Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Casticismos

Sempre oportuno e actual, o “Nova Frente” defende que se adoptem os termos “blogue” e “postal” para substituir os ingleses “blog” e “post”.
Também me parece acertado, visto que, como ele explica, uma língua é um organismo vivo e evolutivo, que em cada dia se confronta com a necessidade de adaptação a novas realidades, umas vezes criando outras importando.
E melhor é a adaptação criteriosa que a resistência escusada.
Ponto é que haja bom senso e bom gosto.
Aqui há uns anos a academia espanhola decretou que era de usar "vikingo" em vez de "viking"; sei disso porque num dos seus livros Jorge Luís Borges comenta o facto com ironia ácida, dizendo que não consegue imaginar-se a ler romances de Kiplingo ...
E a propósito ocorre-me uma recordação pessoal.
António Lopes Ribeiro adorava analisar e discutir estas coisas das palavras, a etimologia, a grafia, a semântica, os estrangeirismos ...
Uma noite, com o seu proverbial bom humor, surgiu com uma mão cheia de alterações ao português corrente, de cuja bondade pacientemente tentou convencer os presentes.
Confesso que já não me lembro das novidades que propunha para substituir uma data de estrangeirismos que trazia elencados; fixei, não sei porquê, que ele não gostava da palavra “pisca-pisca” (que nem é estrangeirismo) e pugnava pela sua substituição por “tremeluzim”, termo que encontrara não sei onde e que achava lindo; e acima de tudo fixei a discussão final, quando se chegou à horrorosa palavra francesa “soutien”, que ab initio todos concordavam que era imperioso banir.
Mas a teimosa resistiu; a certa altura houve um consenso que apontava para a palavra “parapeito”, que se afigurou apropriada; mas ... hélas! a dita cuja está definitivamente comprometida com outras significações.
E “suporte”, ou “sustento”, com maior proximidade literal, também não podiam ser mobilizadas para este efeito.
Perante o fracasso, ainda houve quem alvitrasse “pára-bolas”. Mas, embora desconsoladamente, foi impossível deixar de reparar que não era de muito bom gosto.
E lá ficou “soutien”.


Bruxo!

Como as palavras ganham mais força se ditas por outros, continuo a transcrever análises de reconhecidas personalidades públicas, que, não sei o que lhes deu, andam notavelmente inspiradas.
Agora foi o líder parlamentar do PSD, que acusou o PS de transformar a Assembleia da República numa «casa do Big Brother» e de organizar pressões sobre a Justiça.
«São inadmissíveis os comportamentos públicos dos últimos dias, na sequência de uma decisão judicial que, como qualquer outra vinda dos tribunais, cumpre respeitar. Esses comportamentos são intoleráveis porque utilizaram a sede da democracia para fazer autênticos comícios políticos ou transformá-la numa espécie de casa do Big Brother».
Perante os deputados do PSD, o líder parlamentar Guilherme Silva sublinhou que os acontecimentos da passada semana configuram um «inadmissível exercício», ainda que implícito ou indirecto, «de pressão política», concluindo que se tratou de um «momento negro» da vida parlamentar.
Nem mais; só faltou ao digno parlamentar referir que mesmo a rapaziada do “Big Brother” ainda não foi ao ponto de partir a mobília.
Mas, arguto e observador, ainda alcançou que as tais ocorrências “degradam a imagem das instituições e da classe política junto da opinião pública”.
E eu a pensar que ninguém dava por isso ...

A desagregação do Berloque de Esquerda

Uma colecção de cromos que lentamente vai esgotando a sua diversidade, virando o disco para tocar o mesmo” – assim surge sinteticamente caracterizado o pitoresco agrupamento em texto assinado por Frederico Mira no “Saudades de Antero”.
Mais alguns extractos:
O Miguel Portas é outra vez candidato pelo BE às Europeias”.
Já tinha sido candidato ao Parlamento Europeu (ao Para Lamento Europeu); duas vezes ao Parlamento de Portugal (ao Para Lamento de Portugal) e até à Câmara Municipal de Lisboa”.
Ou é por vontade de deus, como diz o fado da outra, ou é galo ou os eleitores não querem mesmo eleger aquele bacano para lado nenhum”.
Aos poucos a direcção do BE matou as suas estruturas regionais, condicionou as seus quadros, tomou opções sem respeito pelas opiniões. Enfim foi gerindo as caras de meia duzia de pessoas conhecidas dos media, apoiando-se na capacidade política e interventiva de ainda menos Bloquistas, sobretudo abrigou-se na pessoa e na qualidade pessoal do Francisco Louçã”.
A partir de agora toca-se a corneta para a reunião do rebanho e toca a agenciar debates e encontros e números de propaganda com o Portas, ou, se for preciso para encher auditórios, lá irá o Francisco”.
Quem assim escreve não é nenhum tenebroso reaccionário, não senhor (fosse esse o caso e as verdades que dissesse teriam que ser imediatamente desclassificadas, como é de lei). Pelo contrário, ele é um dos fundadores do dito Bloco.
Fala do que sabe, e fala bem.

Mal agradecidos

Declaração solene de Ferro Rodrigues: o deputado Paulo Pedroso “não recebe lições de ética política de ninguém”.
Mas não lhe faziam mal nenhum, acho eu...

Onde é que eu já vi isto?

O socialista José Lamego acusou a dirigente do PS Ana Gomes de «insinuação reles», a propósito da sua nomeação para a administração do Iraque, onde terá uma missão que considerou de um «apóstolo desarmado».
Lamego acusou ainda Ana Gomes de estar a destruir a credibilidade do PS em matéria de política externa.
Na sexta-feira, o primeiro-ministro, Durão Barroso, anunciou a escolha de José Lamego para conselheiro para os expatriados e imigrantes na administração iraquiana, o que provocou uma dura reacção de Ana Gomes.
Em declarações à Lusa, a sucessora de Lamego no pelouro das relações internacionais do partido afirmou que a direcção socialista «é totalmente alheia» à nomeação.
«Nem sequer sabemos quem lhe vai pagar (no exercício dessas funções), se uma cimenteira, se o Governo dos Estados Unidos ou o Governo português», reagiu a ex-embaixadora de Portugal na Indonésia.
O socialista Lamego retorquiu dizendo que as afirmações da socialista Ana Gomes sobre quem lhe paga são um "impropério grosseiro", uma "insinuação reles" e "uma mentira". E concluiu declarando que "não vou devolver à drª Ana Gomes o insulto de lhe perguntar quem lhe paga para tão afanosa e sistematicamente" destruir a credibilidade do PS no tocante a política externa.
Ao estes mimos, imagens de outros tempos, de filme antigo, saltam dos arquivos da memória: José Lamego e Ana Gomes na Faculdade de Direito de Lisboa ... faltam as referências rituais à gloriosa linha vermelha do camarada Arnaldo de Matos, grande educador da classe operária, e à luta sem tréguas contra a linha negra do renegado Saldanha Sanches, traidor a soldo da burguesia, do fascismo e do social-fascismo ... mas, meus senhores! O resto está lá tudo! Isto é o antigo MRPP em todo o seu esplendor!
Quem é que pensou que eles tinham mudado?

Domingo, Outubro 12, 2003

"Estamos a viver um tempo em que ninguém já morre pela sua fé, mas em que, pelo contrário, é a fé dos outros que nos está a matar..."
(Vintila Horia, in "Viagem aos centros da Terra")

Manuel Maria Baptista Múrias

A primeira vez que o vi, em pessoa, foi na redacção de “A Rua”, num andar da Sampaio e Pina, pertinho do Liceu Maria Amália e do Rádio Clube Português.
Lembro-me como se fosse agora: ao subir o velho elevador fez-me companhia um sujeito que chamava a atenção pelo volume extraordinário – ameaçava imobilizar o ronceiro aparelho, que avançava balouçando e arfando.
Passava a meia idade, calvo, calado, olhos vivos a sobressair no rosto enorme e inchado. Vestia como um funcionário público dos anos quarenta, um apertado e antiquado fato cinzento, chapéu na mão, a condizer, colete a rebentar nos botões, gravata discreta.
Soube mais tarde que o gordíssimo personagem era Fernando Jasmins Pereira, o erudito autor do ensaio “O Estudo da História”, e de exaustivas investigações sobre a história económica da Madeira.
Lembro-me como nos divertíamos - juventude leviana e inconsciente! - com os seus requintes de erudição: a importância da cultura da cana sacarina para a economia madeirense nos séculos XVII e XVIII não estava entre as nossas primeiras preocupações. O subtítulo explicativo do livro sobre o estudo da história é, com toda a pompa, “refutação de algumas proposições de anti-história”.
Tenho mesmo um amigo que tinha o hábito de ler os artigos do Jasmins munido previamente de um dicionário; uma vez chegou junto de mim eufórico e confidenciou-me: “esta semana só precisei de ir ver catorze palavras!”.
Entrados na redacção (na verdade uma casa para habitação de bairro burguês onde se instalara uma redacção de jornal) ressaltava a presença esfuziante do pequeno Vítor Luís. Os seus talentos de caricaturista, a sua veia humorista, estavam documentados por todo o lado. O Vítor, então jovem e transbordante de entusiasmo, não era só o paginador, ou o responsável gráfico, era o benjamim do grupo, e a sua irrequietude contagiante tornavam-no querido de todo o jornal.
Sem ofensa, mas afectivamente era a mascote da instituição.
Os desenhos do Vítor, e as piadas, surgiam nos locais menos esperados (não, nesse dia não fui à casa de banho...)
Ao avançar no corredor uma porta de gabinete ostentava um letreiro a pedir “Bata no Talone antes de entrar”. Olhei intrigado, até perceber que as palavras “ no Talone” tinham sido intercaladas no letreiro original; nessa altura saiu de dentro do gabinete, mal humorado, o então administrador do jornal, João Talone.
Uma ou duas portas adiante outro solene aviso: “Caverna do Urso”. Antes tinha sido gabinete do director.
Segui, e fiquei uns instantes à conversa; lembro-me que estava o Walter Ventura, enfiado num velho sofá, uma perna cruzada sobre a outra a exibir a bota de elástico, a poluir a atmosfera já saturada de fumo e nicotina. Filosofava sobre qualquer coisa, com pouca fé e metódico cepticismo, como é seu uso.
De outro ponto da casa ouvia-se um vozear grosso de chefe zangado, a ralhar, irritado, em agitação exigente e insatisfeita.
Encolhi-me, apreensivo com o barulho, mas na sala o pessoal da casa encolhia os ombros, e entreolhava-se com sorrisos irónicos; as cóleras eram normais, e ninguém ligava excessivamente.
De súbito, entrou na sala o esperado urso: impressionava logo pela estatura, e estacou, com cara de poucos amigos. Levantei-me e empertiguei-me, mais respeitoso que os demais circunstantes, olhando-o de frente, embora um palmo mais abaixo.
Apresentaram-me então o senhor director, Manuel Maria Múrias.

