja a Sherlock Holmes ... vejam bem os leitores: quem iria desconfiar que o Walter era ... cândido?

Princípios de Direito Constitucional

“Na nossa ordem política, a primeira realidade é a existência independente da Nação Portuguesa (...)
Desta forte realidade e desta primeira afirmação, outras derivam imediatamente: a primeira é que estão subordinadas aos supremos objectivos da Nação, com seus interesses próprios, todas as pessoas singulares e colectivas que são elementos constitutivos do seu organismo; em contraposição e garantia da eficácia superior deste sacrifício afirma-se também que a Nação não se confunde com um partido, um partido não se identifica com o Estado, o Estado não é na vida internacional um súbdito mas um colaborador associado. Em palavras mais simples: temos obrigação de sacrificar tudo por todos; não devemos sacrificar-nos todos por alguns.
Tão evidentes e naturais são estes princípios que defini-los pode parecer uma superfluidade. Mas a quem considerar algumas das ideologias que estão tendo o favor do nosso tempo, tais pontos de partida hão-de aparecer como a primeira necessidade do nosso direito público. São-no na vida interna como princípio informador da nossa actividade e clara afirmação de todo o nosso destino, perante nós próprios enfraquecidos na unidade nacional pelo espírito de partido, roídos nos interesses materiais pelo espírito de parasitismo e de favor. São-no diante do mundo numa época de intensa vida e colaboração internacional e eivada de vários internacionalismos e cosmopolitismos, e são-no ao menos nos momentos decisivos em que daí possam provir ameaças, restrições, negações dos nossos títulos jurídicos".

VINTE DE MAIO (Timor... e não só!)

Vinte de Maio de dois mil e dois. Nasce uma nova nação. Gerada no sofrimento. Combatendo a indiferença. Com sangue, muito sangue.
Vinte de Maio de dois mil e dois. Esta data ficará na História. Vinte sete anos depois, e duzentos mil mortos como preço e marca de ocupação, a Indonésia vê surgir nas suas fronteiras um novo país ao qual quis negar a liberdade, apoiada por um grande deste mundo, em nome da estabilidade do seu próprio regime. Como se se pudessem invadir vizinhos só porque o sistema político não agrada. Não há lei que tal contemple. As instâncias internacionais nunca aceitarão a legalidade da acção.
Vinte de Maio. Uma data marcante na História de Portugal.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Um governador militar, perante um ataque iminente, decide capitular. Afinal, o invasor mais não é que um peão manobrado por uma potência exterior. Lutar para quê ?
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Espera-se que, tal como sucedeu em situações anteriores, tudo volte a ser como antes quando uma verdadeira paz for assinada. O invasor sairá então.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um. Olivença capitula, sem disparar um tiro. A população inquieta-se, mas confia. Com o tempo, tudo regressará ao normal.
Muitos anos antes, em mil seiscentos e cinquenta e sete, ocorrera algo idêntico. Quase todos tinham fugido, para regressar onze anos depois. Tudo se recompusera.
Vinte de Maio de mil oitocentos e um.
Não houve sangue. Uns poucos (os pessimistas!) atravessaram o Guadiana. Em Elvas, o invasor encontraria resistência, bem como em Campo Maior. Na primeira, conseguiu uns ramos de laranjeira. Na segunda, acabou por vencer, mas a que preço!!!
E veio uma paz falsa e logo violada. E outras guerras. E uma paz verdadeira, em que se apagou o vinte de Maio de mil oitocentos e um. Para todos. Mas não para o invasor. Que não matou duzentos mil, nem mil, nem cem. Mas matou uma cultura. Ou, pelo menos, deixou-a vazia, moribunda. Em duzentos e um anos, muito se consegue. Recorrendo à repressão, quando necessário. Às claras, ou discretamente.
Vinte de Maio de dois mil e dois. Timor-Leste é uma nação livre. Este vinte de Maio é diferente. Timor derramou sangue, muito sangue. Disparou-se sem contemplações.
Olivença não viu sangue derramado em vinte de Maio de mil oitocentos e um. Por isso, nesse aspecto, não é comparável.
Mas... Olivença viu ser sangrada a sua cultura e a sua história. Viu gente sua dispersa, numa sangria dos seus filhos. Não morreu na carne. Morreu no espírito. O passado tornou-se um conjunto de sombras vagas, contraditórias, falsidades contra as quais quase não consegue reagir. Perdeu as referências.
Vinte de Maio de dois mil e dois. A bandeira de Timor Lorosae tremula sobre um povo libertado. Consciente da sua história. Dolorosa. Mas de todos conhecida. Por todos sofrida.
O invasor teve quase vinte e cinco anos para diluir uma nação e fazê-la esquecer-se de si própria. Algumas vozes calaram-se. Outras, nunca o fizeram. Tiveram dúvidas, mas não desistiram.
E fizeram-se ouvir. Alguns resistiram em Timor. Outros, principalmente os que falavam em Português (ainda que não só...), protestavam. E não deixavam esquecer. Teimosamente. Vinte e cinco anos de teimosia.
O ocupante não conseguiu, em vinte e cinco anos, apagar a chama. Poucos se vergaram.
Vinte de Maio. Uma data no calendário. Consoante o ano, o início de uma ocupação persistente, contínua, preocupada em apagar um passado de seiscentos anos, numa população que resistiu com fracos recursos e apoios. Ou o início da vida independente de um povo. Que sofreu, mas venceu. Que a diplomacia nunca abandonou. Corajosamente. Crente em princípios.
Mil oitocentos e um. Dois mil e dois.
Dois vinte de Maio...

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Quarta-feira, Dezembro 10, 2003

PRECE DE UM PÁRA-QUEDISTA

Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me o que nunca ninguém Vos pede.
Eu não Vos peço o repouso,
Nem a tranquilidade,
Nem a da alma, nem a do corpo.
Eu não Vos peço a riqueza,
Nem o êxito, nem mesmo a saúde.

Eu quero a incerteza e a inquietude,
Eu quero a tormenta e a luta...
E concedei-me-las, Senhor,
Definitivamente.
Que eu tenha a certeza de as ter para sempre,
Porque não terei sempre a coragem
De Vo-las pedir.

Dai-me, Senhor, o que Vos resta.
Dai-me o que os outros não querem.
Mas dai-me também a coragem
E a força e a fé...


Aspirante Pára-Quedista Zirnheld
(em lembrança do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas –
- “Que nunca por vencidos se conheçam!”)

Língua portuguesa

Madre Língua portuguesa,
sombra dos coros divinos;
- Milagre da Natureza:
De rouca e surda rudeza
Erguida em sons cristalinos!

Língua santa, onde há, escrita,
esta palavra “Jesus”;
ou a ternura bendita
que nos diz: “Mãe” e palpita
na essência da própria luz.

Alta espada de dois gumes,
castelo das cem mil portas:
Língua viva, que resumes,
- rescaldo de tantos lumes! –
o génio das línguas mortas ...

Foste a leal companheira
dos meus avós: Quantas vezes,
- Tuba de oiro, à dianteira,-
junto a Deus, à sua beira,
chamavas os Portugueses!

Foste, a abrir-nos o caminho –
mais do que em mão de Gigante,
brônzea espada chamejante ...
- Ó Rola dentro do ninho!
ó Leão dilacerante!

Ouvi! - A Língua é Bandeira
da Pátria que reza e canta:
Bendito quem, - entre tanta
De altiva cor estrangeira, -
à luz do Sol a levanta!

António Correia de Oliveira, “A fala que Deus nos deu”

Da Nação, do Homem e do Interesse Nacional

É possível considerar a Nação um somatório de uns tantos indivíduos e instituições e aludir assim à vontade real da Nação como o produto das decisões, provavelmente eleitorais, desse indivíduos e instituições, as últimas expressas através dos seus representantes.
Não importa discutir, aqui, se esta concepção de nação é ou não exacta. O que importa acentuar é que ela se afasta, radicalmente, da que é tradicional encontrar em autores nacionalistas ou, até, simplesmente, de direita.
Para o nacionalista, a Nação é uma entidade histórica que está para além dos indivíduos e das instituições, permanece enquanto estes passam e vão sendo substituídos. Ela representa um património moral comum, cuja conservação e aperfeiçoamento constitui um dever para indivíduos e instituições.
Em rigor, do ponto de vista do nacionalismo, não há uma vontade nacional porque a nação não é um ente real com um querer próprio; mas, a admitir-se uma vontade da nação, esta não será a dos indivíduos mas a das instituições, e, apenas, a do governante legítimo que personifica a colectividade e, situando-se acima de quaisquer entidades particulares em vez de delas receber directrizes, as integra no serviço da pátria. Em todo o caso para evitar equívocos, o nacionalismo prefere falar, não na vontade nacional, mas sim no interesse nacional, no bem comum, a que as vontades quer das pessoas quer dos grupos, se devem subordinar. E sempre por ele foi proclamado que o interesse nacional, o bem comum, não era um simples agregado de bens singulares, fossem eles dos indivíduos ou das instituições ou dos indivíduos e das instituições mesclados.
Maurras ensinava que «L'association est autre chose que l'addition des associés» (Politique réligieuse, 3ª ed., p. 222). E o prof. Marcello Caetano, que não pode passar por um extremista, mesmo nas suas fases de estadonovismo mais intenso e ortodoxo, escrevia, com naturalidade, no volume “O Sistema Corporativo”, como se se tratasse de coisa ultra conhecida: “Desde que a nação é uma sociedade distinta das sociedades secundárias que a constituem, o interesse nacional não é a soma dos interesses corporativos como não é a soma dos interesses individuais” (O Sistema Corporativo, p. 51).
É claro que se pode (com ou sem razão) discordar destes pontos de vista, e perfilhar teses diametralmente opostas e sustentar-se que a nação reduz-se aos cidadãos e aos corpos sociais adicionados; o que todavia se não pode fazer decentemente é baptizar essa concepção, mestiça de democracia individualista e democracia dita orgânica, de nacionalista, a menos que ao termo nacionalismo se dê o mais extravagante dos significados.
De qualquer modo, contudo, adopte-se ou não o conceito nacionalista da nação, o que se assemelha completamente insustentável é que se afirme que uma determinada nação é necessariamente democrática. Na perspectiva nacionalista, isso não passa de um absurdo, pois o destino superior da nação não deve depender dos caprichos de votos individuais ou grupais.
E da perspectiva não-nacionalista? Dessa perspectiva, não se vislumbra como é que a “vontade popular” é vinculada, por força, a um determinado regime ou sistema. Se se deseja respeitar semelhante vontade, é melhor aceitar o que ela, autonomamente, deliberar, em vez de decretar o que ela tem de ser. Por outro lado, que sentido tem de se declarar, como às vezes se faz, que a nação respeitará as instituições que a compõem? Talvez se se falasse na famosa vontade nacional indivíduo-grupalista, a declaração tivesse mais razoabilidade. Estaria a prescrever-se a tal vontade a proibição do suicídio, pela destruição daquilo que é em parte seu suporte.
Mas se se formular tal regra é porque a vontade em questão tem a possibilidade de se auto-aniquilar, sendo pois capaz dos maiores desvarios. E então justificar-se-á que a proclamem merecedora de respeito e acatamento?
É uma cláusula de estilo, hoje em dia, a asserção que a nação deve encarar o homem qual coisa sagrada. Talvez isso seja lógico, para os que a reduzem exactamente às pessoas e aqrupamentos. Depois de se pretender que lhe cumpre respeitar os seus grupos constitutivos, é lógico que se julgue que ela deve também respeitar intensamente o homem, que é o seu outro elemento de base. Como assenta neste e naqueles, que lhes tire o chapéu está bem, ainda que, ao que parece, a “vontade nacional”, possa cometer proezas perigosas a esse respeito, o que explica a necessidade de normas e prescrições.
Mas a nação entendida à maneira nacionalista terá igualmente de prosternar-se perante o homem? Reflictamos.
Não há na actualidade quem não fale, com prolixidade e abundância, na dignidade do homem. Ora que se entende por dignidade do homem? É indiscutível que, para o católico, o homem tem um fim último que transcende a comunidade política. Só que esse fim não confere ao homem nenhuma dignidade especial, porque ele pode desrespeitá-lo e repeli-lo. Dignidade apenas só pode haver na maneira como se procede, e em semelhante conjuntura mais do que dignidade do homem ela é dignidade de certos homens – dos homens honestos – ou seja, passe o paradoxo, é dignidade dos homens dignos.
E para quê falar, então, na dignidade do homem em geral como se a possuíssem os judas, os traidores, os hipócritas, os pseudo-portugueses sem fé nem lei?
Virão a tê-la, se se arrependerem? Com certeza! Mas a potência não se confunde com o acto, e poder vir a ser algo, se se quiser, não é o mesmo que sê-lo já, porque sem o querer mudar de rumo, já não vem a ser nada.
O homem não possui outra dignidade que não seja a de cumprir os seus deveres para com a sociedade em que nasceu e para com Deus. E, se assim for, a que título irá a nação respeitar uma dignidade, inexistente em si, e que só toma corpo, passando, exactamente, pela devoção à pátria e desta é indissociável?
Em nossa opinião, em nenhum caso, o homem é um fim em si porque tem o poder de destruir-se e como admitir que um fim em si possa auto-destruir-se, isto é, desejar suprimir o que por hipótese é bom?
O homem tem fins (não é um fim) uns mais valiosos do que outros, e é realizando-os que ele vale alguma coisa, como é negando-os que merece ser punido às vezes até com a danação eterna. Mas se isto é verdade - e é-o sem discussão - para quê se procede à apoteose frenética da pessoa humana, independentemente da sua conduta recta ou má?
A adoração do homem é uma característica da nossa desvairada idade. Mas seria excelente que a não cultivassem os que pretendem opor-se aos erros modernos e restabelecer as justas hierarquias.

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

Vitorial

Marcham todos juntos
(Que amor os irmana?)
Destruindo muros
Libertando espaços.

Vão para o futuro
Que os seus passos traçam
Ágeis e seguros
De alcançar os altos.

Cantam porque sonham,
Contra a fome e a náusea,
Uma pátria heróica
De espigas e espadas.

E a rapariga
Que lhes ouve o canto
Atira-lhes risos
De açucena branca.

E a mulher que aperta
O filho nos braços
Atira-lhes beijos
Da rosa dos lábios.

E a velha que reza
Rosários de esperança
Atira-lhes pétalas
Molhadas de lágrimas.

E o velho que fica?
E aquela criança?
Ele olha mais firme
e ela mais claro.

Que anda um sol fecundo
Reflorindo os campos,
Nascido na luta
Dos homens que marcham.

António Manuel Couto Viana

Segunda-feira, Dezembro 08, 2003

Dia da Mãe

Por vezes, os olhos de minha mãe abrem-se, devagarinho.
Baços, entre olheiras escuras e encovadas, janelas sombrias no rosto imóvel, amarelecido e sem vida, fitam-me em súbito reencontro.
A vida pára, e suspende-me nesse olhar, no silêncio sem fim.
Olho-a também. Tudo o mais se desvanece, num momento.
O corpo mirrado e hirto. Os tubos por onde a vida se escoa. O quarto. A cama. O odor a agonia e hospital.
O universo fica ali, inteiro, naquele olhar.
No fundo dos seus olhos doloridos e sem luz, uma leve chama se acende, num lampejo suave e mudo.
E de novo devagar se recolhem, adormecidos num torpor sem esperança - os olhos de minha mãe ....

Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, não nos importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca

FLORBELA ESPANCA

A poetisa tinha por nome completo FLORBELA D'ALMA DA CONCEIÇÃO LOBO ESPANCA. Em família era tratada pelo diminutivo de Bela.
Na sua vida tudo parece ligar-se ao dia 8 de Dezembro. Neste dia nasceu em 1894; neste dia casou pela primeira vez, civilmente, em 1913, e, neste dia (na noite de 7 para 8 de Dezembro), faleceu, em 1930, com 36 anos de idade.
Era filha de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo. João Maria era casado com Maria Toscano, mas, como deste casamento não houvesse filhos, estabeleceu uma relação com Antónia e dessa relação nasceram dois filhos: Florbela e Apeles. Mas cedo a mãe de Florbela trocou João Espanca por outro homem, vindo viver para Évora. Os dois filhos ficaram com o pai e com a mulher deste, Maria Toscano, que se transforma em mãe adoptiva.
Ao atingir a idade escolar, Florbela frequenta o colégio de Dona Ana Leocádia, em Vila Viçosa. Ao concluir a 4ª classe, transita para a escola secundária do professor Romeu, que frequenta até concluir o 3º ano, o que acontece até 1907. No 4º ano vem para Évora para o Liceu André de Gouveia. Com ela vem toda a família que se instala na Rua de Avis, nº16.
Florbela foi das primeiras mulheres a frequentar o liceu eborense. Foi aluna do Liceu de Évora até 1912. Em 8 de Dezembro de 1913 - o dia dos seus 19 anos - casa-se civilmente com Alberto Moutinho, seu colega de liceu. O primeiro casamento fracassou, e segue-se um segundo casamento com António Guimarães, que teve a mesma sorte. Em Outubro de 1925, então com 31 anos, casa-se pela terceira vez, em Matosinhos, com Mário Lage. A sua relação com Mário Lage degrada-se também. Chegou ainda a ter uma ligação com Luís Maria Cabral, médico e pianista, mas que já não deu em casamento.
Afecto permanente e inalterável ao longo da vida foi o irmão, Apeles da Rocha Espanca. Este também frequentou o Liceu de Évora, onde anos mais tarde seria recordado por uma placa evocativa que ainda ali permanece, no átrio da entrada principal do edifício, agora Universidade. Em 6 de Junho de 1927, Apeles Espanca, piloto aviador, morre, quando o avião em que seguia se despenha nas águas do Tejo. A partir daí, o precário equilíbrio interior de Florbela ficou definitivamente comprometido. Nunca mais voltaria a recuperar.
Em Agosto de 1928, cerca de um ano depois da morte do irmão, Florbela Espanca tenta suicidar-se. Segue-se uma segunda tentativa de suicídio em Novembro de 1930. No dia 8 de Dezembro desse mesmo ano, no dia do seu aniversário (já o seu casamento se havia realizado nesse mesmo dia) foi encontrada morta no quarto em Matosinhos. Debaixo do colchão foram encontrados dois frascos de Veranol.

Varinas

Ó varina passa,
Passa tu primeiro!
Que és a flor da raça,
A mais séria graça
Do país inteiro.

Lisboa esquecida
Que é porto de mar
Sente a sua vida
Reconstituída
Pelo teu andar.

Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
Mas fica contente
De olhar para ti.

E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do mar.


Carlos Queirós

Domingo, Dezembro 07, 2003

O meu blogue

Hoje apetece-me falar, abrir a alma, com os leitores que imagino que terei. Sobre o meu blogue. Acredito que o meu blogue é um caso singular. Provavelmente os outros pensam o mesmo – mas pronto: é o que eu sinto. “Falo de mim. Só falo/daquilo que conheço./O resto calo, e esqueço”. Comecei por um impulso momentâneo e solitário. Divagava distraído pela net e encontrei um blogue com a assinatura e a escrita de alguém que conheço e estimo. Como quem encontra à esquina um amigo que há muitos anos não via. E assim nasceu: pareceu-me simples e fácil – porque não eu, aqui dos longes do exílio para onde a vida me atirou.
Começou assim, o vício, e depois seguiu. Entranhou-se, como um vício. Nunca mais houve um dia em que não lhe prestasse o tributo. Estivesse onde estivesse, em computador próprio ou alheio, pessoal ou de serviço, a horas ou a desoras. E tudo o que aqui publico é meu; mesmo quando as palavras são dos outros, é de mim que falam. Porque não tenho tempo para mais produção original, recorro muito a textos alheios. É o que chamo os meus congelados, que tiro da arca quando quero dizer algo mas me falta de todo a possibilidade de o fazer por palavras minhas. Mas nem por isso o blogue é menos pessoal; na verdade, ele é estrita e rigorosamente pessoal. Comecei sem dizer a ninguém. Em casa ninguém faz ideia que eu tenho um blogue. No trabalho muito menos. Como a vida social desde há muitos anos se restringe aos cumprimentos rituais com quem me cruzo entre casa e trabalho, percurso que faço a pé diariamente por quatro vezes, no meu já de si reduzido círculo habitual ninguém tem conhecimento de tal extravagância.
Um exercício inteiramente solitário, portanto.
Durante os quatro meses que já se completaram sobre esse início, houve quatro ou cinco pessoas que embora distantes acabaram por reconhecer o bloguista – que ainda tinham presente, de tempos remotos. E houve entretanto mais três ou quatro que travaram conhecimento virtual com o mesmo, e desde aí são fiéis e constantes apoiantes da empresa – pese embora não poderem reconhecer o autor, se o virem na rua.
Assim se resume o feedback disponível. Um punhado de gente que se conta pelos dedos, fisicamente separada do escriba por centenas de quilómetros e/ou por muitos anos de afastamento, mas que por generosidade e humana simpatia toma posições de encorajamento e apreço, mesmo quando discorda.
Mas, e os outros? Muitas vezes, em frente do teclado e do écran, pergunto a mim mesmo quem serão os outros. Os que não conheço, nem deste convívio virtual, porque não os posso ver, nem com certeza sentir se estão algures noutro terminal da rede, nem nunca se deram a conhecer.
De acordo com o blogómetro, o número de visitantes do meu blogue, em cada dia, ronda em média os cento e cinquenta (os visitantes reais, não os clics, evidentemente). Quem serão? O que os traz aqui? Serão novos? Serão velhos? Homens? Mulheres? Corações de esperança? Vencidos da vida? Vêm ao engano? Vieram por gosto? Por simpatia? Por aversão? Nunca saberei.
Quero todavia dizer a todos, sejam quais forem as suas pessoalíssimas circunstâncias, que lhes agradeço o que me dão. Esta teia difusa de cumplicidade distante que se entretece entre quem está deste lado e quem do outro está, e que afinal reconforta e aconchega, como lareira no Inverno.