Sábado, Outubro 11, 2003

Neste Domingo, 12 de Outubro:

Santa Missa segundo o rito tradicional latino-gregoriano:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31

Em Monforte: às 18. 30 horas, na Capela de Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

AINDA O PAGODE


Os cinco ou seis partidos no poder constituem outras tantas imposturas fatigantes — e fatigantes a tempo inteiro!
Não admira.
É da natureza dos partidos políticos (e aqueles que temos não fogem à regra...) serem formados à base de indivíduos que quanto mais falam mais mentem, já que mentem com quantos dentes postiços têm na boca sempre que a abrem — e a verdade é que a têm permanentemente aberta!...
Desovam onde é de lei que desovem partidos; e, entre nós, está escrito que isso seja no sepulcro caiado de São Bento.
Como o próprio nome da firma dá a entender, é lá que se amassa — mal e porcamente — o muito apreciado pão-de-São-Bento, já agora sobejamente conhecido da rapaziada, visto ser o pão nosso que cada dia nos é dado a tragar, na sua versão mais remessa ou empezinhada, pelos referidos ajuntamentos.
Com respeitinho a estes, estão lá estabelecidos, de casa e pucarinho, ao lado uns dos outros, já vai em seis anos, e moer a paciência à gente é o programa comum que os move e anima.
Como nunca fui dado a salivar palavras — e, muito menos, palavras de vida fácil... —, ainda agora desconheço (felizmente!) o que seja dispor de «lugar marcado» no ovante recinto. Falo dele, por isso mesmo, um pouco de cor...
Mas, ao menos por fora, conheço eu de ginjeira (olá se conheço!) o atlético bloco, e até já de uma vez o mandei, por sinal, com todas as letras, para o grande e realíssimo arquitecto que o erigiu. (Porque, a mim, ninguém me tira da ideia que aquilo foi coisa do Grande Arquitecto — e de mais ninguém.)
Mas se é exacto que não sou o que se chama um homem de palavras, em contrapartida prezo-me — e muito! — de sempre ter sido um homem de palavra. E disso é que não há parlamentos...
Um dia, ainda perco o respeito todo que devo a mim próprio e trato de habilitar-me a um bom assento naquele «parque de diversões», candidatando-me a deputado pelo círculo Eça de Queiroz. E sabem vocelências para quê?...
— Primeiro que tudo, com o fim de decretar a aplicação imediata de um valentíssimo imposto sobre o uso (e o abuso) da palavra; e, de caminho, propor que o monstrológico areópago seja declarado, logo ali, monumento de «inutilidade pública».
Feito isso, hei-de passar a ser o orador mais calado de toda a Câmara.

Advertência Final:
Há, nos seres humanos, uma necessidade vital que os políticos ignoram, mas que não ignora os políticos: é a vontade de rir.
Não foi senão ela que me ditou estas linhas.


Rodrigo Emílio (In A Rua, n.º 197, pág. 22, 20. 03.1980)

Sexta-feira, Outubro 10, 2003

Regresso

Depois de muitas e variadas postas tratando dos assuntos da pátria, é altura de recolher a casa.
Évora, fascínio e nostalgia.
Presente sempre, quando longe nos pensamos, ausência esfíngica, misteriosa e indefinível, quando presentes nos julgamos.
Mistério puro, em enigma silencioso feito de pedras e de sombras.
Conheci um poema, deveras a propósito, e não resisto a partilhá-lo.
Fica para meditação, nas angústias e depressões eborenses.


S. Vicente, Évora

No largo de S. Vicente em Évora há uma
esplanada que se
estende por todo o passeio fronteiro à igreja.
O largo que não é grande ficou convertido na sua
quase total extensão: mesas e cadeiras ocupam-no.
O ângulo formado pela igreja e casario estabelece
uma zona de sombra. Não deixa de ser agradável.
No entanto, eu guardo comigo uma
incompreensível oposição à cidade e não me
esqueço de um distante comentário do João
Palolo quando nos conhecemos: Évora é uma
terra construída sobre mortos. Há esqueletos sob
todas as casas e ruas. Onde quer que se escave
estão mortos. A capela dos ossos na igreja de
S. Francisco não passa de um sinal do que é na
realidade toda a cidade: mortos, cadáveres
mumificados, esqueletos, ossos. Évora a
morte..". E suspendeu o que me dizia para
concluir um pouco depois, sob evidente temor:
" A morte nunca teve voz. Não fique preso a
Évora. Évora é uma cidade de grande solidão.
Persegue-nos de uma forma duradoura, mortal.
Temos de lhe resistir, porque senão acabamos por
perder nela, para sempre, os nossos dias, como
quem procura alguém que nunca existiu ou que,
ainda, existiu menos que nós."


João Miguel Fernandes Jorge (in Alentejo não tem sombra)

Paradoxos

Acontece muitas vezes que o bom fundamento de uma decisão judicial só surge evidente quando ela é revogada. É uma espécie de prova póstuma.
Lembro-me de um caso concreto que conheci em que um sujeito que estava em prisão preventiva foi condenado em julgamento a uma pesada pena de prisão, por crimes graves. Recorreu da condenação, como é natural.
E recorreu também da sua manutenção em prisão preventiva, argumentando que uma vez que estava feito o julgamento não se justificava já uma medida cautelar desse teor: não podia certamente perturbar a aquisição de prova já feita.
O Tribunal da Relação achou bom o raciocínio, e revogou a prisão preventiva, determinando que ele ficasse a aguardar em liberdade o resultado do recurso que havia interposto.
Logo pouco tempo depois surgiu o acórdão do mesmo tribunal superior que confirmou a condenação da primeira instância. E o tribunal de primeira instância passou então mandados a fim de fazer o homem recolher à cadeia para cumprir a pena, agora já transitada em julgado, definitiva e irrecorrível.
Como seria de esperar, nesse intervalo ele tinha-se ausentado para local desconhecido. Consta que vive tranquilamente em Lourenço Marques.
De modo parecido, embora aqui quanto a uma decisão da Relação, a conduta de Fátima Felgueiras demonstrou à saciedade a bondade da decisão de a colocar em prisão preventiva. Que eram fundados os receios da sua fuga caso o processo ameaçasse dar para o torto, e que eram sérios os riscos de poderosa obstrução ao curso do inquérito, são realidades hoje por demais evidentes.
O caso de Paulo Pedroso pode bem vir a ser um destes casos.
O que se passar de ora em diante pode perfeitamente demonstrar a razão que assistia à primeira instância quanto à adequação e necessidade da medida aplicada.
Para já, o comportamento do arguido desde que saiu da cadeia, e a campanha pública desencadeada, parecem apontar para o preenchimento dos fundamentos legais para a prisão preventiva: o perigo bem concreto e evidente de "perturbação do decurso do inquérito", nomeadamente "para a aquisição, conservação ou veracidade da prova".
E ainda estamos no princípio.

Quinta-feira, Outubro 09, 2003

Será verdade?

Parece que o presidente da comissão parlamentar de ética (sim, de ética) é aquele promissor rapaz de Abrantes que dá pelo nome de Jorge Lacão Costa.
Minha Nossa Senhora! Nem eu, que sou mauzinho, inventava uma destas.

A todos os educadores

Pais, professores, público da geral: estávamos mesmo, mesmo, a precisar de um Real Colégio. Já há.
Façam favor de frequentar.

Um espectro

As agências noticiosas espalham hoje uma notícia com o título apavorante “Vasco Gonçalves reaparece”.
Vai-se a ler, e afinal não se trata de fantasmas, nem de almas penadas, mas apenas do reaparecimento público da demencial criatura que em histérico delírio nos desgovernou há uns anos atrás.
O pretexto é um jantar organizado em Coimbra pelo PCP (o que resta do sinistro agrupamento agora dedica-se à militância ajantarada – que as forças já não dão para mais, e se não for à mesa já não reúne mais do que trinta reformados).
Mas ainda assim isto fez-me lembrar os tempos em que os nossos académicos, somados a diversos pequenos e médios intelectuais, encontravam extraordinária riqueza na desconchavada oratória do camarada Vasco, e chegaram até a publicar um livro colectivo dedicado exactamente ao estudo do linguajar vasconço.
Nada de mais, porque também aquela luminária do Machel a seu tempo foi proclamado um prodígio de sabedoria e eloquência – e doutorado “honoris coisa” por Coimbra.
O culto do fantástico, da ficção, e do humor negro, já vem de longe.