A UM MENINO JESUS

Num convento solitário
de Évora, cidade clara,
claro celeiro de pão,
existe uma imagem rara,
obra dum imaginário
dos tempos que já lá vão ...

É um Menino Jesus,
de bochechinha brunida
cor de maçã camoesa,
mas no seu rosto trasluz
uma expressão dolorida
que enche a gente de tristeza ...

De tantíssimas imagens
nenhuma vi que mais prenda,
que maior ternura expanda,
com suas calças de renda,
seu vestido de ramagens,
e coroa posta à banda ...

Gordo, nédio, bem trajado,
deveria ser feliz;
deveria estar sorrindo;
mas o seu olhar magoado,
tão magoado, tão lindo,
que não o é, bem no diz ...

Se não fosse por ser Deus
e o seu poder infinito
ter sempre que o demonstrar
cá na terra e lá nos Céus,
estenderia o beicito
e desataria a chorar!...

Corre o tempo descuidado,
passa uma hora, outra hora,
atrás desta outras se vão.
E quem o vê, encantado,
sem se poder ir embora
numa perpétua atracção ...

Eu entrei com o Sol a pino.
Pouco depois da chegada
(pouco a mim me pareceu)
deixei de ver o Menino ...
Não era a vista cansada,
foi a noite que desceu ...

Mesmo assim lá ficaria
absorto em muda prece
de quem mal sabe rezar,
se o sacristão não viesse,
com rodas de Senhoria,
dizer-me que ia fechar ...

Pudesse tê-lo trazido
e não fosse eu rico apenas
de fantasia, de esp’ranças,
punha-o num nicho florido
por sobre as camas pequenas
dum hospital de crianças ...

Dum hospitalar modelar
sustentado por meus bens,
entre olaias e roseiras,
cheio de sol, cheio de ar,
e em que as boas enfermeiras,
seriam as próprias mães ...

A mais ampla enfermaria
Desse escolhido local
De bondade e sofrimento
era o fundo natural
da funda melancolia
do Menino do convento ...


Augusto Gil

Desde os meus onze ou doze anos (sim, fui sempre muito precoce) me interrogava sobre qual a imagem que teria inspirado ao autor da “Balada da Neve” estas sextilhas de enternecido lirismo. E qual o local onde a teria admirado. Em Évora, num convento? Mas onde? Fui indagando, e meditando.
Curiosamente, em Évora a devoção do Menino Jesus teve sempre larga expressão. A cidade foi marcada por notável abundância de imagens do Menino Jesus, e as mais celebradas encontravam-se em diversos conventos (o Dr. Carvalho Moniz propunha mesmo a designação de “cidade do Menino Jesus”).
Mas penso que não há lugar a muitas dúvidas: pela descrição, a imagem é precisamente a mais famosa e popular (antigamente ...) das imagens do Menino Jesus veneradas em Évora.
Era o Menino Jesus do Convento de Santa Mónica, imagem conhecida desde o século XVI, e de tanta devoção que o convento ficou a ser chamado de Convento do Menino Jesus, e por Carreira do Menino Jesus ficou a ser designada a rua que conduz da Porta Nova até ao Convento (era a antiga Alcárcova dos Mouros).
Segundo os historiadores dessa casa de agostinhas, por intermédio dessa imagem se conseguiram “muitos mimos do céu”...
No meu tempo, no que resta do convento funcionava a Escola do Magistério Primário e ainda as anexas escolas primárias, com entrada pelo Largo de São Mamede, junto à Igreja de São Mamede. Ali este vosso amigo frequentou e completou a instrução primária, fazendo solene exame da 4º classe perante um júri composto por três excelentes senhoras que recorda com saudade. Nesse tempo isso era a sério!
A imagem em causa está há muito na Sé Catedral, e ali deve ter sido observada pelo poeta – não no convento, que estava já profanado na época de Augusto Gil. A localização espacial resultou de liberdade poética.
De acordo com a tradição, a imagem teria sido trazida para a Sé Catedral pelo meirinho, conhecido pelo Tomás da Sé, que na confusão que se seguiu à extinção dos conventos, e para evitar a esta o destino que tantas outras sofreram, conseguiu alcançar a imagem, escondê-la debaixo do capote e trazê-la até à sua Sé. Onde ficou e permanece.
Os eborenses é que esqueceram a antiga devoção.

Sábado, Dezembro 06, 2003

Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
No barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
Parece de brincadeira.
Pranta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Um menino solta um grito;
Assustou-se com o apito
Do barquinho da carreira.

Todo ancho tremelica
Como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
E oscila de borda a borda.


António Gedeão

A francesia


Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.

- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.

- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam…
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda…


António Dinis da Cruz e Silva (do poema herói-cómico “O Hissope”)

Leia-se com toda a atenção, e veja-se como, substituindo “francesia” por “inglesia” ou "americanice", poderiam os versos ter sido escritos agora, e não há 250 anos...

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano

Domingos: às 11 horas, no Priorado São Pio X,
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III), em Lisboa
Segunda-Feira a Sábado: às 19 horas, no mesmo local

Neste Domingo 7 de Dezembro: também em Fátima, às 11.30 , na Casa do Menino Jesus de Praga
Rua da Imaculada Conceição, n.º 8, Bairro Moita Redonda

Sexta-feira, Dezembro 05, 2003

Selecta literária

Não sei se os meus leitores, os que têm idade para isso, se recordam de um episódio famoso, que ficou conhecido como o caso do piratinha do ar, um rapaz de 16 anos que então desviou um avião da TAP para Madrid, e que ali acabou por desistir do feito, após conversações com o nosso embaixador em Espanha, João de Sá Coutinho, Conde de Aurora (isto foi em 1980...); na altura a imprensa transformou em vedeta do momento o dito piratinha, que teve assim a sua hora de glória. Por esse tempo era o meu saudoso Manuel Maria Múrias o recluso n.º 257 da Cadeia Central do Linhó, e como tal lia e escrevia como nunca.
O episódio do piratinha do ar e a sua própria experiência do momento inspiraram-lhe esta saborosa crónica. Os restantes personagens, o “Toyota” e o Palma Inácio, são ambos reais, embora só um deles seja certamente conhecido de Vocelências.
Nota-se ainda no texto um lapso, “lapsus calami”, quando se fala numa pistola “Walter Ventura”... é lapso, inexplicável - evidentemente.
Afixo essa crónica, deliciado e divertido – ando eu por aqui a exaltar as virtualidades da madre língua portuguesa, e tenho na mão um naco de prosa destes!
Ora leiam e releiam – quem é que escreve assim na imprensa que temos?

O “Toyota”, o menino Rui e o Palma Inácio

Os leitores não conhecem o "Toyota”.
O “Toyota” é um pobre ratoneiro meu amigo, que foi preso aos dezasseis anos e um minuto por roubar bicicletas e garrafas de "Whiskhy"... Trouxe uma recomendação de seis anos para habitar a Penitenciária... Quando veio de cana, nem sequer o "Diário de Lisboa" lhe dedicou três linhas... Gandulo desimportante, o "Toyota" é, já agora, um daqueles perigosos cadastrados de que falam os jornais quando gravemente peroram sobre o surto da criminalidade. De vez em quando, sopra-me no óculo da cela e crava-me um cigarrinho. Dou-lho porque sou otário - e porque, na verdade, o "Toyota" não me é antipático, cabelo rapado à escovinha, uma funda cicatriz no sobrolho, a testa mesmo por cima do nariz, a beiçola grossa, o casaco de serrubeco, os passos miúdos, rápidos e arrastados - um assustador ar de criança que me escalafria os ossos.
Alto moinante, o "Toyota" desde os dois anos que se tresnoita de casa - porque não tem casa. Saltava os quintais, dormia em caixotes - e, por virtudes de não sei qual esquadra da policia, desde pequeno que passava as noites de Natal encanado, sopa quente, um bocado de pão, tarimba para dormir sem frio, uma manta, presentes do Menino Jesus caridosamente fabricados pela PSP, gondolinas e calcantes novos, a barriga cheia - e a manhã seguinte outra vez por esse mundo, sem problemas familiares.
Não fez o propedêutico, porque lhe frustraram a carreira deixando-o sem quaisquer letras. Não sabe o que é um OVNI. Desgraçadamente para a sua cultura geral, e tal como eu, nunca ouviu falar no Joe Jackson e na “new--wave”. Ratoneiro pobre, passeia-se por essas alas sempre metido em caldinhos, um lagarto enorme arrimado ao braço, os olhos vivíssimos sorrindo malandrices. De tempos a tempos, lá abicha uma goela. O seu quotidiano, todavia, é igual ao de todos: a cadeia cinzenta e triste, a alacridade viscosa da violência contida, as brutalíssimas brincadeiras, usuais nos colégios internos, nas casernas e nas prisões, este amigo dele que lhe não pode valer - o contrário do menino Rui.
Os leitores conhecem o menino Rui.
O menino Rui com dezasseis anos palmou um “Boeing 727” dos Transportes Aéreos Portugueses. Depois de conversado muito bem conversadinho pelo sr. Conde de Aurora - devolveu-o. Tem o ar lavado e inteligente dos chavalos modernos. Sabe rigorosamente o que é um OVNI, objecto voador não identificado. É calmo e estimado por familiares e amigos. Arrancou “manchettes” de primeira página em quase todos os jornais do mundo. Mora no Feijó. Só se tresnoitou uma vez para martelar o “Boeing” com uma Walter Ventura 6,35 na mão, passada à fieira electrónica da segurança do aeroporto, que se ficou a berrar. Já falou na rádio. Gosta muito de engenhocas e tecnologia. Joga os “flippers” no Apollo 70, à Rua António Serpa, mesmo ao lado do PC. Tem uma miúda no Terminal. Frequentou o propedêutico. Como é bom ser pequenino, ter pai, ter mãe, ter avós. Nada lhe falta. É criado com todo o carinho. É um filho exemplar... O contrário do “Toyota” e muito diferente do sr. Palma Inácio, herói nacional, valoroso combatente antifascista, banqueiro privativo do sr. Mário Soares.
Os leitores conhecem o sr. Palma Inácio.
O sr. Palma Inácio foi o primeiro homem que palmou um avião da TAP. Para maior glória da liberdade e da democracia, o sr. Palma Inácio também ajudou a martelar um transatlântico. Matou um homem. Depois assaltou um banco. Depois (depois da gloriosa revolução dos cravos) esteve ao serviço da heróico comandante Xavier, interrogando presos no Forte de Caxias, de madrugada, às ordens do COPCON, com a ajuda do sr. Rodrigo de Carvalho, membro do Comité Central do Partido Comunista. Fuma cachimbo e enche-o de “Revelation". Veste-se no “Pestana e Brito”. Conduz automóveis caros. Triunfou na vida. Os grandes da nossa classe política revêem-se nele. A grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andersen Sousa Tavares apertou-lhe a mão orgulhosamente à saída da prisão, naquela crepuscular tarde portuguesa em que todos fomos libertados, os pretos e os brancos, os Toyotas e os Ruis, os meus filhos e os meus netos, a Igreja e o Exército, Portugal e o futuro...
Que grande exemplo! O "Toyota" está por aqui e vibra nervosamente, ouvindo ao longe o escape dos “aceleras", partindo para os rallys... O menino Rui dorme a chorar na Rua Joaquim Bonifácio, aos cuidados da Judite. O sr. Palma Inácio ronrona com a consciência tranquila num luxuoso palacete da Rua Alexandre Herculano, palmado ao Jorge de Brito.
O sr. Palma Inácio, mais voto, menos voto, há-de chegar a ministro: - Palma Inácio veio para roubar. O menino Rui, se tiver juízo, depois das declarações do Eng. Martins, ainda tem possibilidades de ser comandante da TAP: - o menino Rui veio para trepar. 0 "Toyota” se continuar assim, os passinhos miúdos, os olhos de rato, o blaser de surrubeco, acabará faxina numa cadeia, dado como inimputável: - o “Toyota” veio para ficar.
Pobre “Toyota” e pobre Rui! Glorioso e exemplar Palma Inácio, honra de democracia e ídolo dos Toyotas e dos Ruis!
Quem tinha razão era o Pe. António Vieira:
- O roubar pouco é culpa; o roubar muito é grandeza...

M.M.M.

lamento para a língua portuguesa


não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.


Vasco Graça Moura

Noções de Linguística

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguês daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.

Jorge de Sena

Quinta-feira, Dezembro 04, 2003

Podem bater à vontade!

E pronto!
Uma das críticas que repetidamente me dirigiram foi a ausência de um sistema de comentários no blogue. Depois de muito matutar, resolvi demonstrar a minha abertura e sensibilidade perante a opinião pública.
Realmente, não há tasca onde não se encontre ao menos uma toalha de papel na parede para os clientes deixarem aos vindouros as impressões da visita.
E aí está: instalei um espaço onde podem desabafar, e escrever para que conste o que vai na alma, ou no coração , ou na cabeça, de cada um - conforme o órgão de onde vier o desabafo.
Assim, logo por baixo de cada entrada surge a região demarcada para as bocas da geral.
Sirvam-se!

DA POLÍTICA E DO PENSAMENTO

Não há acção coerente e estável que não seja iluminada por uma doutrina, como não há teoria, por mais neutra que pretenda ser, que não tenha uma projecção (ainda que meramente negativa) na prática.
Por isso mesmo, é que qualquer política tem, na sua base, uma concepção do mundo e sobretudo, do homem. Se a Esquerda, como muito bem sublinhou Vasco Pulido Valente, se caracteriza pela paixão da liberdade e da igualdade, é porque assenta numa ideia de homem optimista, directamente bebida em Pangloss. É claro que o homem deve ser livre, se for naturalmente bom, se o mal não lhe puder ser imputado, se tudo o que fizer se encontrar alheio às catástrofes e malfeitorias de que o universo está repleto (os culpados sendo a sociedade, o fascismo, a reacção, etc.). Pois como se compreenderia que fossem colocados obstáculos, peias, limites a um ente que é a bondade em pessoa? Como seria legítimo que o submetessem ao que quer que fosse, que o governassem, que sobre ele impendesse uma autoridade?
A anarquia é, assim, a meta lógica da ideologia da liberdade. E se o homem é naturalmente bom e o mal não lhe pode ser imputado, todos os actos humanos serão louváveis, sem discriminação. Nessa altura, serão também equivalentes entre si, isto é, por outras palavras, serão iguais. Mas, se todos os actos humanos são iguais, os sujeitos que os praticam sê-lo-ão da mesma forma, uma vez que se não pode distinguir entre os que agem com equilíbrio e seriedade e os que agem disparatada ou torpemente. Em suma, não há padrão valorativo que permita destrinçar os vários homens e submetê-los a um juízo axiológico. Não existe, portanto, coisa alguma que esteja acima deles e, da igualdade, exactamente como da liberdade, se deduz, sem hesitação, o anarquismo. Este é o cerne, a conclusão básica dos princípios da Esquerda.
Em contrapartida, uma concepção do homem que veja nele um ser imperfeito, imagem de Deus, sim, muito afastada, porém, do seu infinito modelo, dotado de um querer livre e falível, capaz de tanto realizar o bem como o mal, já não implica a idolatria da liberdade e da igualdade, antes conduz a ver nas tendências anarquistas um enorme absurdo. Se há ente que precisa de ser governado é o homem, muito mais do que as forças da natureza e os animais.
À liberdade do homem há que pôr todas as barreiras para que só se exerça no sentido do que é valioso, para que não ofenda os seus semelhantes e, em especial, não atente contra as normas superiores que do Absoluto derivam.
Autoridade é, portanto, um dogma fundamental, a condição necessária de toda a civilização, ainda que não seja condição suficiente. E quem diz autoridade diz submissão da liberdade ao que a controle e guie.
Por outro lado, se os homens não são o bem personificado, haverá sempre que distingui-los em função do seu comportamento e, até, das suas capacidades para, com maior ou menor eficiência, servirem os valores (o que não implica já uma apreciação moral e tão só uma apreciação exclusivamente técnica),
De qualquer modo, no lugar da igualdade aparece-nos uma outra exigência - a da hierarquia: hierarquia de méritos e hierarquia de competências. E quem diz hierarquia, diz sobreposição de poderes de grau em grau até ao poder mais alto. Em vez da anarquia, de novo nos surge o requisito da autoridade.
Simplesmente, um problema se levanta aqui. Autoridade, sim dir-se-á, autoridade que tenha por finalidade o estabelecimento e a garantia do que seja objectivamente válido, com plena independência do arbítrio dos homens; autoridade, enfim guardiã dos interesses da pátria concebida como um ser que engloba e ultrapassa os indivíduos e estes têm por obrigação categórica de respeitar. Tudo isso estaria óptimo e seria esplêndido. Só acontece que a autoridade unicamente pode ser exercida por homens e que se os homens são os homens imperfeitos e capazes de praticar o mal, como é que a autoridade lhes será confiada? Se no entanto não lhes for confiada não há afinal quem a exerça.
Mais ainda: como é que a autoridade, exercida por homens, conseguirá obviar aos defeitos deles, se são eles que a manejam?
A dificuldade, se é de monta, não a consideramos insuperável. Repare-se que, se os homens exercem a autoridade, não são a autoridade. As instituições podem enquadrá-los de tal maneira que eles, exclusivamente, ponham em acto um poder impessoal que não se identifique com os seus quereres subjectivos. Por certo que as instituições são criadas pelos homens, mas estes criam-nas superando-se a si próprios, vencendo a sua particularidade e as suas limitações. Já Maurras afirmava que "par l'institution l'homme s'éternise'. Com efeito, as instituições ficam, os homens passam. As instituições boas são assim a "eternização" do que o homem tem de bom. Nessa medida, e dada a sua perenidade, é-lhes possível transformar e objectivar as transitórias vontades dos homens que corporizem a soberania. A questão institucional é, assim, das decisivas. Impõe-se fomentar as instituições em que a autoridade se aproprie dos homens que a executem e não estes se apropriem da autoridade para os seus projectos privados.
É óbvio que esta solução assenta na tese que aos homens é possível superar-se e erguer algo para além das suas individualidades passageiras. Para quem negue semelhante possibilidade, instituições não passam de palavras, de meros nomes a que não corresponde nenhuma espécie de realidade.
Há aqui uma divergência ontológica acerca das potencialidades humanas com repercussões políticas patentes, tal como têm repercussões políticas as divergências axiológicas acerca das relações entre o homem e o bem.
Resumindo: não há noção do Estado e da comunidade, que não assente numa Weltanschauung. E posto que uma Weltanschauung, quando racionalmente justificada e estruturada, é uma filosofia, supomos lícito sustentar que não há conceitos sólidos de governação e de sociedade que não necessitem de uma filosofia.

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO

Quarta-feira, Dezembro 03, 2003

Vesperal

Se eu te pintasse, posta na tardinha,
pintava-te num fundo cor de olaia,
na mão suspensa, nessa mão que é minha,
o lenço fino acompanhando a saia!

Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
em ar de infanta que perdeu a aia,
envolta numa luz que te acarinha,
na luz que desfalece e que desmaia!

Com teu encanto os dias me adamasques,
linda menina ingénua de Velásquez
a flutuar num mar de seda e renda.

Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho,
mas tão baixinho que só eu entenda.

Antonio Sardinha

PARA SEMPRE

Porque Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
como o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe na sua graça
É eternidade.
Porque Deus se lembra
- mistério profundo –
de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca.
Mãe ficará sempre
junto do seu filho
e ele velho embora,
será pequenino,
feito grão de milho.