Umas perguntas

Quando vejo uma multidão embasbacada a olhar na mesma direcção, tenho sempre a tendência de olhar para outro lado.
Quase sempre acontece, como no ilusionismo, que é assim que se descortina o que mais importa.
Aconteceu-me agora o mesmo, com o espectáculo organizado à volta de Paulo Pedroso por este ter conseguido a revogação da medida preventiva que lhe tinha sido aplicada enquanto aguarda o decurso do processo em que é arguido.
Saltaram-me aos olhos algumas perguntas ainda sem resposta.
Agora em liberdade decidirá o arguido Paulo Pedroso recomeçar a exercer as suas funções políticas como se não fosse nada com ele?
Quem tem pendente contra si um processo deste teor está em condições de regressar à Assembleia da República e continuar em cargos directivos no PS?
Se regressar à Assembleia o que vai acontecer quando se puser a questão de ser chamado ao processo?
Invoca a sua imunidade parlamentar, ou será a assembleia a recusar o levantamento desta?
Na altura, já próxima, da composição das listas para o parlamento europeu o Dr. Pedroso vai apresentar-se como candidato?
E depois tomará posse no parlamento de Estrasburgo? Alguém conhece o regime de imunidades dos deputados europeus?

Um espanto

Tenho seguido pela imprensa o noticiário sobre o decurso do julgamento do chamado “Caso Moderna”.
Em geral tem-me enfastiado e aborrecido: só me admira como conseguem os jornalistas vislumbrar uma notícia em realidades por demais conhecidas, e banalizadas pelo uso.
Mas confesso que encontrei uma que me deixou sem fala: foi efectuada perícia psiquiátrica (antes dizia-se exame às faculdades mentais) ao principal arguido, José António Braga Gonçalves, e para além do mais que não consta da imprensa os senhores peritos chegaram à conclusão que o dito cujo possui uma personalidade com fortes traços de narcisismo e megalomania ... e uma inteligência superior à média.
Não deveria admirar-me, porque outras coisas igualmente espantosas já aconteceram nessas perícias (estou a pensar nuns extensos pareceres assinados por um velho catedrático de psiquiatria em que o arguido, invariavelmente rico, surge sempre na conclusão como notoriamente inimputável para os factos de que é acusado, por razões indiscutivelmente doutas que só mesmo um especialista entende).
Mas no caso concreto eu conheço o bicho: e meus senhores, francamente, se em relação ao narcisismo e à megalomania nada tenho a dizer aos especialistas (mas também para ver isso não era preciso tirar um curso) quanto à inteligência superior à média... vou ali e já venho.
Ou os senhores peritos não conhecem o Zé Gonçalves ou a média anda muito baixa.

O GRANDE GINÁSIO DAS CORDAS VOCAIS

Não digo que seja um imóvel propriamente bem-parecido, como não acho que seja um prédio manifestamente mal-encarado. Antes o considero como aquilo que é: um desses esbeltos edifícios, de porte altamente helénico, mas que têm escarradinhos no rosto os crimes todos que lá se cometem.
Pela imponência do estilo, dir-se-ia que traz «o rei na barriga» — mas não traz tal. Alojados no bojo, à laia de miudezas, povoam-no, sim (e roem-no por dentro o mais que podem, e o melhor que sabem) meia-dúzia de monárquicos republicanos e mais duzentos democratas puro sangue, com outros parasitas correlativos à mistura...
É um verdadeiro recipiente de palavras e funciona em regime de sessões contínuas.
Se visto por dentro, lembra um boião, contemplado de fora não engana ninguém, — até porque a fachada ostenta uma expressão spínolamente alvar (condizente, aliás, com o resto do conjunto).
E, por aqui, já com certeza terão percebido que estou a falar, concretamente, do velho Pagode parlamentar — porventura mais conhecido, nos dias que vão correndo pel`O Animatógrafo da Estrela ou por Teatro-de-São-Bento-da-Porta-Aberta.
Sobre esta, honestamente devo dizer que nunca uma porta aberta se pareceu tanto com uma porta fechada. Mais: não sendo uma porta aberta «com vista para o futuro», visto dar directamente para o hemicirco, ainda agora não enxergo muito bem que espécie de serventia suplementar pode ela ter, para ser tão demandada como é. A não ser... (Cala-te boca!).
E depois, muito mau-hálito tem o estafermo do casarão!... Tem mesmo mau-hálito: um hálito empestado que lhe vem das entranhas e que fede, à distância — chamando a atenção das narinas em trânsito.
Quem lhe passe ao portar é certo e sabido que apanha pelas ventas com um cheiro tão intenso a vinhaça parlamentar, que é de tombar logo ali inanimado.
E nem outra coisa se poderia esperar da capitosa construção; bem vêem porquê: para todos os efeitos, trata-se de um viveiro de tribunos e oradores, que é gente que defeca por via oral. Logo... tudo aquilo tresanda!
Mas ainda que eu quisesse — e claro está que não quero! — explicar a vocelências porque carga d`água (ou de vinho...) fui visto e achado em semelhante sítio, não poderia.
Parei ali, nem eu sei porquê. Sendo um homem de poucas falas, nunca o Parlamento me atraiu — nem mesmo exteriormente. Parei ali, como poderia ter parado noutro lado.
... Mas tive, de repente, a sensação de me estar a ser deitado um mau-olhado. E, pelo sim, pelo não, estaquei ali mesmo. — E não é que vi, daí a nadinha, o frontão do Pagode a franzir(-me) o sobrolho?!...
Como devem compreender, tomei aquilo à conta de impertinência e, considerando-me hostilizado, bati em retirada.
Moral da história: mal por mal, melhor me fora ter ido parar ao Mercado de Santa Clara (Gomes?), ali à Feira da Ladra, ou estar aninhado na «covinha do ladrão» — que é como é conhecida hoje a tebaida do sr. Palma Inácio.


RODRIGO EMÍLIO (In A Rua, n.º 192, pág. 20, 14.12.1980)


Quarta-feira, Outubro 08, 2003

Boas Novas

Reapareceu cheio de vigor o Reconquista - site libertário, monarquista e nacionalista.
Combativo e vibrante, livre e original - a visitar sempre.
Po outras bandas, o anarca finalmente curou a constipação!
Agora ficou um tanto alucinado... mas também há-de passar.
O bom humor mantém-se, e espera-se que não passe.

Lembrando a nossa Amália

Passados que são quatro anos sobre a morte de Amália, dei por mim a lembrar essa minha vizinha da Rua de São Bento, e o tempo em que ali vivi, numa travessa a meio caminho entre o Convento de Jesus e o Palácio das nossas tristezas, num espaço onde ainda se misturavam no seu viver diário o povinho miúdo e a senhora marquesa de Mendia, a casa arruinada que foi do Visconde de Santarém e a moradia apalaçada de Soares Martinez, as casas aristocráticas dos Bobone e dos Alcáçovas e dos Sanches de Baena, e as casinhas de janelas compostas com vasos e floreiras, e gaiolas de pintassilgos e canários, com cheiro de bairro popular, tudo já envolto por misérias que iam avançando, enquanto se mantinha um resto de convívio com sabor a pátio das cantigas.
Na sua voz e no seu sentir, Amália era nós todos.
Mulher inteligente e sensível, sofreu como poucos os desvarios da abrilada, que desde cedo a atingiram com violência.
Mesmo quando se fazia distraída, e como ela sabia fazer-se distraída, Amália tudo observava e ia guardando – e sofria, em silêncio.
Como muitas vezes acontecia, exprimia-se em verso – naqueles seus versos tão característicos, de voluntária ingenuidade, em que procurava deixar a verdade das coisas simples na linguagem singela do povo.
Amizade que lhe vinha de longe, feita de laços de mútua admiração e ternura, era com Vitorino Nemésio.
No ano de 1975, o reformado Nemésio aceitou ser director de “O Dia”, o jornal fundado então pelos profissionais expulsos do “Diário de Notícias”, no famoso episódio que ainda hoje não se pode recordar – para não ferir a glória de Saramago.
Como consequência imediata, concitou Nemésio de imediato contra si os ódios de todos os entusiastas do PREC – que não o pouparam.
Mas chega já de desenhar o contexto: entre Amália e Nemésio havia convívio assíduo que, quando não podia ser directo e pessoal (Nemésio era frequentador da casa de Amália), era pelo menos epistolar. Aqui fica para os meus estimadíssimos leitores uma carta resposta de Amália para o Professor Nemésio.


Carta a Vitorino Nemésio

Ai meu querido professor
O senhor fez-me chorar
Apesar do bom humor
Com que se quis disfarçar.
Não se pode ser mais triste
Nem ter-se maior razão
Em tudo aquilo que disse,
Do pobre deste país.
Também eu, senhor professor,
Estou triste como o senhor,
Sem poder desabafar
Por não saber versejar.
Mas não me posso calar
Falo comigo sozinha:
Aonde a terra que eu tinha?
Aonde os heróis que amava?
Ou eu andava enganada
Amando o que muito amei?
Francamente já não sei
Aonde está a razão.
Só me dói o coração,
E o coração não engana.
A mim nunca me enganou
De si sempre ele gostou!
E continua a gostar.
Por isso me fez chorar;
Chorou o meu coração
Que lhe sentiu a razão.
Ai meu querido professor
Eu nunca fui sua aluna
Não tenho instrução nenhuma,
Como é que posso entender
O que o senhor quis dizer
Sem saber ler nem escrever?
Há coisas, senhor professor,
Que até se entendem melhor
Se se não é complicado.
Há quem, por ter estudado
Tudo o que outros escreveram,
Entre as letras se perderam,
Já não sabem sequer quem são;
Perderam o coração
Que não se deve perder...
Renego a preparação
De gente tão preparada,
De angústias fazedores
Tudo em nome da justiça
[Desculpe mas digo Chiça!
E eu não sou malcriada]
Mas há coisas que por feias
Dizem melhor das idéias
Que nos passam pela cabeça...
A mim, faltam-me argumentos
Mas ficam-me os sentimentos:
Com eles gosto de si,
Com eles o distingui,
Sem saber ler nem escrever!