Drumond de Andrade

O POÇO

Lembro-me de que havia um poço no quintalão de uma das velhas casas em que passei a minha infância. Era a um canto, onde os muros se uniam por fiapos de trepadeira.
O poço estava seco. No fundo tinha só o entulho de sucessivos outonos, a despejarem-lhe folhas caídas das árvores; e teria também algum lixo para lá deitado pelas criadas, quando lhes não aprazia ir até mais longe.
Tinham-me dito que aquilo era um poço, mas eu não acreditava. Os outros poços que eu conhecia de quintais vizinhos nunca deixavam de replicar com um chape-chape sonoro ou com um simples murmúrio às pedradas com que eu lhes alvejava a fundura. O poço do meu quintal, por mais pedras que eu lhe atirasse, ficava sempre mudo. Dos outros poços, mesmo dos mais soturnos, vinha sempre até mim o fresco bafo da água que escondiam. Do poço do meu quintal vinha apenas um seco cheiro a lixo. Pior do que a lixo - a nada.
Nunca soube se o poço estava realmente seco ou só entulhado. Entulhado de todo em todo não estaria; por mais longas e fortes bátegas em que se desfizessem as nuvens, não havia chuva que chegasse para o encher uma hora que fosse. Toda a água se escapava lá dentro, não sei para onde.
Quarenta e tantos anos passados, uma imagem que me persegue nas insónias, é de novo a do seco e estéril poço da minha infância. Isto acontece se por acaso me ponho a pensar naquilo em que se tornou o meu País, ou, mais exactamente, naquilo em que o tornaram desde um certo Abril. Quando me ponho a pensar em quantos inquéritos se abriram e se não concluíram, em quantos escândalos se revelaram e logo se abafaram, em quantos crimes têm ficado impunes, em quantos projectos regeneradores se prometeram, em quantos brados angustiosos se têm feito ouvir, clamando por melhores condições de vida, por mais justiça, por mais verdade e, sobretudo, por mais portugalidade - a imagem que me ocorre é sempre, inevitavelmente, a do seco e fundo poço do antigo quintal da minha infância, de onde nunca me chegou o som de um rumor de água nem o eco de resposta a nenhum dos meus berros de garoto.
E talvez o poço não estivesse perdido; nem de todo em todo seco. Talvez o poço estivesse, apenas, um pouco entulhado. Quem sabe?

0 RECORDADOR
(in A RUA, 22 de Maio de 1980)

Terça-feira, Dezembro 02, 2003

revolta contra o espírito crepuscular da poesia moderna

Quisera sacudir a letargia da nossa época e dar,
por sombras, formas de poder;
por sonhos, homens.

“É melhor sonhar do que agir?”
Ai! Não!
Ai! Não é, se sonhamos com grandes feitos, homens fortes,
corações ardentes, pensamentos poderosos.

Não! Quando sonhamos com pálidas flores
ou com lentos desfiles de horas que caem lânguidamente
como frutos maduros de árvores amarelas,
vivemos e morremos sonhos, não vida.
Grande Deus, dá-nos vida nos sonhos!
Não o refastelamento, sim a vida!
Sejamos homens que sonham,
e não cobardes, incompetentes, lacaios
do Tempo morto, dispostos a despertar, de novo, e aliviar
males inominados.

Grande Deus, se estamos condenados a ser sonhos, apenas,
deixa que os nossos sonhos façam tremer o mundo
e que, sonhando, sejamos donos do mundo.
Deixa que sejamos sombras que façam tremer o mundo
e que do mundo nos apoderemos, apesar de nos sabermos sombras.

Deus Todo-Poderoso, se os homens são como pálidos e enfermos espectros
que hão-de viver nestas névoas e doces penumbras
e tremem com a ameaça das horas sombrias
ou delas fogem com o passo rápido;
se esses teus filhos, ó grande Deus, criaram finezas tão efémeras,
peço-te que pegues no caos e que engendres
alguma nova linhagem titânica que amontoe as colinas
e anime, outra vez, a terra.

EZRA POUND (tradução de Goulart Nogueira)

Lamentável sabujice

Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.
Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo...
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos - isto é: o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o Verbo - apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos, esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito, porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracterística e neutra que lhes permita serem indiferentemente adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles corpos de pobre, de que tão tristemente fala o povo, que cabem bem na roupa de toda a gente.
Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio - o Vocábulo. Ora isto é uma abdicação da dignidade nacional.
Não, minha Senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! ...


Eça de Queiroz ( "A Correspondência de Fradique Mendes", 2ª. ed. Porto, 1902. pág. 142)

Segunda-feira, Dezembro 01, 2003

Brasil

Fosse eu pintor ou músico
(Pobre de sons, embora! Pálido de cor, que importa!)
Sempre haveria alguém que me entendesse
Em qualquer canto incógnito do Mundo.
Sempre haveria alguém que me dissesse:
- Músico, vem! Entra, pintor! – e abrir-me-ia a porta.

Mas da palavra eu fiz a minha ferramenta.
Sim, da palavra, como os loucos.
E quanto sinto e penso unicamente o digo em português,
Quase em silêncio, porque somos poucos.
Quase em família. E só por uma vez

Brasil, que bom saber
Que tu também, se por acaso, entre o rumor do mar,
A minha voz escutas, poderás dizer:
- Compreendi-te, irmão. Torna a falar.

Cabral do Nascimento

Em louvor e memória de Afonso Lopes Vieira

PINHAL DO REI

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Em louvor e memória de Afonso Lopes Vieira

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Lianor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
- olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
- E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, - oiço a grita
da rude gente aflita:
- Senhor Deus, misericórdia!
- Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
- Senhor Deus, misericórdia!
- Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
- flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veio
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Afonso Lopes Vieira

Domingo, Novembro 30, 2003

Mário Beirão

Neste Domingo que antecede o 1º de Dezembro, lembrei-me de Mário Beirão. Lembrei-me de outros primeiros de Dezembro em que saíamos pelas ruas da cidade cantando versos de Mário Beirão.
Foi esse o pecado de Mário Beirão, o pecado sem perdão que o condena para sempre à maldição e ao esquecimento – escrever aqueles versos ... Poucos poetas terão pago tão alto preço pr um poema!
Em Beja, onde ele nasceu e que ele amou, venera-se o saramago, rasteira erva daninha que traiçoeira se enrola no caule do trigo, com as suas pequenas folhas ásperas e furtivas flores brancas a ocultar o vermelho do ódio.
Não se lembra o poeta maior do Baixo Alentejo, que esse escreveu para a mocidade a sua marcha.
Mas que importa – se não for amanhã será depois de amanhã, alguém irá descobrir os livros escondidos. E das páginas de “O último Lusíada”, “Ausente”, “Lusitânia”, “Pastorais”, “A noite humana”, “Novas estrelas”, “Mar de Cristo”, “O pão da ceia”, “O oiro e a cinza”, sairá vibrante o cântico que ele sonhou.
E pelas ruas das cidades soará a melodia que proclama “lá vamos, que o sonho é lindo,/ torres e torres erguendo,/ rasgões, clareiras, abrindo,/ alvas de luz imortal” ...
Hoje, em homenagem à sua terra, fica aqui um poema de Mário Beirão dedicado aos cantadores do Baixo Alentejo.

MODA ALENTEJANA
(Para os cantadores de Montes Velhos)

A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados...

Ó meus olhos, ó meus olhos,
- Noite e dia - que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!

Na ribeira do Xacafre,
Uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do mundo!

Aldeia de Montes Velhos,
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!

Aldeia de Montes Velhos
És sempre luz de Alvorada
És sempre rosa de altar
Da chama de uma queimada!

Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento suão,
Lá, na Charneca das Naves,
- Mar alto da Solidão!

A OLIVEIRA

"Naquele tempo - já não sei se na quarta classe da Instrução Primária se no primeiro ano do Liceu - todos nós aprendíamos a ter amor às arvores; a isso nos incitavam aqueles belíssimos versos de António Correia de Oliveira, que se incluíam nas selectas escolares e que assim começavam: "Ouve, meu filho: cheio de carinho,/Ama as árvores, ama” ...
Nas imediações das escolas e dos liceus não havia pois outro perigo moral que não fosse o tal jogo do “negus”; - em vez de traficantes de droga e de literatura “porno”, a clientela comercial que nos assediava era exclusivamente constituída por vendedores de gulodices, principalmente de intragável torrão de alicante. Destacava-se entre eles uma velhinha pequena e frágil, que nos vendia tremoços, amendoins, pevides e, supremo requinte, duríssimas pinhoadas; era tão pequena que agigantava qualquer de nós, mesmo os mais franzinos; todavia, mais do que a sua pequenez, mais do que a brancura imaculada dos seus bandós, mais do que o luzidio negrume das suas roupas de antiquíssima viúva, o que impressionava naquela figurinha era a espantosa vivacidade com que se movia, não obstante o peso dos cestos que a ajoujavam; era a sua extraordinária vitalidade.
Já em outro tempo - naquele em que se começa a ter ideias sobre a vida, as coisas e as pessoas - tomei conhecimento com o Largo da Oliveirinha e com a árvore que lhe dera o nome. O Largo era e é a meio da Calçada da Glória, encostado ao muralhão de S Pedro de Alcântara; a árvore, naturalmente, era uma pequena oliveira, quase anã, com um tronco rugoso a atestar-lhe a velhice, mas ainda com meia dúzia de ramadas cobertas de folhagem miudinha e esguia, naquele verde baço inconfundível. Velhíssima, sem dúvida, mas cheia de seiva.
Por qualquer misteriosa associação de ideias, a pequena oliveira da Calçada da Glória lembrou-me logo, simultaneamente, os versos que me exortavam a amar as árvores e a respeitosa admiração que me causava, à saída da escola, a velhinha vendedora de colares de pinhões. Enquanto por ali tive que passar quase todos os dias, a pequena oliveira da Calçada da Glória tornou-se-me querida - mais do que isso: tornou-se-me como que imagem de devoção no livro de horas lisboetas que eu começara a viver.
Muitos anos depois, ao voltar a descer ou a subir a íngreme calçada, tive o desgosto de ver que da pequena oliveira não restava mais do que um cepo, a oferecer-se como assento a quem vinha cansada da escalada; ou secara definitivamente ou alguém a havia decepado e morto; de qualquer modo, a velha oliveira, que reunira em si a memória de um poema e de uma vendedeira de pinhões, deixara de existir...
Isso julgava eu. Tornei há dias a passar pelo sítio. O que era um cepo voltou a ser uma árvore - uma velha o!iveirinha de que irrompem de novo as ramadas de miúda e esguia folha verde-cinza. Desde há muito eu sabia serem as oliveiras árvores que duram séculos (há quem diga que algumas das que se veneram em Jerusalém foram contemporâneas de Cristo), mas não calculava que fossem capazes de tamanha resistência. A oliveirinha da Calçada da Glória já não vale só, para mim, por me manter ligado ao amor às árvores e a uma longínqua recordação de infância. Vale, sobretudo, como lição de esperança.

O Recordador"


O texto acima foi publicado a 29 de Maio de 1980, no semanário “A RUA”, na coluna “Do passado ao presente”, de Abel Tavares de Almeida. Republico-o hoje porque de repente me surgiu como uma magnífica alegoria para este dia 1º de Dezembro.
E já agora, se me permitem a confidência, juro que também eu naquele Inverno de 1979 e Primavera de 1980 tinha observado com tristeza como por ocasião de umas obras menores ali realizadas o pessoal camarário tinha desnecessariamente reduzido a oliveirinha que dava o nome ao largo a um triste tronco decepado; e depois, meses corridos, continuando a subir e a descer o elevador da Glória, com súbita alegria constatei que a pequena oliveira reverdecia e alevantava ramos ao céu, mostrando-se vigorosa à gente que passava. Como no poema de Mário Beirão, o velho tronco em flor estendia os ramos, vivos e viçosos.
Haverá quase vinte anos que não vejo a Calçada da Glória, nem o velho elevador amarelo, nem o Largo da Oliveirinha. Não sei se a oliveira ainda lá está, ou se teve sumiço, vítima dalguma empreitada requalificadora.
Mas nunca mais esqueci a lição de vida e de esperança, como o Abel Tavares de Almeida.

1º de Dezembro

O Grupo dos Amigos de Olivença participará, como habitualmente, nas Cerimónias Oficiais do 1.º de Dezembro, em Lisboa (Praça dos Restauradores), às 16:00 horas.
A concentração será feita na sede, Casa do Alentejo, às 15:30 horas, de onde seguirá em comitiva para a Praça dos Restauradores.
Para que a Causa de Olivença tenha uma presença significativa, pujante e visível, é necessário que os sócios e apoiantes do GAO marquem presença no acto.
Olivença É Terra Portuguesa!

Sábado, Novembro 29, 2003

OS VENCIDOS DO CATOLICISMO

Simpatizo muito com João Bénard da Costa. É um homem culto, inteligente – e escreve bem, muito bem, o que nos tempos que correm é recomendação maior.
João Bénard é evidentemente de uma geração que coincide no tempo com a do meu pai, não tendo por isso comigo qualquer paralelismo de percurso, nem no aspecto temporal.
E os seus caminhos, como é notório, conduziram-no em direcções que não são as minhas.
Mas a sua geração interessa-me, desde logo pelo conjunto de talentos que reunia, e depois pelo itinerário pessoal e de grupo que os marcou.
Eles são os homens do catolicismo empenhado, numa primeira fase, de seguida são os intelectuais do progressismo católico, finalmente acabam praticamente todos como ex-católicos ...
Deixaram largo rasto, bastando lembrar Nuno Bragança, Ruy Belo, Nuno Teotónio Pereira, a “Moraes Editores”, “O Tempo e o Modo” ... a ligação a António Alçada Baptista, que também teve evolução pessoal semelhante.
A experiência mais marcante da vida mental e espiritual desta gente foi claramente a sua luta pela Fé, e a desistência dela.
Isso mesmo explicou Bénard da Costa numa sequência de textos que publicou no “Independente”, e que constituem um sincero e comovente relato desse itinerário pessoal e de grupo. Colocou-se então o autor sob a invocação de um poema de Ruy Belo, encarado como fiel retrato de uma geração perdida e desorientada, que aqui quero deixar como o depoimento deste, o poeta representativo do grupo.
Curiosamente, nesses textos memorialistas João Bénard pareceu-me deixar um desafio a D. António dos Reis Rodrigues, a quem os seus desde muito novos se habituaram a tratar apenas por “Sr. Dr.”, para que se explicasse, e os explicasse – a eles, que em tempos remotos tinham sido os meninos do sr. Bispo.
E tempos depois apareceu nas livrarias um livro de memórias do velho D. António dos Reis Rodrigues, que apesar da curiosidade ainda não tive oportunidade de ler. Não sei se em algum ponto responde às interrogações presentes no espírito de João Bénard.
Fica aqui o poema de Ruy Belo que João Bénard da Costa chamava implicitamente como também seu, e que é afinal de toda a geração dele – como homenagem minha, embora triste, aos “vencidos do catolicismo”.

NÓS OS VENCIDOS DO CATOLICISMO

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
“Meu deus meu deus porque me abandonaste?”


Ruy Belo

Hino da Restauração

Portugueses, celebremos
O dia da Redenção.
Em que valentes Guerreiros
Nos deram, livre, a Nação.

A Fé dos Campos d’Ourique,
Coragem deu, e Valor,
aos Famosos de Quarenta,
que lutaram com Ardor.

P’rá frente! P’rá frente!
Repetir saberemos
As proezas portuguesas.

Avante! Avante!
É a voz que soará triunfal.
Vá avante, Mocidade de Portugal!

1º de Dezembro

No próximo dia 1 de Dezembro a Sociedade Histórica da Independência de Portugal promove em Lisboa as habituais cerimónias comemorativas da Independência de Portugal.
Pelas 16h00, concentração de homenagem aos heróis da Restauração junto ao Monumento dos Restauradores.
Pelas 18h00, missa solene de acção de graças na Igreja Paroquial de São Nicolau, na Baixa.
A direcção da S.H.I.P. conta com a participação de todos os sócios e amigos nas referidas iniciativas.

Quem faz injúria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.


Camões, Os Lusíadas, X, 58

Missas de rito tradicional latino-gregoriano

Domingos: às 11 horas.
Segunda-Feira a Sábado: às 19 horas.
Sempre no Priorado São Pio X, na Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III), em Lisboa

AZINHAL ABELHO

Joaquim Azinhal Abelho nasceu em Orada, Borba, em 1916, e veio a falecer em Lisboa em 1979.
Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa.
Dirigiu o jornal de poesia popular “A Voz de Portugal” e foi um dos fundadores da revista “Mensagem”.
Publicou os seguintes volumes de poesia: “Solidão, ai dão, ai dão”; “Confidências de um Rapaz Provinciano” (com o qual ganhou em 1936 o Prémio Antero de Quental, do extinto Secretariado Nacional de Informação); “Epopeia Vulgar”; “Victorial”; “Canto Chão”; “7 Ex-Votos a Nossa Senhora”; “ABECEdário de Lisboa”; “Domingo Ilustrado”; “Eu Fui Guadiana Abaixo” e “Os Anjos Cantam o Fado”. Organizou e publicou ainda as antologias “Cancioneiro do Natal Português” e “Cancioneiro do Vinho de Portugal”.
Foi também um homem do teatro, quer do teatro erudito, a que se dedicou em Lisboa, chegando a dirigir companhia própria, quer do teatro popular tradicional, deixando obra de inestimável valor com a sua recolha “Teatro Popular Português”.
Também muito conhecido durante anos pela sua ligação às festas populares de Lisboa.
Já agora, para os eborenses que disso se lembram, também responsável pelos famosos cortejos históricos e etnográficos que durante anos animaram as nossas festas de São João. E para os estremocenses com boa memória, também foi ele importante estudioso e divulgador da tradição da barrística de Estremoz.
Dedicou parte importante da sua obra à evocação da sua terra; tem hoje um centro cultural com o seu nome em Nossa Senhora de Orada, sua aldeia natal (homenageada no livro “Os da Orada”).
Importante vulto da cultura portuguesa e alentejana do século XX, foi um exemplo vivo de um intelectual multifacetado, activo e interveniente no seu tempo, ao mesmo tempo erudito e popular, sempre tradicionalista e fiel às raízes.

FADO CRAVO

Em fala amena e discreta
Pediram a um poeta
Para definir a saudade...
Estavam à beira do Tejo,
Reflectia-se no rio
A luz fraca da cidade.

Aqueles três companheiros
Ficaram silenciosos
À espera duma resposta.
Disse o poeta, escrevendo:
Saudade - é amar sofrendo
O que findou e se gosta.

A noite parte-se em duas;
Ouvem-se os ecos tranquilos
Das águas em movimento;
E até das ruas desertas
Chega o mistério do silêncio
Terrível desse momento.

Ninguém mais disse uma fala
O guitarrista do grupo
Deu a resposta a tocar.
Caminharam altas horas
A sós, para que ninguém visse,
Que é feio um homem chorar.


Azinhal Abelho

Sexta-feira, Novembro 28, 2003

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Atenção retardatários! Aproxima-se o tradicional convívio do 1º de Dezembro!
A organização do jantar e da ceia exigem confirmação antecipada.
Vejam todas as informações no site dos Antigos Alunos, e aproveitem para se inscrever.

PERMANECER PARA CRIAR

Seja onde for que se manifeste qualquer maioria abdicando ou abandonando as atitudes e as ideias justas, nunca renegaremos os nossos princípios nem nos desviaremos das nossas convicções. Entendemos que o cumprimento do dever possui uma importância primordial e que é indispensável manter um testemunho inteiro da verdade. Desdenhamos do relativismo, tão corrente e crescente onde seria de estranhar que ele se instalasse. Recusamo-nos ao extraordinário acervo de contradições, de desnecessários e duvidosos realismos, de pressurosas adaptações.
Consideramos que certas posições representam uma forma de fatalismo, uma submissão a quanto nomeiam de irreversível (com extensões e funduras espantosas). Assim, praticam uma justificação de tudo aquilo e contribuem, afinal, para solidificar o que seria desejável que não se tivesse instalado e que seria meritório fazer todo o possível para abalar e - quem sabe? - derrubar. Por falta de intransigência, de constância, de acorrer aos postos de combate e aí permanecer, cada um de vários ou de muitos instaura um clima de deserção, de tibieza, de abastardamento; em vez de, pelo contrário, aumentar, intensificar e expandir a firmeza, a fé e o espirito de sacrifício. No meio da descrença geral, vão desaparecendo e renunciando os que deviam ser inamovíveis focos de resistência e luta.
Queremos apelar aos nacionalistas, para que reflictam e mergulhem bem no íntimo propulsor dos actos maiores. Quem se corrige pauta-se pela regra; quem se pauta pela regra regula-se; quem se regula torna-se semelhante ao rei e propriamente um rei.
Confessar um erro e emendar-se dele é nobre. Perseverar no erro é diabólico. Quando o espirito está afectado, a epidemia grassa: eis a porta aberta à morte e à possessão.
Em lugar do pequeno maquiavelismo, do jogo da alta-baixa política, preferimos a irredutibilidade dos que querem permanecer na honra, iguais a si mesmos e ao que os ultrapassa, ao que foi timbre e herança do passado e que cumpre transmitir ao futuro; como depositários, guardando as sementes e, na medida total das nossas capacidades, deitando-as à terra que laborarmos.
Afirmamos ainda que esta atitude de idealismo e de pretenso "irrealismo" tem uma função vital e decisiva na construção da realidade (que não se limita a mero dado), assumindo, pois, um carácter também realista.
Não nos remetemos à condição de resignados. Não nos curvamos ao jugo e à desculpa duma condenação. Acompanhando e confirmando a declaração de outros, não julgamos ser apenas os últimos de hoje; "afrontosamente", sustentamos ser os primeiros de amanhã.
As nossas recusas provêm do irrecusável, da aceitação de responsabilidades incómodas. As nossas rejeições traduzem um modo de assumir. Dizemos não, pelo imperativo sim a que estamos ligados. Não nos movemos no indiferentismo, nem com a interesseira prudência, nem por simples negativismo, mas sim na vivência da profunda afirmação.