Amália Rodrigues

Terça-feira, Outubro 07, 2003

Uma proposta inovadora

Num recente post, o Rui, da Catalaxia, confessava que uma das razões dos seus engulhos com o ideal monárquico estava no elevado nível de imbecilidade de uns quantos personagens que tinha conhecido e que tinham em comum a sua devoção à monarquia.
O critério deixou-me a pensar. Ora aí está um método original e interessante para avaliar da bondade das doutrinas políticas. Já que os sábios tantas vezes se enganam, confiemos nos imbecis. Se uma doutrina provoca a adesão entusiasmada de notórios cretinos então não pode valer grande coisa.
Pois bem: façamos desta intuição um método. Parece simples de executar: a partir de agora prestamos atenção a todos os idiotas que vamos encontrando nos caminhos da vida. De preferência consideremos apenas os grandes idiotas, os que se apresentem como indiscutíveis idiotas, de estupidez sólida e inexpugnável (a fim de escapar a subjectividades). Não será difícil encontrá-los, visto que, como é de experiência, eles abundam a cada passo.
Quando detectarmos um, anota-se o facto; e trata-se logo de indagar das suas crenças políticas (este método também poderia resultar por exemplo com as preferências clubísticas, mas aqui é das doutrinas políticas que estamos a tratar).
Em face do sondado, proceda-se como os rapazes das empresas de sondagens: consigna-se a respectiva convicção política na ficha de inquérito. Convém usar sempre um caderninho, para aumentar o rigor da amostra (bem, isto de falar em amostras e sondagens traz associações perigosas; mas continuemos).
Uma vez que o grau de fiabilidade das conclusões estatísticas aumenta tanto mais quanto maior for o universo da amostragem, deve ser considerado o maior número possível de tolos. Repare-se que caso fosse considerado apenas um universo limitado (os amigos do Rui, por exemplo, ou os frequentadores de certo bar, ou de determinada loja, etc. etc.) as conclusões sairiam naturalmente distorcidas.
Na posse do maior número de dados possível, faça-se então a classificação das ideologias políticas segundo o seu grau de atracção para a imbecilidade. Obtém-se necessariamente uma gradação, em que num extremo estará aquela posição política que maior sentimento de adesão provoca nos imbecis e no extremo oposto a posição política que menos adesão causa na classe em estudo, ou que lhe causa maior repulsa.
Sem esquecer a valia científica das conclusões, neste campo sempre tão espinhoso da avaliação das ideias políticas, a utilidade operacional dessa classificação das doutrinas políticas estará em que, se bem acompanho o rasgo de génio do meu inspirador, uma vez estabelecida e conhecida permitirá a qualquer um que não goste de confundir-se com imbecis colocar-se com segurança na posição mais afastada daquela em que se manifeste a mais intensa adesão de cretinos.
Deixo aqui a teorização da ideia, convencido do seu valor e da sua originalidade. E fico a aguardar os resultados práticos da respectiva aplicação – que antevejo especialmente divertidos.

Segunda-feira, Outubro 06, 2003

DIA DOS CASTELOS COMEMORADO EM PORTEL

Comemora-se no próximo dia 7 de Outubro o Dia dos Castelos.
Esta iniciativa, que tem duas décadas, é este ano organizada numa parceria que envolve a Câmara Municipal de Portel, Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais e Fundação da Casa de Bragança.
Num seminário que decorrerá, nesse dia, nas instalações da Associação Artística Portelense, serão debatidas questões que se relacionam com a conservação e reutilização dos recintos fortificados, tendo como objecto e exemplo de estudo o próprio castelo de Portel.
O programa prevê intervenções de um conjunto de técnicos qualificados e tem como finalidade chamar a atenção para os problemas que se relacionam com os mais emblemáticos monumentos que povoam o nosso território.
Os castelos e fortalezas são únicos elementos do património construído que têm uma relação activa com a envolvente, devido à especificidade da arquitectura militar. Os projectos de conservação, restauro, reutilização ou animação deste espaços fortificados, têm de merecer uma atenção especial dos técnicos e entidades que se relacionam com o património. Numa fase em que estão a ser objecto de projectos de intervenção, em Portugal, uma série de recintos fortificados, é muito oportuno debater esta problemática.

Domingo, Outubro 05, 2003

Carta conjunta de MDL, AGAL e AAG-P sobre a presença da Galiza como país lusófono e lusógrafo nos lugares web da Internet

Galiza, 24 Abril 2003

Ex.mos/as Srs./as,

Como representantes de vários colectivos da Galiza em defesa da língua, queremos solicitar a inclusão explícita da Galiza na sua lista / no seu lugar Web como território lusófono para todos os efeitos. Como sabem, na Galiza, herdeira da Gallaecia, onde precisamente nasceu a língua portuguesa, fala-se e sempre se falou uma variedade dela, que se conhece como "galego". Embora as falas galegas evidentemente não sejam iguais que as falas portuguesas ou que as falas brasileiras, crescentes sectores sociais vêem a necessidade de a Galiza ser reconhecida plenamente na Lusofonia e na Lusografia, quer dizer, como país de língua portuguesa (embora não independente, e submetido infelizmente à dominação da língua espanhola). Evidência disto é a existência das nossas próprias organizações em favor da língua, dos muitos lugares Web na Galiza onde se reflecte esta visão e prática da língua, e das numerosas petições remetidas à Comunidade de Países de Língua Portuguesa desde a Galiza neste sentido.

O seu lugar Web / A sua lista / A sua organização poderia contribuir para este reconhecimento internacional da Galiza ao inclui-la já como país lusófono e lusógrafo para todos os efeitos. Muito obrigados.

Com os melhores cumprimentos,

Pelo Movimento Defesa da Língua (MDL):
Marcos Garcia Gonçalves, Responsável de Relações com a Lusofonia
queique@yahoo.com
http://mdl-galiza.org/

Pela Associaçom Galega da Língua (AGAL):
Bernardo Penabade, Presidente
penabade@teleline.es
http://www.agal-gz.org/

Pela Associação de Amizade Galiza-Portugal (AAG-P):
Ângelo Cristóvão, Secretário
angeloc@infonegocio.com
http://www.lusografia.org/

Sábado, Outubro 04, 2003

Neste Domingo, 5 de Outubro:

Santa Missa segundo o rito tradicional latino-gregoriano:
Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31

Em Fátima: às 11. 30 horas, na Casa do Menino Jesus de Praga
Rua da Imaculada Conceição, n.º 8 (Moita Redonda, entre a Capela de Santa Luzia e o Convento das Clarissas)