GOULART NOGUEIRA

Mais papéis velhos

Tal como tinha prometido, vou continuar a transcrever, para proveito e exemplo, o que a briosa comissão ad hoc para investigação dos acontecimentos do 28 de Setembro de 1974 conseguiu apurar sobre as organizações reaccionárias da época. Do seu famoso relatório reproduzo o que diz respeito ao Partido do Progresso. Admire-se a perspicácia e a profundidade dos investigadores, e os crimes nefandos dos reaças.

9. Partido do Progresso/Movimento Federalista Português
A criação do Movimento Federalista Português deu-se logo após o 25 de Abril - e ainda nesse mês - por iniciativa do Professor Fernando Pacheco de Amorim e de outras pessoas.
Surgiu como conjugação de duas tendências ideológicas já existentes no regime fascista. Uma, tinha por base um grupo de militantes que vinham procurando refugiar-se na clandestinidade e que se auto-denominavam "Nacionalistas Revolucionários", actuando sob a capa legal da "Cooperativa Cidadela" (Porto e Coimbra); outra, constituída na sua maior parte por elementos com inclinações monárquicas. A linha-mestra que possibilitou essa união foi a defesa de uma solução federalista para o problema colonial. Para alguns dos seus fundadores, a mítica "evolução na continuidade" de Marcelo Caetano chegou mesmo a merecer, em tempos, a catalogação de "branda" e de "liberal".
A proliferação, contudo, de partidos de direita, desfazendo o sonho unitário que o Movimento Federalista acalentara, obrigou a que, em meados de Julho, se tivesse sentido a necessidade de o transformar em partido, com vista à luta eleitoral. Assim nasceu o Partido do Progresso.
Como dirigentes deste partido citamos, pela sua acção, Fernando Pacheco de Amorim, secretário-geral, Luís de Oliveira Dias, José Magalhães Valle de Figueiredo e Diogo Miranda Barbosa. Havia ainda outras figuras proeminentes no quadro da organização nacional, designadamente José Miguel de Alarcão Júdice, Luís Sá Cunha, José Augusto Carneiro da Costa Deitado e Joaquim Miguel Seabra Ferreira (director do "Tribuna Popular").
Neste periódico, "única voz da maioria silenciada", se repetiam um por um, todos os motes que pretendiam desacreditar a política seguida pelo Governo Provisório, nessa campanha orquestrada pela extrema-direita, visando a consecução dos seus intentos subvertores do espírito do 25 de Abril.
Por seu turno, um grupo de jovens que haveria de filiar-se no Partido do Progresso, constituiu no Porto um Comité Nacionalista de Acção Revolucionária (CNAR), que não passaria, afinal, de uma organização fantasma com o objectivo de, através de pinturas murais com frases ultra-reaccionárias e provocatórias, criar a ilusão da existência de uma organização clandestina da extrema-direita, forte e bem preparada, que desse alento aos saudosos do salazarismo. A inspiração para estas acções proveio e contou com o apoio de Fernando José Montenegro Sollari Allegro, o qual servia de meio para que a sede do Porto suportasse as despesas efectuadas pelo Comité.
De entre os factos relacionados com o Partido do Progresso, destacam-se, desde já, a contratação de um técnico de "marketing" político de nacionalidade americana (custou cerca de uma centena de contos a deslocação de Clifton White ao nosso País) e a existência nas suas instalações de uma longa lista de jornais a contactar e capazes de compensarem "em boa medida, o silêncio eventual da imprensa diária adversa" - seleccionados "por oferecerem maiores possibilidades de abertura ao ideário federalista e suas implicações", órgãos da imprensa regional cujo passado e presente dos seus responsáveis e escribas não deixa qualquer dúvida. E, para além de pormenorizados mapas do Instituto Geográfico e Cadastral que servem as Forças Armadas e nos quais se assinalavam indicações estratégicas, também vários livros foram sintomaticamente encontrados na sede deste partido - salientam-se: "Discursos de Salazar", "Livro Branco" de Pinochet, "Anti-Marx" de Pequito Rebelo.
A orientação política do Partido do Progresso não permite, pois, enganos a seu respeito - sendo mais um gravame a organização da sua "Comissão Operacional" que adiante será referida, em razão dos métodos e dos meios para ela preconizados.
Com base num estudo, encontrado nas suas instalações centrais, pode afirmar-se que o Movimento Federalista se considerava como gozando das simpatias dos meios militares afectos ao General Spínola e que dizia ter igualmente forte implantação no sector dos antigos combatentes, "bastante dispostos a aceitarem e a subscreverem um programa de defesa do Ultramar, de anticomunismo e de reformas sociais ousadas".
Finalmente, nesta breve caracterização do Partido do Progresso, note-se ainda que este teve diversos contactos e ligações com vários movimentos políticos fantoches surgidos nas colónias depois do 25 de Abril, tais como a "Associação Cívica Pró-Angola", a “ Frente Nacionalista Angolana", o "Movimento Federalista de Moçambique", a "Liga Popular dos Guinéus" e a "União Democrática de Cabo Verde".
Por outro lado, apurou-se que o Partido do Progresso mantinha relações com organizações fascistas estrangeiras, a saber: "Ordine Nuova", "Europe Action", "Giovane Nazione", com as quais Valle de Figueiredo, antigo aderente do movimento "Jovem Portugal" - organização da extrema-direita que actuava em Coimbra - se correspondia com frequência.


Uff!! Ainda bem que a revolução vigiava ...

A escola e a política

Penso que aquela corrente a que geralmente chamamos Esquerda ou Extrema-Esquerda, teve o mérito de ter sido a primeira a tomar consciência da realidade estrutural da inter-conexão de todos os sectores da mente e da actividade e, consequentemente, da realidade da impregnação ideológica destes sectores. A chamada Direita, pelo contrário, conservou-se durante bastante tempo prisioneira da ideia ilusória de que havia sectores “neutros” - ou (de um modo ligeiramente diferente) de que era possível voltar à situação anterior, na qual um consenso implícito era alcançável nestes sectores. Temos em França um bom exemplo dessa diferença de atitudes no campo da educação. Enquanto a extrema-esquerda se vai apossando de um importante número de posições-chave na educação secundária e universitária, a direita nada mais faz do que lastimar a “politização da escola”, que aparece de facto como irreversível (e que está hoje especialmente aberta ao criticismo porque é unilateral).
Aquilo que, no debate intelectual, fez a superioridade metodológica do esquerdista, foi ele ter sabido (e continuar a saber) o que cada um tem que pensar, do seu ponto de vista, em tópicos que são, à primeira vista tão diferentes como as relações de produção na Idade Média, a pintura abstracta, a invenção do cinema, o “Design” de “Mass Housing”, a genética molecular ou a teoria “Quantum” (ou pelo menos ele sabia que neste, como em qualquer outro tópico, a doutrina que ele tinha como sua, tinha uma palavra a dizer). A Direita pelo contrário não entendeu que não havia “verdades da ala direita” e “verdades da ala esquerda”, mas sim, caminhos de direita e de esquerda (para mais uma vez utilizar expressões convencionais) com o fim de calcular os factos admitidos, adquiridos pela mudança de conhecimento, organizando-os, colocando-os numa perspectiva particular que lhes dará igualmente um significado particular.
E é provavelmente a razão porque a esquerda e extrema-esquerda acertaram sempre mais sistematicamente na teorização, na formalização do seu “Approach” epistemológico e doutrinário, na criação de um corpus ideológico, útil para ser usado como referência em discussões posteriores.
Quer isto dizer que não há “ideologia da ala direita”? Claro que não. Mas em muitos casos, poderíamos afirmar que esta ideologia apenas existe por dentro, de uma maneira implícita. A direita ignora muitas vezes as suas potencialidades; muito raramente teve noção de todas as implicações das suas próprias aspirações. A sua “mensagem” está presente mas não explícita. Todo o trabalho, agora, consiste em trazê-la à superfície.

Alain de Benoist

Quinta-feira, Novembro 27, 2003

A PERSPECTIVA INTEGRAL

O homem nasce primeiro como um herdeiro. Ele não nasce em série, ele nasce dentro de um povo, dentro de uma cultura, dentro de uma dada era, e é desta particular posição em que está que ele será levado a emitir juízos de valor e juízos de facto; (é tão necessário aspirar à objectividade, como quanto teremos que nos resignar que sempre será impossível alcançar uma objectividade total. É impossível considerar “objectivamente” todos os aspectos de um problema, assim como o é olhar a terra de dois pólos ao mesmo tempo).
Nesta relação, as leis que governam as sociedades humanas não diferem muito das leis da microfísica: a posição do observador determina em parte o esboço da “paisagem” estudada.
O que é certo, por outro lado, é que as ideologias, isto é, os modos de ver e conceber o mundo, ainda quando não se associam como tal, não foram sempre conscientes de si próprias como o são hoje, numa era em que já foram grandemente acumuladas e formalizadas numa multidão de sistemas. Esta “súbita preocupação ideológica” é, obviamente, uma consequência directa ou indirecta da revolução de 1789. De facto, logo que o princípio de autoridade que naturalmente governava as sociedades da pré-revolução foi posto em dúvida na sua legitimidade e nos seus fundamentos, tudo o que antes “was going with saying”, tudo o que era espontaneamente considerado como posição integrante de uma “ordem natural”, apareceu como convenção, isto é, como uma criação humana subjectiva, e, em consequência, deparou-se com uma grande quantidade de facções político-ideológicas, pretendendo todas, sucessivamente, possuir uma “nova verdade” e procurando os meios de assegurar o poder para si próprias.
Paralelamente, desde que o Estado se colocou na posição de ser questionado pelas diversas facções, as quais estão aptas a uma tomada do poder de um dia para o outro (como é hoje sabido), vimos, enquanto todo um edifício de contra-poderes era levantado frente ao poder estabelecido, simultaneamente surgir toda uma multiplicação e expansão de pólos de pressão ideológica.

Alain de Benoist

Versos da Mão Esquerda

Em Portugal há e sempre houve muitos poetas desconhecidos. A maior parte deles são muito justamente desconhecidos – e sorte a deles em não serem mais conhecidos.
Há, porém, de quando em vez, descobertas singulares. Há poetas esdrúxulos (no sentido de casos originais, singulares, raros, fora da regra) que mereciam mais detida atenção e conhecimento.
Veja-se o caso poético deste que agora apresento em amostra.
José Jacinto Cutileiro nasceu em Évora no ano de 1911 e faleceu em Lisboa no ano de 1956. De sua formação académica doutorado em Medicina. Deixou apenas um livro publicado: “Versos da Mão Esquerda”.
Este o poema que deu nome ao livro.

VERSOS DA MÃO ESQUERDA

Saúdo aqui a mão
Com que estas linhas traço
Ossuda extremidade
Do meu sinistro braço.

Sinistro: contrário de dextro.
Dextro, em sentido corrente,
Que tem jeito, habilidade,
Que é capaz, inteligente.

Que sabe desempenhar-se
Das tarefas complicadas
A que a vida bem obriga
De maneira apropriada.

Sinistro, neste sentido
Corrente que mencionei,
Que é sombrio, propenso a crime.
Que não conhece outra lei

Senão a obcecação
Da sua própria vontade.
Ainda noutro sentido:
Desastre, calamidade.

Saúdo pois esta mão
Sinistra que, paciente,
Vai transportando ao papel
O que me passa na mente.

Por isso de ser sinistra,
Porém, é bem natural
Que dê sua preferência
Ao que chamamos de mal

Que se compraza traçando,
Em correcta ortografia,
Aquilo que só de noite
Ousa vir à luz do dia.

O filho que cada um
Recusa, à hora chegada,
Por ter sido mal nascido
De uma boda improvisada.

E, diligente e ossuda,
A mão sinistra e pequena;
Não por mal, mas por ser
Assim, sinistra e pequena

Sem qualquer consideração
Por todo o resto de mim,
Pela sua dextra irmã
Que nunca se porta assim,

Vai lançando no papel,
Aos olhos de quem quer ler,
Quanto eu sem ela decerto
Nem chegaria a saber.

Por isso a saúdo aqui.
Por essa sua coragem
Lhe presto, neste momento,
A mais rendida homenagem.

Mas porque sei que, sem ela,
Bem melhor vida teria
Apesar de a estimar tanto
Talvez a adextre um dia.


José Jacinto Cutileiro

O REGRESSO AO MISTÉRIO

Porém, também em outros campos do pensamento verdadeiramente vital se assiste a uma importante ruptura e renovação. Na Etnologia, na Filosofia, na literatura, na Metaciência, abre-se desde o princípio do século um novo espaço ontológico, um domínio do Ser e do Sagrado em que se reconhece, implícita ou explicitamente, a impotência da Razão. Surge outra vez a consciência dos limites da capacidade humana para conhecer e perceber. Se no período anterior o campo dos problemas invadiu o campo dos mistérios, hoje volta a Zona do Mistério para além da Zona do Problema.
Na Etnologia, Mircea Eliade procura as bases perdidas pela Antropologia, demasiado racionalista e positivista. Na Metaciência, René Guénon e Jullus Evola revêem os mitos, os fundamentos valorativos, revisitando o Sagrado e os altos valores da Tradição Humana. Na Filosofia Antropológica, Arnold Gehlen faz um exercício completo sobre a Cultura e a disciplina superadora, que assegura a manutenção da civilização. Contra o mito rousseauista não cessa de exigir um regresso à cultura., opondo-o ao reaccionário ensinamento que proclama o regresso à natureza como factor de redenção.
Na Filosofia, Max Scheller, Husserl, Heidegger, Jaspers, continuam a apontar uma linha de procura do absoluto e de superação da razão eficiente.
Na Psicologia, Jung, Jensen, Eysenck, Bertalanffy, voltam aos fundamentos biológicos (aos instintos) e extraem consequências da Genética contemporânea e da Etologia, todas fundamentais para a nossa mundovisão.
Pouco a pouco, todos os campos científicos se vêem afectados pela revolução silenciosa e pela necessidade de recorrer às novas descobertas para explicar e entender o Real.
Entretanto, o Deus Vivo, Aquele que é, que fora afastado pela ciência racionalista que tudo explicava pelas relações mecânicas e os modelos hidráulicos, entra novamente no campo do Saber pela mão dos grandes Físicos. O milagre, que tinha sido banido por decreto - tudo funcionava como um relógio sem necessidade de zelador - insinua-se hoje no plano dos quanta através da formulação de Werner Heisenberg, ou seja, através do indeterminismo básico de toda a construção universal. Grande é a liberdade das coisas materiais, que não estão acorrentadas às sábias doutrinas de causalidade fechada. Grande e sábio é o construtor de tão grande mistério, que na própria base tem o Mistério.
É talvez por isso que hoje em dia as mais belas páginas de espiritualidade se encontrem nos grandes físicos ocidentais que se revelam ao mesmo tempo como grandes crentes da Sua Sabedoria. Não assegurou Cristo aos judeus, que o perseguiam por ter curado ao sábado o paralítico, “Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho»? Esta operação contínua de conservação não pode encontrar melhores entendedores que os que trabalham na fronteira do indeterminado.
Esta onda renovadora que traz muito de ruptura, não pode deixar de ter consequências práticas, político-sociais, ou seja, encontrar formulação e concretização a nível do social. Os elementos superadores da Velha Mundovisão estão disponíveis num corpo de conhecimentos verdadeiramente revolucionários que fundamentarão uma nova visão do mundo, e da vida. E as novas linhas sociais, económicas, políticas, espirituais, demográficas, não podem colidir com o acervo científico acumulado por centenas de ignotos investigadores. Ao contrário, as teorias, as explicações, a prática, terão de ir ao encontro desse saber, procurando aí as respostas para ase suas perplexidades. Para a edificação de estruturas político-sociais estáveis, onde o homem reintegrado na sua herança natural e cultural, possa viver feliz.

António Marques Bessa (excerto de "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade")

A COSEDURA

Perfume em toda a casa. O pão divino
- No tabuleiro, após a cosedura,
- Entrou no monte e, fresco e matutino,
A malta ungiu com beijos de fartura.

O pão sagrado, o seu aroma fino,
Encheu de amor, de graça e de ternura
A casa inteira, a monte pequenino:
Um ninho branco a ressumar alvura...

Que aroma doce... O monte reproduz
A sua voz: o cântico doirado
Que o forno ergueu e as casas alumia.

Espalha-a brandamente... E a própria luz
Parece aroma a irradiar alado
O sol da vida: o pão de cada dia!...

CELESTINO DAVID

Quarta-feira, Novembro 26, 2003

REFLEXÃO SOBRE A ELITE

A desigualdade individual origina no plano social uma divisão entre fortes e fracos, já constatada por Duguit. Os fortes capturam os poderes sociais (político, ideológico, económico) e governam a maioria da população. É o fenómeno das elites dirigentes e dominantes, da hierarquia, que tão bem evidencia a análise da sociedade animal. A reflexão mais desapaixonada sobre esta matéria foi efectuada pela escola sociológica italiana, com Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Roberto Michels. Estes autores provaram a perenidade da minoria, a minoria poderosa, que impõe a sua vontade sobre a maioria dando-lhe a impressão de ser ela a decidir e a governar.
Analisando a sociedade e o homem tal como eles são, estes autores anteciparam-se de quase meio século às realidades científicas do nosso tempo. Identificaram correctamente os detentores do poder real e formularam as leis segundo as quais decorre a disputa da força. Identificaram igualmente as justificações mais ou menos elaboradas que a minoria criou para o seu poderio e chamaram-lhe fórmula política. Dizer que o poder lhe vem de Deus, ou do Povo, ou que é do autocrata a título de conquista, são tudo razões óptimas desde que operem e cumpram a sua função justificativa. Acontece que hoje as fórmulas políticas são as ideologias e nelas não há, como se viu, o menor grão de credibilidade. Está por nascer a fórmula política do nosso tempo, que reduza democracia e socialismo, social-democracia e marxismo, a meros trastes velhos da história da pulhice do homo sapiens.
Os autores que situam correctamente estes problemas numa análise neomaquiavelista são poucos. Todos ainda preferem as visões românticas e penetradas pela ideologia, justificativas em última análise do poder da minoria actuante ou da minoria que aspira ao poder. Contudo, com o desaparecimento desses grandes vultos do pensamento político, não é menos certo que ficaram certos autores que importa conhecer e que reflectem, na Teoria Política, a revolução intelectual a que se assiste noutros campos do saber. Carl Schmitt, o velho professor alemão, James Burnham, Wright Mills e Julien Freund, chegam para assegurar um exercício impecável em matéria de realismo político e transparência de concepção.
As minorias, portanto, longe de se confundirem com a multidão, são pela sua organização e coerência o único fermento social de mudança e poder. Só caem para ceder o lugar a outras, de modo que a História não passa de um velho e enorme cemitério de oligarquias. A lei de ferro da oligarquia, formulada por Michels, apenas se faz eco desta constatação empírica, tão desagradável aos doentes do igualitarismo acéfalo, fervorosos crentes no alibi da tábua rasa.

António Marques Bessa (excerto de "Ensaio sobre o Fim da Nossa Idade")

Estremoz: a Cozinha dos Ganhões

A XI edição da "Cozinha dos Ganhões", tradicional certame gastronómico organizado pela Câmara Municipal de Estremoz, inicia-se na próxima sexta feira e prolonga-se até domingo.
A novidade desta edição prende-se com o facto deste evento se realizar no pavilhão do novo Parque de Feiras e Exposições do concelho.
Nesta edição da "Cozinha dos Ganhões" vão estar presentes oito tasqueiros e cinco doceiras oriundos de algumas freguesias de Estremoz.
Ao longo dos três dias, os amantes da gastronomia alentejana podem deliciar-se nas tasquinhas. A marcar presença estarão também os vinhos alentejanos, com especial destaque para os produzidos em Estremoz.
A acompanhar a comida, a organização preparou ainda muita música, dança e poesia popular.
Ficam todos avisados: vindos do lado de Lisboa é à saída da auto-estrada, em Estremoz, nos dias 28, 29 e 30 de Novembro, no Pavilhão do Parque de Feiras de Estremoz.
E quem não couber pode sempre abancar no “Isaías”, ou no “São Rosas”.