TUDO É CINZA

Dizem os físicos que o Universo agoniza de um mal chamado entropia crescente e morrerá de uniformidade. O mundo da vida e sobretudo o do espírito representam um jato, um movimento ascensional e criador, um ímpeto que bem merece o nome que lhe deu um filósofo: élan vital; mas o que agora se vê, nesse mesmo mundo do espírito, nos leva a crer que há uma corrente, uma torrente que contraria o ímpeto vital, que puxa para baixo, que entra no processo geral de desmoronamento de formas e contrastes, e que tende a transformar o colorido e vistoso mundo do homem numa planície cinzenta e uniforme.
Esses pensamentos melancólicos e crepusculares me foram sugeridos por uma vistosa entrevista publicada pelo "O Cruzeiro" com o título: Revolução em Preto e Branco. Nessa entrevista foram ouvidas várias freiras, e o jornalista salienta um contraste que ainda se observa: enquanto algumas lêem Marcuse, vão ao teatro, jogam futebol e não usam hábito, outras continuam a manter a clausura, o hábito e o gosto pela vida interior de meditação e de oração. E o sentimento que o jornalista não disfarça, e que parece traduzir um anseio de nossa época, é o que se traduz em aplauso para o desembaraço das primeiras, e o desdém apiedado pelo atraso das outras. Conversando com uma carmelita reclusa, o jornalista assim se exprime: "Conversou através de um tubo em sua clausura, com voz rouca, abafada, distante, como se viesse da Idade Média." E aí está a fórmula mágica com que paralisam as inteligências. Basta dizer: "como na Idade Média" para imobilizar, congelar, curarizar qualquer pensamento. Já observei, aliás, que não é todo o passado que merece igual repulsa dos homens de nosso tempo. Ainda outro dia ouvi alguém dizer-me que a missa rezada no Mosteiro X lhe lembrava o cristianismo primitivo. E dizia "cristianismo primitivo" com o semblante banhado de doçura compreensiva e nostálgica, como se tivesse convivido com os mártires. Mas quando alguém diz, em revistas ilustradas, programas de televisão e conferências progressistas, "como na Idade Média", todo mundo entende que deve ter um infinito desprezo por essa época de obscurantismo. Lendo o "O Cruzeiro", e a tolice das entrevistadas e do entrevistador, veio-me à lembrança a frase do grande medievalista Gustave Cohen: "as trevas da Idade Média são na verdade as trevas de nossa ignorância."
A Idade Média não se distinguiu pelo progresso técnico, pela velocidade dos veículos ou pelo poder mortífero dos engenhos. Sob este ponto de vista, que me interessa muito como engenheiro, é indubitável o atraso da Idade Média. Mas há um outro ponto de vista em que já não me parece tão evidente esse atraso. A Idade Média foi uma era, uma civilização, de contrastes e cores: foi um imenso vitral iluminado pelo Sol das almas, e mesmo onde não havia o contraste das cores observava-se o claro-escuro dos hábitos – estou pensando na mantellata Catarina de Sena em cuja missa a Igreja continua a dizer: "Dilexisti justitiam et odisti iniquitatem" para bem assinalar os abismos galgados pela santidade.
Agora, a acreditar no que diz a revista ilustrada, estamos diante de uma Revolução do Branco e do Preto; ora, uma revolução desse tipo só pode ter um desenlace: o cinzento. E é isto que nosso trepidante mundo está preparando até nos lugares que nos pareciam mais abrigados. As diferenças se apagam, as arestas se embotam, as cores desaparecem, e a mulher parece homem, o homem parece mulher, a velha parece menina e a menina parece velha. Todo mundo parece todo mundo, e então aparece uma legião de idiotas para aplaudir o cinzento: as freiras parecem não-freiras, os padres parecem rapazes como outros quaisquer, e até não se distingue bem entre um bispo e um aposentado proprietário de botequim. Tudo parece tudo. Tudo é tudo. E uma multidão de imbecis chama este fenômeno de progresso!
A humanidade precisa ser diferenciada, vivamente, corajosamente, para bem exprimir, ao longo dos séculos, todas as virtualidades da natureza humana e do pródigo da racionalidade encarnada. Mas os contrastes só se mantêm na estabilidade dos princípios e na continuidade das tradições. Quando o chão do mundo trepida, como trepidou o chão do Irã, as formas se esboroam e a paisagem tende para a planície cinzenta e espectral. Diz o jornalista que a freira lê Marcuse. Ainda não havia acabado de ler Strauss sem entender nada. Ainda não tinha terminado o primeiro volume de Teilhard, que também não entendeu. Entender para quê? Entender é, de certo modo, parar. É contemplar. O mundo trepidante não precisa entender o que lê: o essencial é que os jornalistas possam fazer frases sobre freiras que fazem pose. Antigamente, não digo na Idade Média, digo dez anos atrás, ainda se dividiam as coisas entre estas que se dizem baixinho, na intimidade ou na malícia, e aquelas que se dizem nas tribunas ou nas praças públicas. Agora tudo virou praça pública, e as freiras avançadas se espalham nessa publicidade das praças. E há uma legião de imbecis que chama isto de progresso, quando um mínimo de reflexão nos mostra que só há progresso no mundo da vida e do espírito quando passamos do menos diferenciado para o mais diferenciado, isto é, quando as qualidades se exaltam. O cristianismo trouxe ao mundo um terrível claro-escuro, ou então trouxe ao mundo um modelo violentamente azul e violentamente vermelho. Uma multidão de imbecis, dentro da própria Igreja, conduzida por alguns poucos perversos, quer fazer do cristianismo uma desolada paisagem de planícies cinzentas. E chamam isto de progresso!

Gustavo Corção

PÁTRIA

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!
E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,
E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!
Dos teus líquens, dos teus cipós, da tua fronde,
Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,
do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,
De ti, – rebento em luz e em cânticos me espalho!
Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,
No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!
E eu, morto, – sendo tu cheia de cicatrizes,
Tu golpeada e insultada, – eu tremerei sepulto:
E os meus ossos no chão, como as tuas raízes,
Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

OLAVO BILAC

Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Jorge Luís Borges

Durante muito tempo, Borges foi um dos eternos indigitados para o Prémio Nobel da Literatura.
Sempre que era anunciado o premiado do ano os jornais afadigavam-se a pedir-lhe opinião. Ele respondia com o distanciamento e a ironia que eram a sua marca inconfundível.
Costumava manifestar delicadamente compreensão para o esquecimento da sua obra, e acrescentava que a Academia Sueca dedicava-se a descobrir talentos desconhecidos. Lembro-me sempre dessa resposta quando surge o anúncio de mais um ilustre nobelizado.
Escusado será dizer que Borges nunca recebeu o Prémio Nobel – o que não faz falta nenhuma à sua glória literária.
Actualmente, um sempre apontado sempre preterido parece ser Mário Vargas Llosa. O peruano autor de “A guerra do Fim do Mundo” não preenche os requisitos da ilustre academia – requisitos e motivações esses que toda a gente suspeita não corresponderem aos oficialmente proclamados.
Por mim, vou continuando a ler o que gosto – e nem me lembro das recomendações da tal academia. Já agora, quanto à “Guerra do Fim do Mundo”, faço eu uma recomendação aos leitores: se lerem, leiam também “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Não dá para perceber uma coisa sem a outra - e o brasileiro escrevia muito melhor.
E por falar em Borges, nesta aurora de um novo Nobel, ofereço-vos mais um pequeno poema do dito cujo.

As coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.


Jorge Luis Borges (tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques).

Quinta-feira, Outubro 02, 2003

A língua portuguesa na net

Um estudo realizado pela gigante das telecomunicações espanholas, a Telefónica, em Maio de 2002 (não conheço outro mais recente) revelou que três por cento dos conteúdos online estavam em português, o que significa que a língua portuguesa é a nona mais utilizada no ciberespaço.
Apesar de ser a terceira língua mais falada no mundo, o espanhol só aparecia no quinto lugar entre as línguas mais utilizadas pelos conteúdos da net.
Em primeiro surgia o inglês (com 44,7 por cento), seguido do chinês (11,9), o japonês (9,5) e o alemão (6,1).
Segundo o estudo, o espanhol, que tem mais do dobro de falantes no mundo em relação à língua portuguesa, só conseguia atingir uma presença de 5,6 por cento na rede.
O português aparece como a nona língua mais utilizada na rede, depois do espanhol, do francês (4,4 por cento), do coreano (4,4), e do italiano (3,1).
De acordo com este estudo da Telefónica, as línguas que mais avançaram na Internet nos últimos três anos considerados (de 1999 a 2002) foram o japonês, que passou de 8,2 por cento para os 9,5, e, sobretudo, o chinês, que subiu posições com enorme rapidez. A língua chinesa representava, em 1999, apenas 4,1 por cento dos conteúdos da web e em Maio de 2002 ocupava já uma percentagem de 11,9.
O avanço rápido de algumas línguas na net tem sido feito à custa da redução da presença do inglês. Apesar de continuar a ser, de longe, a língua mais utilizada, está longe da presença esmagadora de há alguns anos. Em 1999, o inglês representava 64 por cento dos conteúdos da net. Em Maio de 2002, não passava dos 44,7 por cento.
Como se constata, entre as línguas cuja presença excede a portuguesa somente o inglês, o chinês e o espanhol correspondem a línguas com maior expressão que a portuguesa quando consideramos o critério do número de indivíduos que as têm como a sua primeira língua.
O coreano, o japonês, o italiano, o alemão, mesmo o francês, são línguas cuja presença na net não deveria exceder a do português – se os falantes respectivos tivessem igualdade de acesso, e igualdade de condições económicas e culturais para marcar a sua presença.
Ou seja, o tal nono lugar não é nenhuma distinção com que devamos ficar satisfeitos, e antes revela as carências de desenvolvimento que afectam o universo lusófono. Sobretudo se pensarmos que mesmo esse lugar resulta da dimensão do Brasil.
Como é evidente para quem pensa em termos de estratégia nacional e de futuro, esta devia ser uma causa de mobilização nacional, e imediata: a capacidade de marcar presença na net é decisiva para a própria presença de Portugal no mundo.
Considerando o universo de falantes da língua portuguesa, em África, no Brasil, na Europa, em Timor, ou um pouco por todo o mundo, onde quase não existe lugar em que não haja uma comunidade portuguesa, haveria condições únicas para incrementar uma rede universal em língua portuguesa que assegurasse um papel de destaque para a língua e cultura nacionais.
Uma ligação efectiva entre todas as comunidades de língua portuguesa, estejam em Macau, em Goa ou em Malaca ....
Torna-se desnecessário sublinhar como esse investimento seria compensador, dos pontos de vista cultural, económico e político.
Da mesma forma, o rápido desenvolvimento das tecnologias de informação é decisivo para a nossa competitividade entre as sociedades avançadas.
Justificava-se por isso um enorme esforço nacional, quer na generalização das tecnologias de informação a nível interno quer no rápido estabelecimento dessa rede universal.
Porém, não se conhecem planos governamentais nessa área; parece que vamos continuar a ter políticas mesquinhas e sem visão de futuro, em que miseráveis debates internos se sobrepõem a qualquer projecto global.
Será mais importante castigar os produtos informáticos com impostos, ou apostar numa isenção fiscal que provocasse uma forte descida de preços e com isso o acesso generalizado dos portugueses aos produtos de hardware ou de software necessários para nos colocar no pelotão da frente entre as sociedades de informação?
Será mais importante poupar uns tantos euros, ou fornecer a tantas e tantas associações e clubes de portugueses espalhados pelo mundo os apoios que precisem para assegurar computadores, ligações e conteúdos que lhes mantenham um contacto permanente com todos os portugueses, onde quer que estejam?
Existe uma política nacional de informação e de informatização? Existe uma política nacional de produção de conteúdos? Existe sequer uma política nacional de divulgação através das tecnologias de informação?
É de recear que a manter-se a ausência de estratégias e a permanente preocupação com o imediato, o que enche o olho, o que rende eleitoralmente, venhamos a encontrar-nos irremediavelmente ultrapassados.