Tuna Académica do Liceu de Évora

A Tuna Académica do Liceu de Évora, no âmbito dos tradicionais festejos académicos do 1° de Dezembro, e na impossibilidade de o fazer pessoal e individualmente, convida todos os interessados (professores, antigos professores, tunos, ex-tunos, alunos, ex-alunos, e simpatizantes) a participarem nos referidos festejos.
Formalmente, a Tuna comemora este ano o seu centésimo primeiro aniversário – de actividade contínua e ininterrupta devidamente documentada.
Saliento portanto que se trata da única instituição deste género no país que pode invocar para si uma tradição mais que centenária – nada tendo a ver com recentes e inventadas “tradições” com dez anos, inteiramente artificiais e desprovidas de história, frequentemente a caírem na grosseria, na boçalidade e no primitivismo das mentes que as inventam.
Haverá Baile de Gala, Serão Académico nas Escadinhas da Sé, Alvorada no dia 1º de Dezembro, Récita no Teatro Garcia de Resende, Jantar de Antigos Tunos, Ceia no Monte Alentejano, etc.
Para mais informações, ver os sites da Escola Secundária André de Gouveia e da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora.

Feira do Montado

A quarta edição da Feira do Montado arranca hoje em Portel, a pensar no futuro da economia local.
O Segundo Encontro da Cortiça está entre as principais novidades do certame, que decorre entre 26 de Novembro e 1 de Dezembro, com exposições, iniciativas e animações várias, visando constituir um fórum de debate, de discussão e de políticas na área do montado.
Convidam-se os lisboetas a ganhar o fim de semana, conhecendo Portel, Alqueva e o resto – nomeadamente a gastronomia, para variar do ritual semanal da comida de plástico e das mangedouras colectivas dos balcões corridos.
Com sorte até acabam o serão ouvindo o senhor Presidente da Câmara cantar – e que bem que ele canta, seja a tradição alentejana, seja uns fados de sabor clássico ou umas canções de Coimbra, acompanhados pelo caprichado tocar das guitarras.

Marx e Freud: dois sistemas envenenados

“Pode-se ser antimarxista e reconhecer o génio de Marx; pode-se ser anti-freudiano e continuar a reconhecer o génio de Freud. Os dois sistemas falharam inchando de exageros, de petições de princípio, de preconceitos camuflados e - observando bem de perto - de erros em muitos detalhes. E contudo, encarados no seu conjunto, estes sistemas, têm o efeito irresistível das mudanças de clima. Quando lanço um olhar aos dezoito volumes das obras completas de Freud, nas prateleiras da minha biblioteca, lembro-me por vezes, do aviso de Rembrandt aos visitantes do seu atelier, convidando-os a olhar para as suas telas de longe. “Não metam o nariz nos meus quadros, o cheiro da pintura envenenar-vos-ia” .
Poder-se-ia perguntar em que momento esse cheiro a pintura fresca se transformaria em veneno - em que momento Marx se torna marxista e Freud freudiano. Seria satisfatório desculpar o mestre e atribuir todas as culpas ao alunos. Marx não teria certamente aprovado os métodos de Staline e Freud ter-se-ia dificilmente responsabilizado pelos pesadelos iluminados de uma Mélanie Klein. Mas as sementes de tudo isto estavam já presentes no próprio mestre na sua tendência fatal de saltar do pressentimento e da hipótese à asserção dogmática, de brincar como um malabarista com os símbolos, de propagar uma mitologia pessoal na qual mistura o museu Grévin e o Panthéon grego."


Arthur Koestler, no prefácio de “La scolastique freudienne”, de Pierre Debray-Ritzen.

Terça-feira, Novembro 25, 2003

Fascistas!

E como têm notado alguns bloggers mais vigilantes, parece que andam por aí uns perigosos fascistas a pedir música.
Pois que vão ao sítio certo, e descarreguem à vontade.

Giovinezza, Giovinezza, primavera di bellezza
nella vita e nell'asprezza, il tuo canto squilla e va.

CELESTINO DAVID

Nasceu na Covilhã, em 1880 e faleceu em Évora, em 1952, depois de ter vivido quase meio século no Alentejo, onde constituiu família e do qual foi sempre entusiasta e apaixonado.
Como poeta, publicou: "O Livro de um Português"; "Alentejo Terra de Solidão"; "Poemas Regionais"; "Évora Rapsódia de Imagens" e "Poemas Alentejanos".
Além dos livros, deixou também larga descendência, entre filhos, netos e bisnetos - não sei se também plantou árvores ou não, mas é certo que obra não lhe falta.

PRELÚDIO

Da terra alentejana as graças canto
Em versos claros de lirismo e cor.
Traduzo a vida, a luz e tudo quanto
Distingue e doira o meu país de amor.

Com devoção exalto, ao céu levanto:
O vinho feito sol, o trigo em flor,
A lã divina, a calma do seu manto,
A carne, o pão, e o tempo criador.

A vida escuto, a sua origem traço,
Da seiva ausculto a vibração que morre
Em voz e cor de cântico disperso...

Com alma e fé a linda terra abraço,
Aspiro o forte aroma que a percorre
E tento dá-lo, vivo, a cada verso...


Celestino David

João Branco Núncio

Em Novembro de 1976, no primeiro número da revista “A Semana”, de Miguel de Araújo, surgiu uma comovente despedida a João Branco Núncio, na hora do seu desaparecimento. Foi escrita por Mascarenhas Barreto, multifacetado autor, muito mais conhecido pelas suas incursões na História (o “Colombo Português”) do que pela sua vertente de aficionado.
Aqui fica essa vibrante homenagem a Mestre João Branco Núncio (a ele que nunca gostou que lhe chamassem mestre...), o maior vulto da tauromaquia portuguesa, nobre figura de alentejano, cavaleiro e lavrador.


UM HOMEM: João Branco Núncio

Que outra figura poderia escolher para breve antecâmara de crónicas taurinas?
Raros homens, neste século de galopante putrefacção do carácter, reuniram, como ele, tão altas virtudes de português autêntico: o amor à terra, a coragem moral e física, a generosidade discreta - quase humilde - o sacrifício abnegado nas mais cruéis circunstâncias.
Vejo-o fechando na mão tisnada um punhado de torrão seco, enquanto os olhos perscrutavam um céu desesperadamente nu de ansiada chuva. Na luta contra a terra, conquistara honradamente os frutos que generosos só são quando por eles se sangra um trabalho tenaz, constante.
Vejo-o fechando na mão tisnada o ferro com que, nas arenas ardentes de sol e emoção, desafiava o toiro, na mais nobre e tradicional festa popular portuguesa. Na luta contra a fera, soubera grangear o mais alto troféu de um toireiro: a admiração, o amor do povo que, ali, com ele se irmanava na valentia instintiva, no gosto por essa arte cinética secular.
Vejo-o, enfim, fechando na mão tisnada as rédeas amargas, quando vilmente espoliado da enxada que sempre trouxera na carne para desbravar a terra, empunhava agora a única que lhe restava - na alma: a do toireio equestre.
A este trouxera a inovação, o sentido simplista de síntese e medidas, e uma grandeza inolvidável.
Não só como Centauro se oferecera aos toiros. De igual, lidava-os a pé, de capote e muleta; corria-os em campo aberto, na euforia do derrube, no apadrinhamento da apartação dos bezerros - a mesma euforia e também o mesmo anseio criador com que sofria o despontar e o envigorar das searas, dos arrozais, da vida que só a terra dá e o homem rouba...
Com Núncio passou o toireio equestre a definir-se por axiomas diferentes, magistrais. Poder-se-à dizer que se tornou fronteira de estilos na lide montada: antes de Núncio; depois de Núncio. Contudo, na sua modéstia natural parecia não se aperceber de que criara uma nova era tauromáquica que seus contemporâneos seguiriam: os cânones nuncistas.
Como Juan Belmonte, para o toireio a pé, João Núncio foi expoente máximo para o toireio a cavalo. Em crónica futura se falará desta Arte.
Nasceu João Alves Branco Núncio a 15 de Fevereiro de 1901, na Herdade de Parchanas, de São Romão, para onde seu avô, Joaquim Mendes Núncio, lavrador da Golegã, se trasladara, em 1878. Aí, em Alcácer do Sal, cingiu esporas. Aos 13 anos, a 23 de Agosto de 1914, toireou pela primeira vez em público, num cavalo - Teodoro - que fora de Manuel Casimiro, quando a glória da "Festa Brava" equestre se disputava entre este cavaleiro e o Morgado de Covas. Depois, alternando com seu pai, Inácio Augusto Murteira, surgiu na Praça de Évora, a 20 de Setembro desse mesmo ano, "não apenas como um caso de precocidade, mas também, e principalmente, como deslumbrante revelação artística" - aplaudiu a crítica: era a sua segunda corrida.
Finalmente, veio a hora da regra tradicional: na tarde de 27 de Maio de 1923, António Luís Lopes concedeu-lhe a alternativa, na Praça do Campo Pequeno. Ele próprio a concederia, mais tarde, a onze cavaleiros tauromáquicos: Dr. Fernando de Andrade Salgueiro e Dom Vasco Jardim (1938), Francisco Murteira Correia (1943), Eng.° José Rosa Rodrigues (1944), Dom Francisco de Mascarenhas (1945), Francisco Sepúlveda (1952), Gastón dos Santos (1954), seu filho, Eng.° José Barahona Núncio (1962), Eng.° José Samuel Lupi e Alfredo Conde (1963), Frederico Cunha (1968) e José João Zoio (1972).
Em Espanha, onde múltiplas vezes ergueu as praças de entusiasmo e admiração, foi o primeiro cavaleiro português a matar toiros, a cavalo, a estoque. Em Portugal, consagrou-o o povo como sendo "o maior". Era-o, de facto: o maior vulto da história do toireio a cavalo em todo o mundo.
Depois, não mais parou de empolgar as arenas, senão quando o acidente da queda de um cavalo aniquilou seu filho e o desgostou para sempre de honrarias, ovações.
Contudo, aos 75 anos - salvados três cavalos do assalto infame da negra saga de ocupações predatórias - não lhe faltou coragem para enfrentar, de novo, a vida nos redondéis. Por fim, na Golegã, quando serenamente preparava um dos corcéis, veio a enfrentar a morte - derradeiramente.
Estava a cavalo, enforquilhado na sua sela-charrua; pés bem firmes nos estribos da honradez, da dignidade.
Pelos olhos nublados, entre terra e céu, ter-lhe-iam desfilado, nos cenários edénicos verde-azuis das lezírias e calmosos verde-pardos das charnecas, essas montadas fiéis em que se prolongara a sua imagem cavaleira: Relâmpago, Santander, Pregonero, Alpompé, Lidador, Numerário, Quo Vadis, Pincelim, Sultão, Gaio, Malhinha, Marialva, Temporal, Gaiato, Ribatejo, Glorioso, Garoto e tantos outros, crinas ao vento, alados como pégasos. Também os toiros, não como adversários de violência animal, mas como nobres lutadores leais (que não os homens semeadores de ódio) e sobretudo aquele inesquecível Trompeta que foi base da sua ganadaria de sangue Urquijo.
Inscreveu-se Núncio ao centro de um triângulo: Toiro, Cavalo, Terra. Triângulo iluminado de amor, quase signo da Pátria que ele visceralmente vivia. Nunca a traiu. Quem da vida faz altar de trabalho e esperança não pode - não sabe trair.
À terra desceu, entre o amor dos homens - não da escassa escumalha arrebanhada por traidores rapaces, mas do povo-Povo, em cujas veias corre sangue puro, como os ares lavados das manhãs campestres: seiva da própria terra.
Morto para a Pátria - com a Pátria -, outro triângulo mais alto o ilumina: o signo de Deus.


Mascarenhas Barreto

1º de Dezembro

Os meus amigos já pensaram como vão comemorar o 1º de Dezembro?
Lembrem-se que um dia destes pode ser proibido ...

PARA UMA ALTERNATIVA

A insistência nas causas profundas da crise ou decadência nacional contemporânea - o espírito do arrivismo, oportunismo e amoralismo sistemáticos, de uma classe dirigente sem princípios nem objectivos comunitários - leva à consideração de uma alternativa consubstanciada na restauração, numa perspectiva metapolítica, de uma ética e de uma concepção do mundo, do Estado, da Sociedade, como corpo de valores anterior â formulação pragmática das soluções. Mas esta ética ou concepção metapolítica não pode ser confundida nem com uma ideologia - uma mundivisão com tendência para o reducionismo e para o receituário programático geral - e ainda menos com uma cartilha de postulados preceituais, que encerram, magicamente, a verdade das verdades. A vivência ética do Estado e da Política não se corporiza nem espartilha em dogmas ou vademecuns, mas realiza-se na pesquisa e na realização existencial dos Valores, admitindo a prova contraditória e aceitando o juízo e a sanção da comunidade.
A reforma (ou revolução) intelectual e moral do País é, pois, a condição sine qua non, da restauração nacional. Assim como as falsas concepções e os pseudovalores trouxeram a dependência e a decadência, assim as perspectivas de uma política do real hão-de trazer o quadro mental para as soluções.
Tendo uma opção de teoria e valor, a sua dinamização social e comunitária depende dos seus suportes humanos, entendidos como os núcleos de intelectuais, de quadros, de militantes, de cidadãos activos e capazes de entrega e de serviço. Nesta pista haverá que procurar naqueles grupos que fizeram a prova de fogo da generosidade e da dádiva cívicas - como os combatentes - ou que por condição geracional estão libertos da teia manipuladora e paralisante das dependências e interesses criados - como os jovens - a massa crítica de recrutamento dos elementos para uma acção política renovadora. Os núcleos de mobilização e aglutinação de tais forças - ligas, núcleos universitários, movimentos - deverão ser dinamizados e projectada a sua acção numa perspectiva independente mas de convergência unitária, com base num projecto que seja em princípios, em valores e em estilo frontalmente distinto e alternativo à classe política.
A crise nacional tem também, na sua raiz, uma «traição dos intelectuais». Muitos dos mandarins e literatos empenharam-se,, no contrapoder e no grupo de pressão marxizante e, no seio do actual regime, constituíram lobbies que se anicham nos media, nos institutos e nos centros de poder e intoxicação da mediocracia partidocrática, contribuindo para manutenção do statu quo onde, ao lado de tecnocratas e burocratas do sector público e da direcção político-económica do sistema, participam na classe política. Que os intelectuais patriotas e independentes, dentro e fora da Universidade, constituam o contrapoder e a contracultura do sistema, contribuindo para revolução cultural nacional, eis a resposta ao sistema e o seu modo ideal de servir. E numa época propícia, já que, por todo o mundo euro-americano (e entre nós por reflexo) se observa uma decadência do modelo evolutivo e das suas várias versões, que só têm servido para aprisionar ou empobrecer os povos, e uma expectativa de regresso ou instauração das grandes certezas e valores comunitários.
O tempo é escasso e os perigos múltiplos nesta década e meia que nos separa do milénio. Entregues a uma alternativa diabólica dentro do regime - entre os moderados thermidorianos que, cada vez mais isolados ocupam o poder, e os maximalistas radicais que já entraram nos caminhos da desestabilização e da conspiração para o assalto ao Estado - todos os portugueses, patriotas e independentes, que cuidam do bem da Pátria, da continuidade da Família, da defesa das liberdades reais, têm de intervir, com disciplina, com lucidez e com coragem na vida pública, sacrificando os seus gostos e as suas repugnâncias circunstanciais, para cumprir o seu dever.
Só assim sobreviveremos como Nação; só assim podemos continuar como homens livres.

Jaime Nogueira Pinto (1985)

Segunda-feira, Novembro 24, 2003

Apoio à Vítima

Nestes tempos difíceis em que toda a sociedade se confronta com a realidade do crime, importa não esquecer a realidade da vítima.
Existe uma grande organização destinada a institucionalizar mecanismos de apoio à vítima (psicológicos, médicos, jurídicos, ou outros). É a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
A APAV é uma organização de voluntariado social. Os voluntários são a força solidária da APAV e a razão do seu sucesso, disponibilizando determinadas horas por semana para apoiarem gratuitamente as vítimas de crime.
Quem sente a vontade e a disponibilidade para fazer qualquer coisa, tem um caminho: contacte a APAV.

MFA e partidos

Ainda não parei com as recordações do ano de 1974. Não se diga que são lembranças sem interesse, meras curiosidades sem relevância histórica. Com efeito, o quadro político-partidário ainda hoje vigente nasceu dos acontecimentos de então. Os que não passaram dessas eliminatórias nunca mais entraram no campeonato. E os escolhidos da altura monopolizaram até agora a representação política. A direita escolhida pelo poder militar para subsistir e ficar a representar essa função, de modo a poder ser apontada como tal para o estrangeiro apreensivo, foi o CDS. Não pode deixar de notar-se que o relatório oficial sobre os acontecimentos do 28 de Setembro nem uma só vez refere a existência do CDS, que já estava em pleno funcionamento desde Maio anterior. E o certo é que faz referência a acontecimentos concretos, ligados à preparação da famosa manifestação da maioria da maioria silenciosa, em que para além das pessoas e organizações que são mencionadas estiveram também pessoas do CDS e o próprio partido – pelo menos tão envolvidos como outros que ficaram apontados para pagar a conta.
Ou seja: o documento em causa parece-me tão revelador pelo que esconde como pelo que diz. Quem tomou o poder em 28 de Setembro de 1974 fez claramente opções sobre quem podia e não podia continuar em campo. Consequentemente, os partidos, organizações e jornais a quem saiu bola preta foram de imediato ocupados e saqueados, os seus responsáveis presos, e os que não o foram tiveram que exilar-se ou calar-se.
Os seleccionados para, embora de forma condicionada, continuar no sistema a representar a direita e o centro, foram apenas o PPD, porque já estava no governo, e o CDS, porque até estava representado no Conselho de Estado, e tinha fortes ligações internacionais – e sobretudo porque nessa fase a revolução ainda temia as reacções exteriores se avançasse também contra esses.
A evolução posterior veio a determinar que o sistema partidário se consolidasse assim – de modo ainda mais fechado e definido quando o permanecente PDC foi também colocado fora de jogo logo em Março seguinte.
Em resumo: os acontecimentos despoletados pela inventona do 28 de Setembro, completados depois com o processo ligado ao 11 de Março, foram o verdadeiro acto fundacional do sistema partidário português. O pacto MFA-Partidos só reduziu a escrito o contrato já imposto aos aderentes.

Termino agora com um saboroso naco do inestimável “relatório do 28 de Setembro de 1974”, onde os briosos investigadores militares puseram a nu as tenebrosas maquinações da reacção.

“6. Os meios de comunicação social eram, aliás, um dos pólos de atenção dos mentores da ofensiva da extrema-direita.
A sua utilização surge na sequência de uma campanha de dinamização política e financeira liderada por um grupo de influentes elementos fascistas que se organizaram para esse fim, entre os quais se destacam os nomes de: General Kaulza de Arriaga, que assegura o apoio financeiro; Pedro Feytor Pinto, que, perante a "importância dos jornais das vilas", para eles pode fazer uma útil "canalização"; Luís Folhadela de Oliveira, que escreve a um amigo de Vila Nova de Famalicão a comunicar-lhe que "a Rádio Alto-Douro, da Régua, pertence a um tipo fixe que está avançado em idade e quer que se faça barulho" e que andava a averiguar “quem é o titular de uma hipotética licença de estação de rádio para Braga"; Artur Agostinho, de cujos serviços este grupo se procura assegurar.
Diga-se ainda que outro dos propósitos confessados de tal grupo era o lançamento de dois jornais diários - um no Porto e outro em Lisboa; e que o apoio aos periódicos primeiramente mencionados era também ponto assente, em particular depois de, numa reunião efectuada no Algarve em Agosto, com a presença de José Harry de Almeida Araújo e de um indivíduo português da ITT, se ter concluído pela enorme dificuldade em conseguir posição nos capitais das empresas proprietárias de publicações e estações emissoras.
7. A utilização nesta campanha de certos meios de comunicação baseava-se, como é evidente, em três pressupostos:
- 0 de ter a reacção necessidade de fomentar a criação de um clima social propício ao desenvolvimento da manobra que intentava empreender, pelo descrédito que pretendia lançar sobre o Governo Provisório, sobre o Movimento das Forças Armadas e sobre o processo em curso desde o 25 de Abril, de modo a que ficasse justificada a instauração de um poder pessoal que salvasse a Pátria;
- O de serem eles veículos através dos quais poderia fazer chegar a sua voz junto das massas menos politizadas e, por isso, mais sensíveis às ideias que lhes desejava impor, pelo desempenho fiel e sectário do papel que a esses meios de comunicação reservava no contexto da ofensiva - preparação psicológica de certas camadas da população (maioria silenciosa ou não); e ainda
- O de vigorar no País uma liberdade de imprensa que lhe possibilitava pronunciar-se quase impunemente contra a nova ordem estabelecida, pela subversão ideológica confundida e baseada no uso de tal liberdade.
8. Por outro lado, era imperioso para as forças reaccionárias disfarçarem o seu reagrupamento e as suas actividades. Recorriam, para tanto, à invocação de fachadas partidárias muito próprias, sob as quais pretendiam entrar no jogo democrático, que não aceitavam afinal, mas que no condicionalismo presente lhes poderia servir de via para alcançarem os seus objectivos anti?democráticos.
Por isso, as organizações políticas à sombra das quais se refugiavam nomes altissonantes do fascismo, foram surgindo. Sem preocupações cronológicas, refiramos algumas das que mais directamente se relacionaram com o "28 de Setembro" e caracterizemo-las brevemente: (...)