Quarta-feira, Outubro 01, 2003

OS CONFLITOS POTENCIAIS NO OCIDENTE EUROPEU (Gibraltar, Ceuta e Melilla, Olivença)

Não é possível agora ignorar o facto. Há, no Ocidente Europeu, algumas feridas mal saradas, algumas questões territoriais por resolver. Não se trata de grandes áreas, mas quase sempre de pequenos enclaves ou de diminutas regiões, quase sempre de grande valor simbólico.
A persistência de tais conflitos é, potencialmente, e no mínimo, geradora de algumas incomodidades e situações embaraçosas. Eis por que urge trazê-los, claramente, para a luz das agendas diplomáticas, onde poderão ser equacionados mais racionalmente e ser “transformados” em soluções.
Mantê-los ignorados é conservar pequenas cargas explosivas dentro de portas, prontas a ser detonadas a qualquer momento, ou, pior, no momento menos oportuno. Urge, pois, equacionar tudo...de uma forma “civilizada”, mas coerente e firme.
O Estado Espanhol mantém, há quase trezentos anos, a sua reivindicação sobre Gibraltar, ocupado em 1703 e cedido à Grã-Bretanha em 1713. Uma reivindicação constante, independentemente dos regimes que se têm sucedido em Madrid, baseada na afronta da presença britânica no seu litoral (e num ponto estratégico). E, já agora, em algumas violações de pormenor do Tratado de Utrecht de 1713.
Com base nesta pressão constante, em nome da indivisibilidade da sua soberania sobre o seu próprio território, a Espanha, sentindo-se humilhada e considerando como artificial a situação étnica actual em Gibraltar, nega-se a levar demasiado em consideração a opinião dos habitantes do pequeno território. E não se intimida perante alguns factos, como a diferença de níveis de vida, em relação ao qual se limita a projectos que salvaguardem o dito nível, desde que não ponham em causa o essencial: a integração de Gibraltar na “Mãe” Espanha.
Só por ingenuidade poderia Madrid pensar que Marrocos não olharia para Ceuta e Melilla de forma semelhante. Mas, se a reivindicação de Gibraltar surge nos “Media” a toda a hora, e é considerada como compreensível por quase todo o Mundo, já o litígio sobre Ceuta e Melilla é muito menos falado.
A acção marroquina em Perejil (Salsa)/Leila poderá ter sido pouco correcta, pois o “gesto” podia ter resultado num conflito com vítimas, mas, pelo menos, conseguiu fazer compreender à Espanha (e à União Europeia e ao Mundo), que um Estado não pode impunemente sustentar uma lógica reivindicativa num ponto do Globo sem que a mesma lógica seja aplicada noutros pontos onde, à primeira vista, a situação é comparável. Neste caso, contra o próprio Estado que acena com a primeira reivindicação. Usando um provérbio português, “quem tem telhados de vidro não atira pedras ao vizinho”. E, para Marrocos, Ceuta e Melilla são os telhados de vidro de Madrid.
Já que Marrocos tem um papel importante nesta situação no Ocidente Europeu, ainda que seja um país do Norte de África, convém não esquecer a questão do antigo Sahara Espanhol, ocupado pelo mesmo Marrocos em 1975, à revelia do Direito Internacional. Rabat tem, portanto, e também, telhados de vidro...
De qualquer forma, deve-se acreditar que, uma vez equacionados os problemas, eles serão discutidos em local próprio, acabando por ser resolvidos.
Contudo, o Ocidente Europeu tem alguns outros problemas semelhantes aos já referidos. Fiquemos só por um, que se liga a Portugal. Não se pode, por uma questão de lógica e coerência, deixar de lado a questão de Olivença.
Será impossível, salvo por manifesta incompetência, que esta questão não seja colocada. Olivença tem várias semelhanças óbvias com Gibraltar, sendo mesmo bem mais clara a sua situação de Ilegalidade em termos de Direito Internacional. Na verdade, violado por Madrid o Tratado de Badajoz logo no ano da sua assinatura em 1801 (ocupação de parte do Concelho de Juromenha), e outras vez em 1807, tendo em linha de conta as recomendações e conclusões do Congresso de Viena de 1815, aceites por Espanha em 1817 (para só citar as datas principais), e considerando que, em duzentos anos, Portugal se tem sempre negado a reconhecer Olivença como parte de Espanha, não se compreende como Portugal, seja qual for o seu Governo, poderá deixar de chamar a atenção para tal problema. Se o não fizer, estará a pôr-se em causa a si mesmo, ou a sua capacidade para ter interesses próprios e legítimos na cena internacional, num problema fronteiriço “directo”.
Do ponto de vista histórico, nem sequer faltou, em Olivença, uma acção contínua da Espanha, com destaque para a época franquista, no sentido de despersonalizar a população local, com repressão, falsificação/omissão da História, alterações na realidade étnica, e outros procedimentos análogos.
Não se tratará de um problema maior, dirão muitos. Todavia, existe. A sua resolução, por vias diplomáticas, não implica atrasos na resolução de outros problemas, como o do desenvolvimento económico ou o da distribuição de riqueza. A sua não resolução, em contrapartida, ou apenas a falta de vontade para se tentar a sua resolução, demonstrará uma grande falta de princípios, de vontade, de crença nas capacidades do País, de personalidade enquanto Nação. Poderá significar que o que vai mal em Portugal é muito mais profundo do que se pensa, e que a falta de autoconfiança e o “déficit” de amor próprio em terras lusas estão a progredir num sentido perigoso para a própria existência de Portugal.
Olivença é um problema político, cultural, e diplomático. Outros aspectos a ele ligados, como problemas económicos ou jurídicos, podem ser resolvidos com negociações, talvez tomando muitas vezes como referência as considerações que forem surgindo a propósito do problema de Gibraltar.
Não se pode, como alguns comentadores o fazem, considerar como “pouco civilizadas” todas e quaisquer reivindicações territoriais, sem se considerar como incivilizadas situações de ocupação ilegal ou de legalidade dúbia.
Ser civilizado só pode significar resolver os problemas de forma pacífica, negociada, democrática. Não pode significar abdicar do que é justo. Não pode significar permanecer calado perante ilegalidades, falta de lógica, clamorosas dualidades de critérios. Isso não é civilização, é comodismo, que, claro, não conduz a resultados positivos, mas tão somente à aceitação de tudo o que se quiser “impingir-nos”, mesmo as mais flagrantes injustiças, sejam elas económicas, políticas, diplomáticas, sociais, ou outras.
Poucos quererão ser civilizados (?) dessa forma. Nenhum país responsável e digno o quererá.
Vamos, pois, neste Ocidente Europeu, talvez também no Norte de África, equacionar com lógica e civilizadamente os problemas que surgem.
Para não se hipotecar o futuro!



Estremoz, 01 de Agosto de 2002

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Terça-feira, Setembro 30, 2003

Dois meses de “Sexo dos Anjos”

Primeiro dia de invernia, em forte contraste com o calor de ontem. Parece que mesmo à meteorologia já chegou o desconcerto do mundo.
E reparo que foi precisamente a 31 de Julho que abriu ao público este “O Sexo dos Anjos”.
Dois mesinhos de trabalho aturado... . Como mudou a blogosfera desde então!!
Pese embora a vida pessoal e profissional não me deixarem tempo para mais atenção ao que se vai passando em redor, desleixando o olhar sobre as coisas da hora, o certo é que tenho conseguido manter este sítio vivo, e espero que minimamente interessante.
E talvez que o distanciamento em relação à espuma dos dias o tenha feito ganhar em qualidade, no que perde em actualidade.
Não é ainda o momento de fazer o balanço; mas encontro bastos motivos de satisfação. As manifestações de agrado têm excedido sempre os ataques que, de forma violenta, injusta e malcriada, logo surgiram.
Os níveis de leitura alcançados excederam notoriamente a expectativa mais optimista.
E o curioso é que a simpatia apareceu muitas vezes de onde não era esperada; e a agressividade também de onde não se esperaria.
Ultimamente, e para além da embirração da “direita caviar” (pois é, o caviar não é exclusivo da esquerda), temos encontrado também uns insultos da parte de uns tantos para quem em grande medida este trabalho nasceu, e tem continuado, com sacrifício pessoal.
Os brutinhos não percebem, nem sabem ler ... é a tragédia da instrução que temos. Mas não é só isso: é também estupidez natural.
Ora, como diziam os antigos, contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão. Como se diz aqui no Alentejo, com simplicidade e sentido prático, lavar a cabeça a burros é estragadouro de assabão...