Fica para outra vez a descrição das organizações proscritas, e dos facínoras a elas ligados. Tenham paciência, e não desamparem o blogue.

NOVA DIREITA - OS NÓS DA QUESTÃO

"Nova Direita" é uma designação inventada pela esquerda francesa. Mas que foi aceite, ao menos como bandeira provocadora. A realidade das ideias é mais complexa e deve ser situada com mais rigor.
Se me perguntassem sobre o que entendia como Nova Direita, diria muito simplesmente - e não há como ousar definições para a gente entender-se de uma vez para sempre - que poderemos defini-la como a Direita que avançando para um diálogo com a Ciência e incorporando novas áreas de preocupação, veio a confirmar cientificamente noções que já eram património da Direita tout-court. Ou seja: a “Nova Direita” trouxe à Direita a confirmação científica das suas principais noções. Pela atenção dada aos novos ramos de investigação, os autores que se reclamam da Nova Direita vêm dizer à Direita que as novas descobertas da Ciência confirmam os seus princípios fundamentais e que não há nada a temer - antes pelo contrário - do que se vai descobrindo no campo científico.
As noções de território, hierarquia, pessimismo sobre a natureza humana, desigualdade, totalidade, unidade orgânica, ganharam nova confirmação através dos trabalhos desenvolvidos pelas Ciências que se situam na vanguarda da investigação, desde a Etologia e a Genética das Populações, à Física Teórica e à Teoria Geral dos Sistemas.
“Diálogo com a Ciência” não quer dizer “cientismo” e é importante distinguir-se para poder responder a algumas observações que justificadamente se têm feito e a que não se tem dado a resposta pertinente.
Não se trata de culto da Ciência pela Ciência pois, a ser assim, cairíamos num reducionismo e num relativismo que levariam a erigir a descoberta de cada momento na verdade absoluta, passível, também a todo o instante, de ser revogada. Dar-se-ia o caso de haver descobertas que hoje postulam ou confirmam princípios da Direita, e amanhã logo as impugnam, porque novos dados contestariam o que hoje se tinha como certo e irrefutável.
Trata-se, tão só - ao contrário do que tem sido comum às teorias políticas tanto da esquerda como da direita - de dar atenção ao universo científico, recolhendo - por parte da Direita - a decantação que se vai fazendo e registando dos eixos fundamentais da investigação que se processa.
É sabido - ou deveria sê-lo - como a Mecânica Analítica, teorizada no século XVIII, repercutiu em todo o pensamento que se lhe seguiu, da Ciência à Política, e como a noção de substância fundou todo o conhecimento posterior. Postas em causa uma e outra, surgida a noção de campo, implementada desde a Teoria do Campo Electromagnético até à do Campo Unificado, que a Física Teórica mais avançada desenvolve, é lógico que a sua repercussão nos vários ramos do Saber terá de se sentir. E isto é verdade para uma série de outras noções que o património científico vai adquirindo e que também inevitavelmente acarretará sequências no plano doutrinário.

Divulgar e sintetizar

Quando Konrad Lorenz formulou os princípios fundamentais da Etologia partiu da recolha prévia de dados fornecidos por variados investigadores que trabalhavam, cada um, no seu campo particular de pesquisa. Um dedicava-se ao estudo dos macacos lemures. Outro a certa espécie de pássaro, aquele mais além virava-se para o estudo dos gorilas no Jardim Zoológico de Londres, e por aí adiante. A difusão destes conhecimentos, a sua divulgação feita por Lorenz, levou a criar--se uma corrente muito forte de interesse pela investigação do comportamento animal, de que nasceria uma nova síntese, pois a divulgação feita por Lorenz eclodiria necessariamente num novo enquadramento uma vez que a perspectiva com que esses trabalhos eram apresentados eram só uma e a mesma.
Como se sabe, não há divulgação atomística; há sempre uma ordenação prévia que acaba por hierarquizar os dados fornecidos dando-lhes, mais tarde ou mais cedo, nova animação.
Foi exactamente isto que sucedeu com os trabalhos de Alain de Benoist e é desde esta perspectiva que tem de ser analisada a sua “Antologia das Ideias Contemporâneas”, vista desde o ponto de vista da Direita. Não quero dizer com isto que desses trabalhos saia toda uma nova ciência ou uma nova filosofia; o que eu quero dizer é que está subjacente uma visão e uma ordenação que permitem estabelecer o trânsito da simples divulgação para a teoria, para o pensamento, que vem integrar novos dados num fundo que é permanente.
É neste plano que deve ser analisada a sua obra, e não noutro. E é neste plano que a minha geração lhe deve um serviço inestimável, eliminando certos preconceitos e evitando que caíssemos na perniciosa e tradicional alergia da Direita à Ciência, provando, pelo contrário, que nada temos a ver com o campo arqueológico vastíssimo que ainda é o pensamento político institucionalizado e vigente.

José Valle de Figueiredo

Domingo, Novembro 23, 2003

O pensamento e a acção

Nestes tempos em que a lucidez mandaria limpar armas, a imagem oferecida pela área dos que se dizem nacionalistas é deveras desoladora. Para os que guardam a ilusão de que tudo poderia ser diferente deve ser mesmo angustiante. Numa época em que todos os sinais dos tempos parecem indicar a iminência de grandes coisas, quando o mundo em que nascemos parece abanar por todos os lados e estar em vias de afundamento, seria de esperar que os que a si mesmos se elegeram paladinos de uma Nova Idade ao menos se erguessem em vigilância tensa, aptos e disponíveis para os combates que não podem deixar de vir.
Mas não. É como se os nacionalistas portugueses à força de “viver habitualmente” lhe tivessem tomado o gosto. Mesmo quando tudo aconselha a fazer o contrário. Parece que a habitualidade lhes corroeu a imaginação e a audácia, a inteligência e a fé. Assim, enquanto muitos dormem outros fazem flores.
Alguns limitam-se a repetir erros antigos; no entusiasmo gregário de fardas, hinos e bandeiras, esquecem as ideias, que são sempre o mais importante. Movem-se em círculo fechado, parados no tempo, fazendo gala de uma estética ultrapassada e de uma linguagem que só ela constituiria barreira suficiente para impedir a aceitação pela massas, cujo espírito crítico é apesar de tudo capaz de rejeitar a retórica balofa de quem nada traz de novo.
Outros nem se dão ao luxo de cometer erros. Encerraram-se nas suas torres de marfim, inventaram alibis mais ou menos consoladores para as próprias consciências, e esperam em casa que a história lhes vá bater à porta.
Poucos são os que, no cepticismo de quem conserva a cabeça fria e o espírito lúcido, se mantêm no seu posto sem desânimo nem descrença, sabendo que o futuro começa agora e que Deus costuma ajudar aqueles que se ajudam. Na trincheira que a cada um de nós coube sabemos que é preciso dar forma nova às verdades eternas, deixar morrer o que merece ser enterrado para afirmar no seu fulgor imaculado os princípios que nos comandam. Dentro da linha de modernidade e vanguardismo que é própria dos que se querem construtores do Futuro.
Apesar do panorama traçado não se julgue que pensamos haver razão para derrotismos. Antes pelo contrário: pensamos que o desespero é uma estupidez desprezível. Parece-nos que nada há de estranho em que as coisas sejam como são, e as explicações nem são muito difíceis de encontrar. E acreditamos que o fermento constituído por aqueles que nunca desistiram de intervir, e conhecem o mundo e a história, e sabem o caminho, há-de ser bastante para vencer a ganga que ao passado pertence e imprimir o rumo que leva à vitória.
Para os que não percebem muito bem o que isto quer dizer, deixamos uma frase para reflexão, esperando não os deixar ainda mais perplexos: “Todas as juventudes conscientes das suas responsabilidades tentam reajustar o mundo. Tentam pelo caminho da acção e, o que é mais importante, pelo caminho do pensamento, sem cuja constante vigilância a acção é pura barbárie”.
A frase é de José António e é sempre grata de recordar por quem sente que ela, por direito adquirido, também lhe diz respeito.


(palavras de um velho amigo deste bloguista)

CEIFEIROS

Estes ceifeiros não são
Os ceifeiros do Fialho.
Têm braços, mãos, almas duras,
Têm fogo no coração,
Têm amor ao seu trabalho,
Por ser trabalhar no pão.

Estes ceifeiros são
Grilhetas, são orgulhosos
De darem, ao mundo, pão;
Porque são eles que o dão
A pobres ou poderosos

Está hoje vento suão.
Está quente, - oh gentes! Está quente!
Vamos lá, outro empurrão!
Não vá desgranar-se o grão ...
- E a fila marcha prà frente.

Range o restolho cortado,
Pela serrilha da foice,
E aquele mar ondulado,
Que foi lindo mar doirado,
Não tem espiga que baloice.

Quando a gente está afeito,
Quase não sente o calor.
Cortar o pão quer-se feito
Co'a ternura, gosto e jeito
Com que se fala de amor.

A espiga está grada e bela.
O Inverno ainda vem longe
E, nesta vida singela,
Ter pão é estar à janela
E poder olhar pra longe.

Estes ceifeiros não sabem
Mais que a vida natural.
Mas têm a intuição que cabem,
As mãos que esta fama acabem,
Dons do sobrenatural.

Francisco Bugalho

Outro professor

Esqueci-me de referir outro blogue feito por um professor: o "Crónicas do Deserto", da responsabilidade, conforme se lê in situ, de um jovem eborense, professor de profissão, socialista e benfiquista por opção.
Fica o mea culpa e a reparação ... é sempre mais fácil escorregar para a injustiça do que seguir o rumo justo.

Vozes de professores

Afinal, existem mesmo vozes de professores a levantar-se e a fazer-se ouvir sobre o ensino e os seus problemas.
Encontrei excelentes textos a esse respeito no "Real Colégio", no "Portugal e Espanha" e no "Blogue de João Tilly".
Em qualquer dos casos, saber de experiência feito. Que outros venham, e se façam ouvir, é o que gostaria de esperar.
Estes merecem leitura e reflexão atentas.

Sábado, Novembro 22, 2003

O silêncio dos professores

Fui professor durante alguns anos. Conheci tanto o secundário, em todos os graus deste, como a universidade.
Já então o panorama era desolador.
Entretanto, segui outros caminhos. Afastei-me. Segundo me dizem os conhecidos que continuaram no ensino, as coisas nestes últimos vinte anos só têm piorado - e todos me transmitem uma visão depressiva e pessimista.
Tenho um amigo que é responsável pelo pelouro do pessoal numa Direcção Regional de Educação. Quando me encontra conta-me sempre com renovado espanto o que aprende aí: as baixas, as juntas médicas, as reformas antecipadas – parece que anda todo o pessoal docente em esgotamento ou quase, com problemas psicológicos ou mesmo psiquiátricos. Tudo à beira de um ataque de nervos (os que ainda não chegaram lá).
E não me admiro: o experimentalismo constante, as reformas sucessivas, as estratégias, o planeamento, as fichas para tudo e para nada, as orientações pedagógicas em mutação permanente, as teorias mais delirantes circuladas à vez por cada nova equipa reinante, os programas, os livros, tudo em revolução incessante, tudo somado a um burocratismo amalucado, são para dar cabo da cabeça mais sólida. Nem era precisa a indisciplina que da sociedade alastra para as escolas e para as salas de aula, fruto da deseducação institucionalizada em casa.
Os resultados do regabofe que tem sido o ensino nestas últimas décadas estão à vista de toda a sociedade: já temos resmas e resmas de licenciados que não sabem escrever – e nem ler, e nem falar, se entendermos estas acções como implicando um domínio um pouco mais que rudimentar do vocabulário e das regras básicas da língua.
Resta referir que tudo isto ainda por cima é sempre acompanhado de optimismo oficial e obrigatório – se não está tudo no melhor dos mundos para lá caminha, evidentemente. E o “sucesso escolar” medido invariavelmente pela não retenção do aluno: se todos transitarem de ano é um “sucesso escolar” retumbante - cem por cento, como dirão os relatórios a enviar para a Unesco.
Acresce que, como todos concordam, não é exagerado afirmar que as questões relacionadas com o ensino e a educação são de tal maneira cruciais que condicionam de todo o futuro da sociedade portuguesa.
Ora é perante estas constatações que não cessa de me intrigar o silêncio de uma classe tão numerosa como são os professores. Perante as experiências em que são passivas cobaias, os maus tratos, o desrespeito sistemático, a degradação que não pára, não se vislumbram reacções, nem públicas nem privadas, que não sejam a resignação, o alheamento, o desinteresse, o afastamento, quando a saturação chega e a paciência ou a saúde não dão para mais.
O direito à revolta, proclamado por um dos pais da pátria que temos, ainda não chegou a tais bandas.

Ordem Nova

O movimento “Ordem Nova” (não confundir com outros que noutras épocas usaram o mesmo nome) foi formalmente criado por escritura notarial de 25 de Julho de 1980. Teve como fundadores António Alves Dinis, António Júdice de Abreu, Eduardo Quinhones da Silva Pereira, Gilberto Santos e Castro, João Carlos Beckert d’Assumpção, Joaquim Navarro de Andrade, José Valle de Figueiredo, Luís da Silva Martinez e Zarco Moniz Ferreira.
Teve a sua sede instalada na Rua Tomás Ribeiro, n.º 8, em Lisboa, num terceiro andar em que sucedeu à “Renovação - Associação Nacional de Estudos Políticos e Sociais”, que ali tinha funcionado nos anos anteriores tendo como principais animadores Santos e Castro e José Valle de Figueiredo.
Uma vez em marcha, a Ordem Nova veio a ser fortemente marcada pela personalidade de Zarco Moniz Ferreira, secretário-geral, que lhe imprimiu os seus traços caracterizadores, nas palavras, nos actos, no estilo, na propaganda, até na encenação visual e estética.
Zarco Moniz Ferreira, entretanto falecido, foi presença constante nestes movimentos, desde o “Jovem Portugal” dos primórdios da década de sessenta até uma efémera “Frente de Libertação Nacional Sindicalista”, que criou em finais de 1977 e funcionou durante alguns meses de 1978 – da qual o que mais lembro foi que publicou um manifesto, uns folhetos, uns dois números de uma revistinha, “Em Frente”, e tinha como jovens animadores António Maria Pinheiro Torres e João Gonçalo Dias Rosas, então estudantes do Colégio São João de Brito.
A Ordem Nova atraiu alguma militância nacionalista, sobretudo jovens, dos meios estudantis e também trabalhadores, tendo a sua ala juvenil assumido todo o destaque, dada a crise que desde o início afectou de notória inoperância os órgãos estatutários (e que aliás haveriam de determinar mais tarde a decisão de dissolver a associação).
Essa juventude foi desde o início liderada por Paulo Teixeira Pinto, então jovem estudante de Direito, na Universidade Livre e na Faculdade de Direito de Lisboa, mas já largamente conhecido nos meios nacionalistas.
Teixeira Pinto desde os seus tempos liceais animara um grupo que ainda hoje tem marcas visíveis nas paredes de Lisboa (“Mocidade Patriótica”), nesse tempo em colaboração estreita com, entre outros, Filipe Gouveia. De seguida, ainda acompanhado por Filipe Gouveia, chefiara a Juventude Democrata Cristã, imprimindo-lhe uma orientação pouco consentânea com a designação. Posteriormente, e após um ensaio de aproximação ao Movimento Nacionalista, este já com alguns anos de funcionamento e estruturas de comando mais ou menos fechadas, surgira então como o responsável da juventude da Ordem Nova, fazendo-o enquanto esta durou com todo o entusiasmo, dinamismo e energia.
Para além de Paulo Teixeira Pinto, militaram nesses primeiros anos da década de oitenta na “Ordem Nova” muitos outros jovens, e alguns menos jovens, dos quais recordo Álvaro Santos (também já falecido), Luís Fernandes, Paulo Jorge dos Santos Filipe, Miguel Teixeira Pinto, Manuel Osório de Aragão, Filipe Silva Carvalho, Rui Tabosa, João Diogo, Francisco Garcia dos Santos, João Salvado Martinho, Pedro Cymbron, José Lúcio, Marcos Miranda, Paula Bussaco dos Santos, João Paulo Silva e Sousa, Luís Catarino, Pedro Pimenta Valentim, Nuno Serra, Bernardo Calheiros, Gonçalo Fragoso, Nuno Sarmento de Beires.

Missa de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 23 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III)
(Em qualquer dos outros dias da semana, de Segunda-Feira a Sábado, é às 19 horas, no mesmo local)

Em Monforte: às 18.30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

Sexta-feira, Novembro 21, 2003

A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA

Em 15 de Fevereiro de 1932,em São Paulo, Plínio Salgado fundou a Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P.), que congregou jovens estudantes das escolas e elementos do maior valor intelectual e moral, que acabaram criando um movimento de profunda brasilidade meses mais tarde: a Ação Integralista Brasileira , que foi fundada oficialmente em 07 de Outubro de 1932.
As Raízes do Integralismo vinham de Euclides da Cunha, quando nos mostra o contraste entre o litoral e o sertão, vinha da inspiração de Gonçalves Dias, dos poemas de Olavo Bilac, enaltecendo o serviço militar, vinha do filósofo Farias de Brito, que incutiu no espírito de Plínio Salgado o sentimento espiritualista, vinha de Alberto Torres, que inspirou em Plínio uma apaixonada orientação Nacionalista, e por fim Oliveira Viana, que na opinião de Plínio Salgado foi o maior sociólogo que o Brasil produziu.
A partir daí, Plínio Salgado organizou a AIB em todo o País, ensinando ao povo a mística da Grande Nação. Os Integralistas passaram a pregar a Unidade da Pátria, a independência da Nação de qualquer influência estrangeira, o culto das tradições e dos Símbolos Nacionais; a moralidade e as virtudes públicas e privadas, o respeito à Ordem e o amor da Disciplina, e à Brasilidade mais pura, e o prestígio ao Poder Central.
Grandes figuras públicas brasileiras no início de suas carreiras políticas cerraram fileiras nas hostes Integralistas, como Gustavo Barroso, Miguel Reale, Câmara Cascudo, Alceu Amoroso Lima e D. Hélder Câmara. De 1933 em diante, o Integralismo prosseguiu sua obra construtiva, fundando nesse período mais de 4.000 núcleos de nacionalismo e propaganda doutrinária; puseram em funcionamento milhares de escolas de alfabetização em toda a Nação Brasileira, milhares de ambulatórios médicos, lactários, farmácias, campos de esporte, bibliotecas, cursos profissionais e outros serviços de Benemerência. Fundaram mais de 100 jornais, dos quais 8 eram diários. Fundaram uma revista de cultura, e realizaram numerosos cursos de altos estudos relativos a assuntos nacionais ou universais. Tudo isso, foi feito mediante um sentido de extrema exaltação mística. O Integralismo organizava-se com nobre aspiração religiosa (Deus dirige o destino dos Povos). Pregavam a Revolução Interior, a mudança de costumes das pessoas. Um verdadeiro ascetismo purificava as almas de milhões de homens e mulheres (em 1936, a AIB chegou a ter mais de um milhão de membros filiados!).

(dedico este texto à memória de Plínio Salgado - que Deus conserve para sempre junto do Si - e ao Embaixador Dario de Castro Alves - que Deus conserve muito tempo junto de nós.)

QUEIMADA

Lenta, ondulante, latente,
Fulgurante ou decadente,
A longa queimada vem,
Na faixa do horizonte.

Avança desde o poente,
Enche a noite e cala a fonte.

Tudo se cala, se encerra,
Em volta na escuridão,
Toda a paisagem se aterra,
Não há estrela na amplidão:
- Que o lume, raso se aterra
Matou-lhe a cintilação.

Há cheiro a palha queimada,
A matos secos ardendo,
Gritos soando, na noite,
Há caça, louca, correndo,
Sem saber onde se acoite,
À espera da madrugada.


Francisco Bugalho

Famílias numerosas

A coragem e o heroísmo podem assumir múltiplas formas.
As menos notadas e elogiadas são as que vivem na tranquilidade do quotidiano, ao nosso lado.
Se eu mandasse, havia um monumento às famílias numerosas; e às mães, e aos pais, que dessas famílias fizeram as suas vidas.
Conheçam a associação - e meditem no que eles dizem.