Reflexões inúteis sobre escritores inúteis


As obras escritas, em todos os muitos gêneros, são em grande parte meros acidentes, ondas fortuitas, que não chegam a ficar incorporadas, realmente incorporadas, nessa pirâmide das grandes ofertas que o homem faz ao homem. Se não tiram, também não acrescentam. Formam depósitos secundários de que vivem os livreiros e as traças. Funcionam como os assuntos do dia, escândalos ou banquetes, não chegando a ser propriamente obras, mas acontecimentos. Entram no calendário, nos salões, nas colunas da crítica e muitas vezes nas academias, mas não aderem ao compacto e concreto mundo da verdade. Têm a natureza dos passos de dança de que nem o chão guarda memória, ou a semelhança do palito que só entretém um breve e subalterno contato com o alimento.
Há escritores (ai de nós!) cujo maior título é uma pontualidade ou uma atitude: estar escrevendo. Vivem num particípio presente que não participa de um presente. Estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura. Há no mundo dois mundos, um de pedra e outro de neblina: geologia e meteorologia. Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as corrente de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se; sofreu-se; acabou-se.
O falso e o genuíno
Esta divisão um pouco sumária, e talvez cândida demais, entre bons e maus livros, deve ser esclarecida e subordinada a um critério para que o leitor não a interprete mal. Antes de mais nada afasto qualquer idéia moralista, depois ponho também de lado o nível literário, isto é, a aristocrática demarcação entre as obras requintadas e as mais rústicas e populares.
Quando falo em livros que pesam, e me lamento dos que não pesam, quero me referir a uma distinção mais delicada ou talvez mais brutal do que aquela que geralmente se estabelece entre um bom e um mau bife, entre o casaco bem feito e um outro de mau pano ou defeituosa costura. Essas serão, na acepção aqui adotada, avaliações puramente adjetivas. Têm incontestável importância, sem dúvida, e cada dia maior, porque um dos aspectos mais tristes da política moderna ou das mais recentes concepções de vida é certamente a degradação geral das qualidades. A distinção que investigo, entretanto, é mais interior à natureza das coisas. Um mau bife ainda é um bife; um mau casaco ainda veste.
Será então a verdade, ou a exatidão, do conteúdo de um livro o critério que estou buscando? (...)
Ouso dizer que não é isso. Um livro pode ser grande e digno de interesse mesmo quando escrito contra a verdade. Estarei mais próximo, mais quente, se disser que o primeiro divisor das obras humanas, de onde se tira a condição primeira e eliminatória, não é tanto a verdade nelas contida, mas a sua ligação com a verdade. Com amor ou com ódio, acerto ou desacerto, o primeiro traço fisionômico de uma obra humana deve ser a sua humanidade. Deve ser a conexão vital e real com as coisas do homem, sua invencível tendência, colérica ou cordial, para tudo que nos toque na carne e no sangue. Esse é o sinal que umas obras possuem e outras não. Sinal de participação na concórdia ou no combate; notícia boa ou má (a ser averiguada logo depois), verdadeira ou falsa (a ser cuidadosamente examinada); mas notícia que me faça pensar: "Isto é comigo."(...)
Para dar mais nitidez à distinção pesquisada, direi que há duas grandes classes de autores separadas por um abismo: os genuínos (melhores ou piores) e os falsificados. Os primeiros andam na grande linha que liga as origens aos destinos do homem, para acertar ou errar, para blasfemar ou louvar; andam no encalço de uma pista, curvados, com paciência ou em delírio, atentos às inúmeras e perturbadoras marcas deixadas pelos pés humanos. Os outros são imitadores de gestos, índios de opereta, e pouco lhes importa que exista uma tribo amiga ou que estejam acampados, além, numa clareira escondida, os sanguinários inimigos.
O primeiro sinal que um leitor prevenido deve procurar num livro, a meu ver, é o da autenticidade. Antes de qualquer avaliação final, antes de uma colocação mais firme, importa distinguir se a obra vem das profundezas de um sujeito ou das meras superfícies, que apenas espelham os gestos dos outros. O que importa, na voz de um livro, é que seja uma voz de homem, que as palavras dessa voz estejam ligadas à lenda desse rei que cada esfinge de esquina tenta devorar.


Gustavo Corção, In "Três Alqueires e uma Vaca", Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1961, pág. 14-19.


Segunda-feira, Setembro 29, 2003

Nossa língua portuguesa


Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
A portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba e altiva.
Se tèqui esteve baixa e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram:
Esquecimento nosso e desamor.
Mas tu farás que os que a mal julgaram,
E inda as estranhas línguas mais desejam,
Confessem cedo ant’ela quanto erraram.
E os que depois de nós vierem vejam
Quanto se trabalhou por seu proveito,
Porque eles para os outros assim sejam.


António Ferreira, in “Poemas Lusitanos”

O PESSIMISMO NACIONAL

Parece estar quase na moda descrer sistematicamente de Portugal, do seu Povo, e das suas capacidades. Principalmente, talvez por tradição, olha-se para a vizinha Espanha, fazem-se comparações, e ou se reage quase com “raiva”, ou se lamenta a situação portuguesa, defendendo mesmo uma União Ibérica como forma de resolver os problemas da velha terra lusa.
Não vou considerar tal uma traição. Não sou maniqueísta. Respeito tal opinião como o exercício da liberdade de expressão. Não acredito em patriotismos que tenham de ser impostos. Acredito em patriotismos que debatidos livremente, resultam como naturais.
Lembro-me de um artigo no “Público” em que uma intelectual de reconhecido mérito, comparava Portugal e Espanha, com manifesta vantagem para esta última. Recorda a Espanha que conheceu na década de 1960, e a sua pobreza. Recordava a evolução posterior, sem esquecer que o próprio franquismo, na sua fase final, começou a privilegiar o desenvolvimento interno, no que não seguiu o exemplo de Salazar, que se atolou numa Guerra Colonial sem fim, e nunca se livrou de um modelo de sociedade ruralizante e arcaico. Notava depois a excelência da pintura espanhola , o que ninguém no mundo contesta. Deslumbrava-se com o desenvolvimento económico, insurgia-se (e bem) contra o ódio à Espanha.
Num ponto não posso concordar: quando afirmava que o patriotismo só era concebível em momentos de emergência nacional. É que, para haver “emergência nacional”, tem de haver nação, que algum tipo de patriotismo terá de sustentar.
Concordei com a afirmação de que há um patriotismo moderno, que consiste em amar a pátria fazendo tudo para a tornar mais próspera, mais forte, e mais culta, e um patriotismo conservador, que consiste em viver no passado.
Todavia, a autora em questão acabava por manifestar um total desânimo e uma completa descrença nas capacidades de Portugal. Ficava deslumbrada com o que via, e propunha-se imitar tudo. Reclamava que o seu mundo não acabava em Vilar Formoso, tentando ver mais longe que o limite da fronteira do seu país.
Aqui, fez-me lembrar um comentário do velho romano Tácito, em relação à atitude dos povos dominados por Roma, no processo de Romanização. Dizia ele, a propósito dos ditos povos: “Os mais propensos há pouco a rejeitar a língua de Roma ardiam em zelo para a falar eloquentemente. Depois isto foi até ao vestuário que nós temos a honra de trajar e a toga multiplicou-se progressivamente; chegaram a gostar dos nossos [Romanos] próprios vícios, (...) dos banhos (...), e estes iniciados levaram a sua inexperiência a chamar civilização ao que não era senão um aspecto da sua sujeição”.
Ninguém podia acusar a autora, uma escritora, de desrespeitar a sua língua. Mas... será que não estamos, muitos de nós, a proceder como os povos dominados pelos romanos?
Antes de desenvolver outros tópicos, gostaria de desmistificar alguns números, referentes ao nosso vizinho peninsular, apenas (e só por isso...) por ser o país com o qual mais vezes é costume comparar desvantajosamente o nosso. Por exemplo, é costume ouvir frases do género: “Em Portugal ganha-se 3 ou 4 vezes menos do que em Espanha”, ou “Não há em Espanha reformas inferiores a 90 mil pesetas”.
Não há dúvida que actualmente se vive melhor em Espanha do que em Portugal, mas... segundo as estatísticas mais recentes, o Produto Interno Bruto espanhol é de 18.079 dólares, enquanto o português é de 16.064 dólares. Isto dá uma diferença de nível de vida de cerca de 12%. Por outro lado, se as reformas, em Espanha, são superiores às portuguesas, aconselho a leitura do “Periódico Extremadura” de 20 de Agosto de 2001, onde se revela que sistematicamente se esconde que 40% dos idosos extremenhos chega com dificuldades ao fim do mês porque recebe menos de 50 mil pesetas mensais. Há, pois, reformas baixas em Espanha!!!
Vários preços, em Espanha, são mais baixos. Por outro lado, a taxa de desemprego é superior à portuguesa. E há bairros pobres em Espanha, também! Peça, em Badajoz, que o conduzam ao Bairro de São Roque, no antigo caminho de Mérida... e terá uma surpresa, caro leitor! Por outro lado, se alguns salários médios ou altos em Portugal e Espanha são comparáveis, a média dos salários baixos deixa-nos deprimidos, pois é razoavelmente superior à portuguesa. isto significa que a distribuição da riqueza, em Portugal, continua errada, mesmo em termos capitalistas. Temos de mudar isso, e só nós o podemos (e devemos) fazer. E pensar que há empresários, grandes empresários, portugueses, que dizem que os trabalhadores querem ganhar demais...
Mas... como podemos nós adivinhar, daqui a 30 ou 40 anos, qual dos dois países, Portugal ou Espanha, estará melhor economicamente? O tamanho pode ajudar, mas há países menores que Portugal (Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suíça) onde se vive melhor que em Espanha. E, já agora, digo-lhe: o Japão é mais pequeno que a Espanha e tem menos matérias primas. Qual é a economia mais desenvolvida? Tudo é uma questão de organização. Eu acredito que somos capazes de fazer melhor.
Portugal nunca irá para a frente se formos continuamente pessimistas. aliás, se nos transformarmos em província de qualquer outro país, perderemos mesmo a nossa capacidade de decidir seja o que for. Seremos eternamente criados, fornecedores de matérias-primas, mão de obra barata, uma massa de consumidores cujo poder de compra será decidido por outros que não nós. Contra isto, não penso que se deva parar de lutar. Se ainda há miséria e exploração em Portugal, se a distribuição da riqueza continua injusta, então há que continuar a contestar. A propor novas soluções, a desmascarar situações de pobreza, de corrupção, de políticos desonestos. Com muito maior empenho do que actualmente.
Não nos podemos esquecer que fizemos coisas boas e más na nossa História. O nosso Orgulho Lusitano deverá reforçar-se (sem xenofobias, chauvinismos ou patriotismos exaltados) com as experiências positivas, e aprender com os erros, evitando repeti-los. Assim fazem todos os Povos!
Neste aspecto, e só neste aspecto, convém não esquecer a História. Para mim, o grande problema da História de Portugal é que a distribuição de riqueza sempre tem sido muito injusta ao longo dos séculos, e assim continua. Por isso, os portugueses, a grande massa, sente-se muito distante das elites, e vice-versa.
Esta União Europeia provoca-me apreensões!
Tenho como historicamente provado que as uniões duradouras não devem deixar escondidos os ressentimentos, mas sim pôr-lhes cobro com justiça. Mais, creio que em tais uniões não pode haver desigualdades significativas em termos económicos e produtivos, sociais e outros.
Aqui, começo a recear pelo futuro da União Europeia... mesmo sem soluções socializantes que alguns considerarão radicais!
Sou muito descrente em relação ao capitalismo, e daí a minha insistência em lembrar que não estou, nestas linhas, a falar como anticapitalista militante que sou (ainda que tal não seja fácil para mim), mas sim como um cidadão que tenta analisar, um pouco neutralmente, o mundo que me rodeia. Ainda que isso de “neutralmente” seja, para mim, quase sempre uma impossibilidade...
Deixem-me dizer uma vez mais que nada tenho contra Espanha. Tenho é algo a dizer contra a fraqueza de Portugal, que, em nome da liberdade de mercados, tem sido governado sem objectivos concretos, sem determinação, deixando que o nosso vizinho Ibérico vá controlando vários sectores de actividade.
Para mim, desde há vários anos, há falta de planeamento. A única política seguida tem sido a de “obedecer a tudo”! Quais são os objectivos nacionais portugueses gerais, mesmo dentro da união europeia? Apenas, e só, integração, diluição, vassalagem.
Portugal é actualmente um país dependente da economia e finanças estrangeiras, principalmente, por motivos geográficos de proximidade, espanholas. Veja-se como a Espanha (por culpa portuguesa, repito) tem tomado conta de sectores-chave da economia (combustíveis, electricidade, telecomunicações, pescas... e até a agricultura). Infra-estruturas produtivas portuguesas têm sido compradas por empresas espanholas, e as mesmas vão-se implantando em Portugal. As políticas erradas vão obrigando alguns jovens portugueses a estudar em Universidades Espanholas, levam à contratação de profissionais espanhóis (que têm muito mérito; o problema é que em Portugal há falta de planeamento que dê formação a profissionais portugueses).
Não se trata de acusar a Espanha de agressividade. Trata-se, sim, de acusar o Estado Português de ter uma visão destrutiva, apática, inconsequente, do que o nosso país deve fazer. Não é a Espanha a culpada!
Da nossa integração europeia, têm resultado algumas agressões culturais (História, Língua, etc.) e comparações económicas sempre vistas como desmobilizadores e não como objectivos de “avanço” do País, que vão contribuindo para criar sentimentos de inferioridade com reflexos graves na auto-estima e na vontade nacionais, a nível cultural, social, histórico, e, claro, económico.
Vou chegando ao fim, não sem confessar que, nestes três últimos parágrafos, me inspirei numa carta publicada no “Expresso” no passado dia 5 de Janeiro de 2002. As minhas desculpas aos autores, mesmo porque não partilho de muitas outras opiniões expressas na mesma carta!!!
Leitores partidários de uma União Ibérica: a vossa opinião é legítima. Não pretendo julgá-la, mas somente expressar uma outra opinião, que julgo ser também legítima.
Pensava dizer algo a respeito do Alentejo, mas o texto já vai longo. Ficará para outra ocasião!