0 Alentejo na poesia de Miguel Torga

MIGUEL TORGA, acima de tudo poeta da terra, foi uma das vozes que melhor sentiu e cantou o encanto da planura alentejana.
Do seu "Diário", ficam aqui dois pequenos poemas do grande escritor transmontano.

"INSÓNIA ALENTEJANA"

Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...

* * *
Terra parida,
Num parto repousado,
Por não sei que matrona natureza
De ventre desmedido,
Olho, pasmado,
A tua imensidade.
Um corpo nu, em lume ou regelado,
Que tem o rosto da serenidade.

A jumentude

Bem o dizia o meu avô, com a sua sabedoria de alentejano velho.
Estes rapazes de agora são como os frangos de aviário: crescem muito, mas não cantam nem galam nada.

Eu já escrevi sobre isso ...

Aqui neste blogue publiquei eu há tempos sete "reflexões sobre o Iraque", que, confesso, acabrunhado, não impressionaram ninguém. Ninguém achou aquilo nada de especial.
Ninguém, vírgula: eu, ao contrário, sempre achei que se tratava das observações mais bem observadas que já aqui deixei para alheia observação.
Com mais reflexão, continuo a reflectir do mesmo modo. Eu é que tinha razão! Agora até já se fala em público na teoria dos três iraques, já se vislumbram fissuras entre as linhas de orientação americanas e israelitas ...
Se isto vai por este caminho, ainda reclamo estatuto de profeta.
E ainda não expus a minha teoria sobre a "guerrilha universal" ...
Ora vão lá reler, se faz favor.

Quinta-feira, Novembro 20, 2003

Tem música, sim senhor!

E para que não digam que ao meu blogue só falta ter música, ou que me esqueci do 20 de Novembro, ofereço aqui a música adequada ao dia que passou.
Vão ao "Cancionero de Juventudes", e ponham-se em escuta. Recomendo que comecem pelo "Cara al Sol", pois claro, e depois sigam com "Montañas Nevadas", "Prietas las Filas" e "Cubre tu pecho".

Montañas nevadas,
banderas al viento,
el alma tranquila,
Yo sabré vencer!
Al cielo se alza
la firme promesa,
hasta las estrellas
que encienden mi fe.

TOSQUIA

Rente, rente, rente
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Vem do campo, em volta,
Mágico fulgor
De aroma, que solta
O feno inda em flor

Aperna-se o gado,
Pra tirar-lhe a lã.
Ficou encerrado
Desde esta manhã.

Rente, rente, rente;
Que a tesoura corta
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Um halo de neve,
Espuma ou algodão,
Envolve de leve
As reses no chão.

Na luz forte, em roda,
Zumbem as abelhas.
E há balidos soltos
E tristes de ovelhas.

E ao soltar aquelas,
Livres, já, dos velos,
Parecem gazelas,
Em saltos singelos.

Rente, rente, rente,
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.


Francisco Bugalho

De novo a poesia

Deixando o intermezzo histórico, a que todavia regressarei em breve, volto-me novamente para a poesia. O espírito pode debruçar-se sobre o campo chão das coisas do tempo, mas a alma aspira às alturas. E volto a afixar um poema de Francisco Bugalho, que já mencionei pela sua dedicação a Castelo de Vide e ao agro alentejano. Aqui fica, em manifesto deslumbramento pela paisagem e pelo homem que a enche – sempre a fidelidade às raízes.

CORTICEIROS

No silêncio ardente do dia parado,
Há lida de gente no denso montado.
Há troncos despidos, já lívidos, frios,
E troncos que esperam, em funda ansiedade,
Com gestos convulsos, de sonhos sombrios,
Em dor e silêncio, por toda a herdade.

Os pés descalços trepam ágeis,
Sobem ...
O machadinho crava-se e segura,
Como se fora um croque de abordagem,
O homem
A subir, na faina dura.

E há pasmo na canícula.
E há silêncio, de assombro, na paisagem!

Troncos dilacerados!...

E lembra-me, assim vistos a distância,
- Os vultos a trepar pelos troncos gigantes –
Como, em contos de infância,
Cornacas dominavam enormes elefantes.

- Que os troncos majestosos e inermes
Têm o ar daqueles paquidermes,
Lentos, laboriosos, resignados. –

Desses trágicos braços contorcidos,
Que mais tarde, a sangrar ,
São a gala maior desta paisagem,
E, agora, estão gelados, confrangidos
Pela tortura sem par,
No pino da estiagem,
Vão homens rudes, escuros e suados,
Lenço metido sob o chapéu largo,
Arrancando aos bocados,
Em férrea luta obscura,
Com qualquer coisa de febril e amargo,
A epiderme dura.

- Oh, velhas árvores dos montados!

Movimento Popular Português

Continuando aqui generosamente empenhado em fazer luz sobre os acontecimentos de 1974 que têm vindo a ser referidos de forma notoriamente parcial no blogue “Aliança Nacional”, venho hoje aditar o que a fls. 31 e 32 do “relatório do 28 de Setembro de 1974” ficou escrito pelos desconhecidos membros da “comissão ad hoc encarregada de investigar os acontecimentos do 28 de Setembro”.
Com a autoridade que resulta da sua indiscutível fidelidade ao processo revolucionário em curso, e com conhecimento profundo dos factos, escreveram os dedicados militares de Abril, explicando honradamente que o faziam “após termos procedido à análise de número considerável de documentos e termos apreciado as declarações de detidos e outras pessoas chamadas a depor”, as seguintes linhas sobre os delitos imputáveis a alguns antros de delinquência a que o citado blogue lamentavelmente tem procurado dourar a imagem:

“12. Movimento Popular Português (MPP)
A ideia da constituição de uma frente unida de forças de direita que pudesse "dar combate nas eleições" às forças de esquerda era uma das linhas mestras da actuação deste Movimento Popular Português. Nesta base, pretendia que fosse dada existência a uma Frente Democrática Nacional (FDN), que viesse substituir as iniciativas já tentadas de uma Frente Democrática Unida (FDU) e de uma Frente Social Democrata (FSD), a qual englobaria todos os partidos das direitas.
Surgido em Maio de 1974, o MPP envia, no princípio de Julho, uma carta ao Primeiro-Ministro Palma Carlos em que, agradecendo uma audiência que por este lhe tinha sido concedida, adianta os seus “propósitos inequívocos de contribuir com a sua actividade para compenetrar a grande massa silenciosa dos portugueses das suas enormes responsabilidades nesta hora em que é mister para salvação da nossa Pátria no seu todo pluricontinental a criação de uma grande frente unida para combater o avanço das ideias marxistas e para simultaneamente apoiar o Chefe do Estado e o seu Primeiro-Ministro para que possam levar a cabo o programa que nos anunciaram logo após o golpe de estado de 25 de Abril."
Da comissão organizadora do MPP fizeram parte o Eng. Adelino Felgueiras Barreto, o Eng. Agnelo Galamba de Oliveira e o Dr. Manuel Braancamp Sobral, presentes na audiência referida.
Outras das orientações que norteavam a actuação do MPP eram, respectivamente, o anti-marxismo (confundido e identificado com anticomunismo) e o integralismo da Pátria. Estas linhas ressaltam claramente de uma passagem da seguinte carta enviada por um dos seus aderentes: “. . . A ideia inicial consistiu em enquadrar todas as forças da direita e centro-direita, num movimento amplo que não se limitava à propaganda de ideias muito específicas, mas que se lançasse numa acção permanente de combate, como meio para atingir a maioria das várias forças da direita e centro com base em dois princípios fundamentais: o anticomunismo e a defesa da Pátria do Minho a Timor"...
O anti-marxismo foi largamente demonstrado em cartazes extremamente reaccionários que o MPP mandou imprimir e afixar, tarefa para a qual se serviu, no Norte do País, do Partido Nacionalista Português.
A difusão das suas ideias contou ainda com a utilização do Círculo de Estudos Sociais Vector e também da revista "Resistência", na direcção da qual estavam indivíduos intimamente relacionados com o MPP, tais como o Dr. António da Cruz Rodrigues e José Luís Pechirra. Este último, aliás, igualmente esteve na origem de um opúsculo largamente distribuído pelo Pais e que se intitulava "PCP um Partido Fascista", subscrito pelo pseudónimo José V. Claro.
Tal como a revista "Resistência", o MPP tinha como principais centros de implantação os meios católicos do interior e norte do País. Nos seus planos de acção se incluía ainda uma campanha nas aldeias a “desmascarar” os cursos de alfabetização.
O MPP colaborou, finalmente, , com a manifestação da "Maioria Silenciosa".


P. S. – Fartei-me de rir com aquela descoberta sobre o Dr. Pechirra! Andou meio país a perguntar-se quem era o “José V. Claro”, e zás!, os nossos militares revolucionários descobriram logo que quem via claro era o Pechirra. Ah valentes militares sem sono!

ACÁCIAS RUBRAS

Era uma vez ...
Era uma vez uma bela cidade debruçada sobre as águas azuis de uma grande, vastíssima baía, saída de sete rios, entrada para sete mares. Nela vivia gente de todas as raças, - europeus, africanos, asiáticos - como se fossem todos de uma só raça. Nela havia templos de todas as religiões. Era uma cidade ecuménica. E, além de ecuménica, paradisíaca: Todos os anos, quando Outubro chegava, toucavam-se de lilás as copas frondosas dos seus jacarandás; semanas depois, ao romper da manhã, o Sol incendiava as suas acácias rubras.
Era uma vez uma cidade, onde toda a gente se conhecia, onde toda a gente se cumprimentava, onde toda a gente perguntava: -"como está, passou bem?,". Ninguém tinha pressa e todo a gente atravessava as ruas nos sítios onde elas deviam ser atravessadas - e só nesses.
Não havia nessa cidade - e com grande espanto das cidades suas irmãs - o uso da gorgeta. O facto de se servir uma cerveja bem gelada, de se cortar o cabelo e desfazer a barba a uma pessoa, de se deslocar de automóvel um transeunte, implicava, apenas, o custo do serviço.
Também com espanto dos outras cidades suas irmãs, havia cinzeiros nas mesas dos cafés dessa cidade. E ninguém ignorava que os cinzeiros estavam ali para receber a cinza e as pontas dos cigarros e não para serem levados para casa, como se fossem lembranças das Caldas da Rainha. Era, em suma, uma das mais civilizadas, mais bem-educadas cidades que até hoje conheci por todo o mundo.
Tinha a cidade, como todas as cidades, enormes bairros suburbanos; imensas “favelas" - mas por essas favelas qualquer pessoa passava tranquila a toda a hora; a delinquência não vivia ali. E tinha, como todas as cidades já têm, prédios muito altos, muito parecidos com armários, colmeias de cimento, ficheiros gigantescos de aço e de vidro; mas não eram prédios para neles se viver - eram prédios para negócios; para se viver, cada qual tinha a sua casa, o seu pequeno jardim, a sua varanda. Em matéria de urbanização, poucas cidades se lhe comparavam.
No campo gastronómico, essa linda cidade era famosa, pelos seus camarões fritos ou grelhados; eram bons, os camarões. E eram baratos!
Como todas as cidades, grandes ou pequenas, lindas ou feias, também essa tinha os seus segredos, a sua história-que-não-se-conta, as suas esquinas de pecado, que eram, às vezes, apenas, o pecado das suas esquinas. Mas tinha, em contrapartida, o discreto recato daqueles frutos muito doces, muito saborosos, que todavia não dispensam o talher de sobremesa ...
Agora, em cada Outubro, vejo florir num jardim vizinho de minha casa a copa desgrenhada de um velho jacarandá, trazido para Lisboa sabe-se lá por quem, sabe-se lá quando, sabe-se lá de que terra dos trópicos. Sei que tal acontece nos jacarandás da perdida e distante cidade. Sei que todos os anos, quando Outubro chega, continuam a toucar-se de lilás claro os jacarandás, para semanas depois, como sempre, o Sol incendiar as acácias rubras; fazer de cada árvore uma fogueira: Mas o resto, como é agora? O resto, como foi e para onde foi?
Nunca me recordo de como se chama agora aquela cidade. Só me lembro de que se chamava então - Lourenço Marques.

0 RECORDADOR


A pequena crónica acima transcrita foi publicada há 22 ou 23 anos no semanário “A RUA” (não sei a data, porque a encontrei num recorte sem data). Saiu numa coluna intitulada “Do passado ao presente”. Também não tenho a certeza da identidade de quem a escreveu; embora as opções sejam poucas ...
Publico-a hoje aqui lembrando a memória saudosa de António Maria Zorro e de Abel Tavares de Almeida; e com um aceno de amizade para José Maria Zorro, José Maria Tavares de Almeida, e, sempre, Cristina Câmara.

Quarta-feira, Novembro 19, 2003

Papéis Velhos

Constatando que o Dr. Cruz Rodrigues tem vindo a puxar pelas memórias, e porque a história sempre foi uma das minhas paixões, resolvi ajudar recorrendo a material de arquivo.
E, como se verá, a fontes indiscutivelmente autorizadas. Nada menos que o pomposo e solene “Relatório do 28 de Setembro de 1974”, editado pelo Movimento das Forças Armadas, no ano da desgraça de 1975, no qual a “comissão ad hoc encarregada de investigar os acontecimentos do 28 de Setembro” deu a conhecer ao país e ao mundo as malfeitorias de que tinham sido capazes as negras forças da reacção no período subsequente à alvorada libertadora – até ao dito 28 de Setembro, altura em que as forças da liberdade se tinham encarregado de pôr fim a tais desmandos, pondo a bom recanto, em levas prisionais de centenas de cada vez, os malfeitores que não puderam ou quiseram atempadamente colocar-se no seguro do exílio.
Por agora fica só aqui uma pequena amostra; a fls. 23 e 24 figuram uns trechos directamente relacionados com o que tem vindo a ser publicado na Aliança Nacional. Ora lá vai.

“Por agora, detenhamo-nos na enumeração de alguns dos factos mais significativos apurados, após termos procedido à análise de número considerável de documentos e termos apreciado as declarações de detidos e outras pessoas chamadas a depor.
A matéria de que dispomos permite afirmar, desde já, que manobra de tal envergadura fora objecto de preparação consciente e responsável. Com efeito, a partir de fins de Julho, o País começou a assistir a uma ofensiva orquestrada pela extrema direita, que se manifestava nas inscrições provocatórias, na difusão de boatos alarmistas, numa ampla afixação de cartazes com palavras de ordem reaccionárias e ainda, com especial relevo, através de uma certa imprensa identificada com o seu ideário. Nesta imprensa se destacaram os periódicos "Tempo Novo" (órgão do Partido Liberal), "Tribuna Popular" (órgão do Partido do Progresso) e "Bandarra", que pretendia apresentar-se como independente para se poder afirmar "imprensa livre".
4. Este último - propriedade da "Editorial Restauração" que meses antes suspendera a publicação de um outro semanário cronicamente deficitário , e que também lhe pertencia, "O Debate" - merece uma referência particular, seja pela forma opulenta com que se apresenta, seja pela matéria criminosa com que preenche as suas páginas.
Quanto ao primeiro aspecto - o do financiamento do luxo das edições - refira-se desde já que o Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa aceitou duas livranças de quatrocentos mil escudos, subscritas pelos administradores da editorial.
Este empréstimo justificava-se, uma vez que o movimento da empresa não era de molde a proporcionar-lhe lucros que pudessem cobrir os custos do semanário. Diga-se ainda, a propósito, que dela são accionistas preponderantes Pedro Soares Martinez, Bernardo Mendes de Almeida (Conde de Caria) e Filipe de Bragança.
Quanto ao segundo aspecto - o da matéria escrita, onde se multiplicavam as provocações à população e ao Governo Provisório e tendo como constante a agressão ideológica, realizando assim uma das finalidades da citada ofensiva da extrema-direita, mais exactamente, a preparação de um clima social e psicológico propício ao êxito da manobra.
O autor desses textos é Manuel Múrias, salazarista dos mais convictos, responsável, juntamente com Míguel Freitas da Costa, pela orientação deste periódico, o qual, na edição com a data de 28 de Setembro, anunciava implicitamente a vitória sobre as forças democráticas.
5. Além destes três citados jornais, muitos outros colaboraram na propagação do clima contra-revolucionário. Uns, ligando-se directamente a elementos activos de partidos reaccionários e outros, apenas por identificação ideológica.
É curioso citarem-se alguns, para exemplo, sem se esgotar, porém, a sua enumeração. Assim, referimos de Lisboa "A Resistência" e o "Economia e Finanças", de Braga "O Clarim", de Ovar o "João Semana", de Valença do Minho "O Valenciano", de S. Tiago (Seia) o "Mensageiro Paroquial", de Beja o "Jornal do Sul", o "Jornal da Bairrada", o "Vilaverdense", o "Jornal de Famalicão".
Seria longa a lista de publicações que procuravam denegrir a nova ordem portuguesa. Em especial no Minho, encontramos muitas outras que poderíamos abarcar nesta referência. Julgamos desnecessário prolongá-la, pois o teor de muitos outros jornais de província facilmente evidencia o seu reaccionarismo”.


Creio que está esclarecido o mistério das letras que nunca foram apresentadas a pagamento pelos novos responsáveis do Banco; pura e simplesmente a “comissão ad hoc” tinha-se apoderado delas como documentos comprovativos dos crimes da reacção, e nunca mais as devolveu. Perderam-se. E deixaram de existir para o banco: não estavam na instituição!
Muito mais existe no delicioso relatório, no mesmo estilo de detective de caserna. Mas lá iremos. Em pequenas doses.

César escuta como cantas

É preciso que canteis com o folgo poderoso
com que canta o mar as suas mais roucas marés
porque na planície floresceu uma voz que não perece com o vento
uma voz de homem dourada como o sol
que vem dizer como hão-de ser escritos os vossos corações de homens.
É preciso que canteis
enquanto reste um sangue que soluce
uma espiga que não dê pão
uma terra que não tenha o nosso nome.
É preciso.

Quisera que existisse uma árvore cujos ramos
nunca tivessem ouvido o abraço do vento.
Saltarias como potros à sua primeira voz
e mesmo no tempo da neve dura
dariam flores vermelhas como lábios.
É ele, sabeis?, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis.
Nasceu essa voz na planície quando num céu de carvões
a morte entornava os seus poços assassinos.
Não veio essa voz para fantasmas nem para os peitos secos
pois nasceu para homens com asas
e o coração ardente como um licor proibido.
Para nós veio essa voz e por isso cantamos com o vigor real dos robles
até que todo o sangue corra nas veias
até que todas as espigas amadureçam
até que todas as terras digam o nosso nome.
Com as nossas camisas azuis
com os nossos mortos parindo terra debaixo dos nossos pés
com os nossos corações recentes como filhos
sobre o mundo nos vemos como ressuscitamos.
É certo que cantaremos até ao fim.

Oh, tu!, essa formosíssima voz que não cessa!
Oh, tu!, a quem os homens chamam
vem, vem cantar connosco as canções do teu próprio sonho.
Todos quereríamos ter-te nas nossas gargantas
para que à tua carne passasse o tremor dos nossos gritos.
Neles soa o teu nome
como uma espada de César contra um bosque de chamas.
Ouve-nos cantar desde esse bosque
onde foste vencer o teu último sonho.
Cantamos porque tu entre nós
deixaste arder o teu corpo soberano.
É preciso que cantemos até ao fim.
Que José António saiba que não há medo
nem cobras nem lodo nem fome crua.
Que cantemos até que não falte
nem um coração de homem escrito à sua palavra.
Porque é ele, sabeis!, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis como canta o mar as mais roucas marés
porque ele escuta como ressuscitamos.


ÁLVARO CUNQUEIRO
(versão portuguesa de ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, publicada no semanário “A RUA”)

Intervenção Nacionalista

Em Junho de 1980, através de um comunicado enviado aos jornais, deu a conhecer a sua existência uma nova organização política, a “Intervenção Nacionalista”.
A comissão organizadora então designada era constituída por Armando Costa e Silva, Goulart Nogueira, Rodrigo Emílio e Walter Ventura, e estava encarregada de “promover os trabalhos necessários para estruturar e constituir o Movimento”.
Como coordenadores dos diversos departamentos ficaram nomeados Abel Tavares de Almeida, António José de Brito, António Paulo Ruckert Moreira e Caetano de Mello Beirão.
No seu manifesto a "Intervenção" declarava com ênfase “rejeitar qualquer fórmula que, ao sabor do falso realismo, se traduza em comprometer os princípios e em sacrificar os objectivos últimos, na mira de sucessos tácticos necessariamente precários ou de resultados inevitavelmente ilusórios, como é o caso da chamada “Frente Nacional”.
Com clareza ficava assim à vista o que tinha sido o detonador próximo desta intervenção: a “Frente Nacional”, tentativa também ela efémera de organizar o espaço à direita do regime e que tinha sido posta em marcha no ano anterior (houve eleições parlamentares em Dezembro de 1979), com orientações que chocaram o sector doutrinariamente mais intransigente do nacionalismo português.
Nota-se aliás a semelhança da situação com a existente em 1974 com o Movimento Federalista Português, em que essencialmente a mesma gente que fundou em 1980 a “Intervenção Nacionalista” tinha então criado o “Movimento de Acção Portuguesa” – também em nome do combate ao confusionismo ideológico e à cedência doutrinária em que seguiam antigos companheiros de percurso.
Do que foi este debate não vou fazer aqui o relato – assinalando apenas que Manuel Maria Múrias empenhou-se particularmente em apoiar o projecto da Frente Nacional, mobilizando para isso o semanário “A Rua”, enquanto outros sectores, como os jovens do Movimento Nacionalista, então dirigido por Vítor Luís, Nuno Rogeiro e Luís Andrade, rejeitavam essa via que reputavam de eleitoralista e oportunista.
A “Intervenção Nacionalista” apresentou-se ainda ao país em conferência de imprensa no dia 10 de Julho de 1980, promovida pelo Movimento Nacionalista mas que acabou por ser conjunta, reafirmando aí as suas teses.
O movimento viria a ter vida curta, não chegando a abrir sede ao público. Como se verifica dos seus folhetos de divulgação indicava para qualquer contacto a Rua Costa Pinto n.º 42 em Paço d’Arcos, que era a residência do saudoso Caetano Beirão (meu querido e inolvidável descobridor de tartéssios, infatigável cata-cacos da arqueologia do sul).
Viria também a utilizar por cedência de favor um andar na Rua António Enes, perto da maternidade Alfredo da Costa.
Cito um trecho do boletim da Intervenção:
“Um país que tudo perdeu não pode ter uma política externa conservadora, pronta em favorecer a estabilização internacional, apressada em submeter-se às situações criadas e em ceder aos poderes de facto.
Não nos interessa a manutenção do mapa, mas sim que ele seja recomposto. Não nos interessa o fortalecimento dos poderes tais como estão, mas sim que se desentendam sobre os despojos.
Da agitação e da mudança, Portugal pode obter algo ou não. Se as coisas se alterarem, poderá surgir alguma via de regresso ou não haver. Existe uma possibilidade positiva. Mas da acalmia e da aceitação resignada é que nada temos a esperar.
A realidade e o facto são dados. Existem diversas maneiras de os encarar, de agir sobre eles e de mover-se entre eles.
Realismo é, às vezes, um nome falsamente invocado para o acto de quem é curto de vista; outras vezes, redução a um modo cómodo; outras, um alibi”.

Terça-feira, Novembro 18, 2003

Mestre Alberto Cutileiro

Não sei se algum dos leitores foi alguma vez afectado pelo vírus do coleccionismo, do modelismo, ou a mania das miniaturas, da construção, da reprodução à escala - ou se tem algum amigo assim, doido por soldadinhos de chumbo, uniformes, kits de aviõezinhos e tanques, sonhando reproduzir batalhas e regimentos, enchendo garagens e sótãos com prateleiras alinhadas em parada, ou de peças desalinhadas do equipamento militar a montar e a pintar, de mistura com óleos, tintas e pincéis.
Deve ao menos conhecer um doente assim.
Nesse caso, não erro se afirmar que já ouviu falar da "Casa do Cavaleiro à Porta".
É um lugar lendário, um centro de culto onde todos vão procurar o que em mais sítio nenhum se encontra, ou o esclarecimento e a informação impossíveis de encontrar.
É assim há muitas décadas. Nenhum maníaco no país inteiro desconhece a "Casa do Cavaleiro à Porta", na Rua das Furnas, em São Domingos de Benfica, bem perto da Igreja das Furnas e do Jardim Zoológico de Lisboa, anunciada na rua por aquela singular tabuleta com o cavaleiro pintado.
E certamente que aquele que falou do lugar falou também da figura mítica que ali se encontrava; o sumo sacerdote daquele culto, o supremo artista das reproduções e dos restauros, o sábio que podia desfazer qualquer dúvida sobre a minúcia que faltava. Curiosamente, a generalidade dos fanáticos que falavam na casa e no personagem ignoraram sempre o nome; mencionavam sempre o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta .... e também não sabiam que do mundo inteiro afluíam solicitações idênticas.
Para a minha geração, distraída, ele foi sempre e apenas o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta; faleceu ontem, com 89 anos.
Para quem o conhecia mais de perto era o Mestre Alberto Cutileiro, artista eborense, antigo Director do Museu de Marinha, exímio desenhador, pintor e restaurador, com atelier na capital.

“Um marquês em mangas de camisa que chamava camaradas aos operários”

Passando no dia 20 de Novembro mais um aniversário do fuzilamento de José António, no pátio da prisão de Alicante, em 1936, resolvi afixar aqui as palavras do seu testamento político, escrito por ele a 18 de Novembro de 1936, após ter conhecido a decisão que o condenava à morte (justiça célere e expedita, como por vezes se reclama em Portugal: sentença a 17, execução a 20 – sem apelo nem agravo nem outros expedientes dilatórios).
O título acima é uma frase desdenhosa do conhecido historiador marxista Hugh Thomas, que sempre me pareceu conter mais verdades na sua ingénua tentativa de catalogação caricatural do que foi capaz de compreender o seu ilustrado autor.
Aqui ficam então os trechos relevantes desse testamento político (a tradução é idónea, de José Miguel Alarcão Júdice).

“Testamento redigido e assinado por José António Primo de Rivera y Saenz de Heredia, de trinta e três anos, solteiro, advogado, natural e residente em Madrid, filho de Miguel e Cacilda (falecidos), na Prisão Provincial de Alicante, a dezoito de Novembro de mil novecentos e trinta e seis.
Condenado ontem à morte, peço a Deus que, se não me livrar desse transe, me conserve até ao fim a coragem da resignação com que o aguarde e, ao julgar a minha alma, o não faça pelos meus merecimentos, mas pela medida da sua infinita misericórdia.
Assalta-me o escrúpulo sobre se não será vaidade e excesso de apego às coisas da terra querer neste momento apreciar alguns dos meus actos; mas como, por outro lado, arrastei a fé de muitos camaradas meus em número muito superior as minhas possibilidades (bem conhecidas por mim, ao ponto de escrever esta frase com a mais clara e estrita sinceridade), e como até levei muitos deles a arrostar riscos e responsabilidades enormes, parecer-me-ia grande ingratidão afastar-me de todos sem nenhuma explicação.
Não é preciso repetir agora o que tantas vezes disse e escrevi sobre o que os fundadores da Falange Espanhola queríamos que ela fosse. Espanta-me que, já passados três anos, a imensa maioria dos nossos compatriotas persistam em julgar-nos sem ter começado, nem ao de leve, a entender-nos e até nem ter procurado nem aceitado a menor informação. Se a Falange se consolidar duradouramente, espero que todos percebam a dor por se ter derramado tanto sangue, por não se nos ter aberto uma brecha entre a raiva de um lado e a antipatia do outro. Que esse sangue derramado me perdoe a parte que tive em provocá-lo, e que os camaradas que me precederam no sacrifício me acolham como o último deles.
Ontem, pela ultima vez, expliquei ao Tribunal que me julgava o que é a Falange. Como em tantas ocasiões revivi os velhos textos da nossa familiar doutrina. Uma vez mais, observei que muitíssimas caras, inicialmente hostis, se iluminavam, primeiro por assombro e depois com simpatia. Nos seus olhos parecia-me ler esta frase: "Se soubéssemos que era assim, não estávamos aqui!» E, certamente, não estariam ali, nem eu ante um Tribunal Popular, nem outros matando-se nos campos de Espanha. Não era já possível, no entanto, evitar isso, e eu limitei-me a retribuir a lealdade e a valentia dos meus queridos camaradas, ganhando para eles a atenção respeitosa dos meus inimigos.
Isso fiz, e não procurar para mim, com falsa nobreza, a reputação póstuma de herói. Não me considerei responsável por tudo nem me ajustei a nenhuma outra variante de padrão romântico. Defendi-me com os melhores recursos da minha profissão de advogado. Talvez venha a haver comentadores póstumos que me censurem não ter preferido a fanfarronada. Cada um faz o que lhe parece melhor. A mim, para além de não ser actor principal em tudo que está a decorrer, parecia-me monstruoso e falso entregar sem defesa uma vida que ainda podia ser útil e que me não foi concedida por Deus para a queimar em holocausto à vaidade como girândola de fogo de artifício. Além de que não descia a ardis reprováveis nem comprometia ninguém com a minha defesa, antes, cooperava na de meus irmãos Miguel e Margot, processados comigo e ameaçados de penas gravíssimas (...).
Outra coisa tenho de rectificar. O isolamento absoluto para com o exterior em que vivo desde a altura da revolta militar foi quebrado por um jornalista norte-americano que, com permissão das autoridades daqui, me pediu algumas declarações em Outubro. Até conhecer, há cinco ou seis dias, o processo instruído contra mim, não tive notícia das declarações que me eram atribuídas pois nem os jornais que as trouxeram nem nenhuns outros me eram acessíveis. Ao lê-las agora, declaro que entre os vários parágrafos que se dão como meus, designadamente fiéis na interpretação do meu pensamento, há um que afasto completamente: o que censura os meus camaradas da Falange por cooperarem no movimento insurreccional com «mercenários vindos de fora». Nunca disse nada de semelhante, e ontem mesmo o declarei solenemente no Tribunal, apesar de me prejudicar por o dizer. Eu não posso injuriar as forças militares que prestaram em África enormes serviços a Espanha.
Nem posso lançar daqui censuras a camaradas que ignoro estarem agora sábia ou erradamente dirigidos, mas que de certeza tentam interpretar na melhor boa fé, pese embora a incomunicação que nos separa, as minhas regras e doutrinas de sempre. Queira Deus que a ardorosa ingenuidade dos meus camaradas não seja nunca aproveitada noutro serviço que não o da Espanha grande com que sonha a Falange.
Oxalá seja o meu sangue o último que se perca em discórdias civis. Oxalá o povo espanhol, tão rico em qualidades profundas, encontre já na paz, a Pátria, o Pão e a Justiça”.


Segunda-feira, Novembro 17, 2003

MÚSICA BRASILEIRA

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.


Olavo Bilac, “Poesias”

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Aproxima-se o tradicional convívio do 1º de Dezembro!
Está em marcha a organização do jantar e ceia, que são de obrigação.
Preparem-se, e visitem o site dos Antigos Alunos, onde aproveitam para se informar - e inscrever.

Eça de Queiroz em Évora

Os factos assentes e geralmente conhecidos são simples e fáceis de resumir.
José Maria d’Eça de Queiroz formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1866. Em Dezembro desse ano, com 21 anos, surge em Évora expressamente para fundar e dirigir o bissemanário da oposição “Districto de Évora”.
Logo a 6 de Janeiro de 1867 foi publicado o primeiro número do periódico. Daí em diante dedicou-se a escrever o jornal, que lá foi saindo todas as Quintas-feiras e Domingos.
A redacção e administração (substantivos colectivos que serviam, como muitas vezes ainda acontece, para encobrir realidades efectivamente singulares) estavam instaladas na Praça D. Pedro IV, n.º 3-A. Ou seja, traduzindo para os eborenses de hoje, ficavam naquele primeiro andar por cima da Pastelaria Violeta, mas com entrada pela Praça Joaquim António de Aguiar, o popular Jardim das Canas, onde está aliás colocada uma lápide evocativa da presença do escritor nesta cidade.
Na edição de Domingo dia 4 de Agosto de 1867 o jornal publicava uma curta nota de despedida em que Eça secamente declarava que “desde o dia 1º de agosto deixou de ser o redactor e diretor político do jornal “Districto de Évora”, e, desligado da empresa fundadora, dá como terminada a sua responsabilidade material, moral, politica e litteraria”.
Esse número de 4 de Agosto já ostentava como “proprietário e responsável” Francisco da Cunha Bravo, a quem a empresa tinha sido trespassada.
Portanto, o último número da responsabilidade de Eça foi o de Quinta-feira dia 28 de Julho de 1867.
Entretanto, nesse mês de Agosto de 1867 o nosso escritor regressou para Lisboa, de onde tinha vindo pouco mais de sete meses antes.
Tudo isto é por demais conhecido, e felizmente estão também publicados os escritos do “Districto de Évora”.
Mas aqui ao Manuel Azinhal sempre o intrigou o que nesta história não é conhecido (pelo menos não encontrei explicado em parte nenhuma, pode ser que seja ignorância crassa).
Repare-se na expressão usada por Eça: declarava-se desligado do jornal “desde o dia 1º de agosto”; não desde o dia 28 de Julho em que tinha saído o último número dirigido por si.
Terá isto algum significado? Seria que o contrato que o trouxe tinha duração convencionada até final do mês de Julho?
Não sei. Mas não tenho dúvidas que contrato havia. Dizendo claramente (esperando que ninguém se ofenda...): Eça de Queiroz, que nada ligava a Évora e que nunca aqui havia posto os pés, era evidentemente uma caneta alugada.
Um rapaz talentoso, que já se tinha feito notar pela sua queda para as literatices e para a polémica, que estava recém formado, e desempregado. Alguém terá conhecido o moço, já apontado como brilhante valor da nova geração, e que em Lisboa procurava glória – e no imediato pelo menos algo que lhe garantisse a sobrevivência – e lhe fez uma proposta que ele no momento não podia recusar..
Teria que ser alguém que frequentasse o meio social, político e literário lisboeta. E alguém com interesses e actividades políticas na oposição de então. E alguém cujos interesses estivessem sediados ou fortemente ligados a Évora.
E, evidentemente, alguém com capacidade financeira para criar e sustentar um jornal em Évora, e contratar, instalar e sustentar também o encarregado de tal tarefa, o nosso José Maria.
Quem seria que pagou o “Districto de Évora”, e pagou também, consequentemente, a estada de Eça de Queiroz em Évora?
Estas são as questões mais relevantes para a história do “Districto de Évora”, e para a compreensão da política local nesse curto período.
Não sendo eu um conhecedor profundo da vida política e social da cidade no período em causa, tenho no entanto uma suspeita. Só vejo um capitalista que a meu ver reunia os requisitos todos que enunciei, e com interesses políticos e económicos em Évora que justificavam o empreendimento. Mas é apenas palpite, intuição – nada tenho para o comprovar. Deixo o assunto para quem saiba mais.

Domingo, Novembro 16, 2003

Fala apócrifa de Camões para hoje

Exaltei o passado, num presente
Triste, apagado, vil.
Mas havia o futuro, mar em frente,
Para epopeias d’África e Brasil.

Doído, condenei,
A cobiça e a traição.
Mas tinha, ao alto, um rei
Por pai e capitão.

Só quando a pátria amada
Cedeu às ambições alheias,
A minha voz ficou calada,
Parou o sangue em minhas veias.

Só quando o rei de Portugal
Deu a alma ao Céu
E o corpo nu no areal
Não mais, musa, não mais fui eu.

Quis quanta vez ressuscitar!
Bastava um rasgo de heroísmo,
Asa de esperança, súbito, a rasar
O abismo.

E logo o pulso me pulsava,
A voz subia na garganta
E o que há de mim em mim gritava:
Canta!

Mas novas nuvens da desgraça
Encobriam as praias portuguesas
E o ímpeto da raça
Naufragava em baixios e baixezas.

Hoje, o presente
É ainda mais vil e apagado e triste
Porque, no mar em frente,
Nenhum futuro existe.

A cobiça e a traição,
e não um rei, é hoje quem governa:
dorme, pois, para sempre, coração!
Sê tu, silêncio, a minha pátria eterna!


António Manuel Couto Viana
(publicado originalmente em “A RUA”)

O mito da igualdade

Que todos os homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Quando são precisos funcionários públicos, até os governos mais “democráticos” fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos teoricamente iguais. Mas, na realidade, quando abstractamente analisamos a sociedade “democrática”, pensamos ou agimos em termos de igualdade dos homens, ou pelo menos – o que na prática vem a ser o mesmo – procedemos como se estivéssemos certos de que os Homens são iguais.
A quantidade de tempo durante o qual eles estão empenhados em pensar ou agir politicamente é muito reduzida quando comparada com todo o período das suas vidas; mas as breves actividades do homem político exercem uma influência desproporcionada sobre a vida diária do homem trabalhador, do homem a divertir-se, do homem pai e marido, do homem senhor de propriedades. Daí a importância em se saber o que ele pensa na realidade e porque é que o pensa.
Os políticos e os filósofos políticos falaram, muitas vezes, acerca da igualdade do Homem como se fosse uma ideia necessária e inevitável, uma ideia em que os seres humanos têm de acreditar, exactamente como têm de acreditar em noções tais como peso, calor e luz. O Homem é “por natureza livre, igual e independente”, diz Locke, com a segurança de alguém que sabe que está a dizer qualquer coisa que não pode ser negada. Era possível citar literalmente milhares de afirmações semelhantes. “É preciso ser-se louco”, diz Graco Babeuf, “para negar tão manifesta verdade”.
No entanto, do ponto de vista do facto histórico, a noção de igualdade humana é um produto recente, e, longe de ser uma verdade directamente apreendida e necessária, é uma conclusão tirada de assunções metafísicas preexistentes. Nos tempos modernos as doutrinas cristãs da irmandade dos Homens e da sua igualdade perante Deus foram invocadas em apoio da democracia política. Muito ilogicamente, no entanto. As famílias têm os seus patetas e os seus homens geniais, as suas ovelhas ranhosas e os seus santos, os seus êxitos mundanos e os seus falhanços. A igualdade perante Deus não significa a igualdade entre os Homens pela simples razão de que comparadas com uma quantidade infinita todas as quantidades finitas podem ser consideradas iguais. Perante Deus, ele é o ser absoluto e objectivo; é o portador de valores eternos. Mas na vivência dinâmica é o ser subjectivo e diferente que todos conhecemos da realidade prática.
Os escritores que no decurso do século XVIII forneceram à moderna democracia política a sua base filosófica não se voltaram para o cristianismo para encontrarem a doutrina da igualdade humana. Eles eram, quase sem excepção, escritores anti-clericais para quem a ideia de aceitar qualquer auxílio da Igreja teria sido extremamente repugnante. Além disso, a estrutura da Igreja, orientada e organizada para as suas actividades terrenas, não lhes ofereceu qualquer auxílio, mas sim uma franca hostilidade. Ela representava, ainda mais que o estado monárquico e feudal, aquele princípio medieval, hierárquico e aristocrático contra o qual, precisamente, os igualitários protestavam. A origem da ideia moderna da igualdade tem de encontrar-se na filosofia de Aristóteles, que na verdade, como veremos, não era lá muito “democrática”. Vivendo, como o fazia, numa sociedade detentora de escravos, ele considerava a escravatura como um estado necessário das coisas. Estamos portanto perante uma contradição. Esta incoerência revelar-se-ia ao longo da história, na medida em que os bem-pensantes de todas as épocas souberam pôr de um lado o romantismo, se assim se lhe pode chamar, das suas concepções metafísicas sobre o Homem, e do outro lado a realidade – a sua vivência de classe -, a contradição evidente da igualdade humana. No entanto esta falácia romântica viria a influenciar decisivamente o espírito esclarecido dos demo-liberais, pois é na teoria da igualdade humana que a democracia moderna encontra a sua justificação filosófica e uma parte, pelo menos, da sua força motriz. Os preconceitos “democráticos” parecem, àqueles que os acarinham, sagrados, bem como moralmente certos, verdadeiros. A democracia é natural, boa, justa, progressiva, e assim por diante. Os seus opositores são reaccionários, maus, injustos, anti-naturais, etc. Para um vasto número de pessoas, a democracia tornou-se uma ideia religiosa que é dever tentar pôr em prática em todas as circunstâncias, indiferentemente dos requisitos práticos de cada caso particular. A metafísica da democracia, que na origem próxima foi a racionalização dos desejos de certos homens, como Rousseau, por exemplo, para melhorarem a sua sociedade, tornou-se numa teologia universal e absolutamente verdadeira, que “é do mais alto dever de toda a Humanidade pôr em prática”. Assim, Portugal tem de ter a sua democracia, não porque o governo democrático seja melhor do que o governo indemocrático que existia (verifica-se que se está a tornar incomparavelmente pior) mas porque a democracia, em toda a parte e em todas as circunstâncias, está certa.
Tratámos até aqui do pressuposto primário de onde flui toda a teoria e prática da democracia – que todos os homens são iguais. No entanto as investigações científicas do nosso século permitem tirar conclusões completamente contrárias. Desde que se abandonem os preconceitos metafísicos e se desça à investigação do biotipo humano, a realidade é bem diferente.

(in “Camarada”, “jornal do combate nacional-revolucionário”, Maio de 1976. Como se verifica pela análise dos textos, o autor é o mesmo dos dois já atrás publicados sobre a tecnocracia. Não digo o nome, para que não fiquem a saber tanto como eu).