Estremoz, 24 de Janeiro de 2003

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Domingo, Setembro 28, 2003

O Sexo dos Anjos

Alguns amigos estranham o que chamam o meu afastamento da actualidade; ando em fuga, pairando pelas nuvens do intemporal.
Porém, o certo é que, muito embora nunca tenha sentido medo de arregaçar as mangas e sujar as mãos, ando sem estômago para o presente.
A actualidade deprime-me.
Nada como valer-me de Eça, recorrendo ao inesgotável manancial de “Os Maias”, para explicar tudo em condições.
O que eu sonhei, como Carlos da Maia e João da Ega, que também deixaram frustrar o sonho, foi uma “Revista de Portugal”; e a actualidade que me referem cabe inteirinha na “Corneta do Diabo”, onde Dâmasozinho Salcede vomitou o seu ódio.


Citando João de Barros

As armas e padrões portugueses postos em África e em Ásia e em tantas mil ilhas fora da repartiçam das três partes da terra, materiaes sam, e pode-as o tempo gastar: peró nã gastará doutrina, costumes, linguagem, que os portugueses nestas terras leixarem."

(João de Barros, "Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem")

Sábado, Setembro 27, 2003

Neste Domingo, 28 de Setembro:

Santa Missa segundo o rito tradicional latino-gregoriano:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31

Em Monforte: às 18. 30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, 3

Os portugueses do paleolítico

Não, não me refiro a uns hominídeos que encontramos por aí à solta; falo mesmo dos nossos antepassados dos tempos da pré-história. Pois fiquem a saber todos os interessados, eruditos ou simples curiosos, que escavações arqueológicas em curso na região de Torres Novas, em grutas do Almonda, parecem constituir chave essencial para a compreensão do Paleolítico.
Os arqueólogos lusos lançaram-se à descoberta dos segredos dos nossos longínquos ascendentes, e dizem que nas grutas do Almonda encontram-se escondidos trezentos mil anos de história.
Vem tudo num excelente trabalho da revista “Visão”, que recomendo aos devotos do passado pré-histórico – e do saber em geral, que como se sabe não ocupa lugar.
Por vezes traz cefaleias, mas pior que tudo é o vácuo em cabeças vazias.

Outra de Nelson Rodrigues

"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Sexta-feira, Setembro 26, 2003

A Nossa Senhora de Aires

Para replicar ao modernismo de Almada, nada melhor que regressar à simplicidade rústica do povo – que produz arte, às vezes tão moderna quanto eterna.
No tempo em que fui a primeira vez à feira de Aires, no descampado dos arredores de Viana onde o Venerando Arcebispo D. Xavier Botelho de Lima plantou um santuário que imita a Basílica da Estrela (mas onde os sábios Mário de Saa e Leite de Vasconcelos asseguram que havia lugar de culto desde os tempos romanos e pré-romanos), os automóveis ainda eram muito poucos. E as estradas também não eram muitas.
Acontecia por isso que os devotos de toda a vasta área de irradiação do culto à Senhora de Aires, ou os simples feirantes, acorriam de todos os lados em carroças, de burro, a cavalo, ou a pé – conforme as possibilidades de cada um.
Partiam caravanas de Évora, ou da Cuba, ou de Portel ou - imagine-se!- da Moita, bem junto do longínquo Tejo.
Passava-se a noite, ou noites, no caminho, e acampava-se no local, por entre as hortas e quintas que circundavam Viana.
Os lavradores da região não faltavam, dada a sua íntima relação com o culto, desde os primórdios deste.
Era o grande acontecimento que marcava o último fim de semana de Setembro no Alentejo central.
Ia-se fosse para passear, fosse para comprar as sementes para o ano, ou uma sachola, um arado, ou uma botas, ou para cumprir uma promessa, ou deixar um ex-voto de agradecimento pela cura de uma mula.
Nesses anos sessenta generalizou-se a oferta da fotografia dos mancebos que partiam para o Ultramar, para que a Senhora os protegesse, enchendo-se com elas as paredes do interior do Santuário.
Foi assim que conheci a romaria desde a minha mais tenra idade, pela mão de meu avô, que nunca faltava um ano.
No dia da festa a procissão era à volta da igreja, e as cantigas e danças também.
Os grupos de cantadores rivalizavam então em afinar as vozes e acertar o tom no louvor à padroeira, em quadras de ingénua devoção, misturada com uma ou outra malandrice.


A Nossa Senhora de Aires
Está metida num deserto
Em chegando a mocidade
Me parece o céu aberto

Me parece o céu aberto
Com toda a sua gentinha
Fui solteiro vim casado
Foi milagre da santinha

Foi milagre da santinha
Foi milagre que ela fez
Pró ano se Deus quiser
Hei-de lá ir outra vez

A nossa santinha de Aires
É a virgem bela e pura
É a nossa padroeira
Para as horas de amargura

A Nossa Senhora de Aires
Está metida num deserto
Em chegando a mocidade
Me parece o céu aberto.



Lembrar o que se esquece, desocultar o que se esconde

O Casino do Estoril recebe, esta sexta-feira, uma gala de recolha de fundos para a criação de um Centro de Dia para doentes de Alzheimer.
A iniciativa da Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer (APFADA) surge no âmbito do Dia Mundial do Doente de Alzheimer (21 de Setembro) e visa recolher fundos para a construção do segundo Centro de Dia no país e um futuro Lar para doentes de Alzheimer.
A presidente da APFADA, Maria Rosário dos Reis, lembra que é «fundamental sensibilizar o público» para os problemas desta doença que afecta mais de 60 mil pessoas em Portugal e que, perante a ausência de apoios específicos do Estado, a angariação de fundos nestas iniciativas ganha «importância acrescida».
Graças à colaboração da Câmara Municipal de Lisboa e da Misericórdia da cidade, a APFADA inaugurou recentemente o primeiro Centro de Dia em Portugal, com capacidade para 12 utentes.

Quinta-feira, Setembro 25, 2003

Língua portuguesa



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac

Quarta-feira, Setembro 24, 2003

O ex-covarde



Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"
Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.
Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.
Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. O medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.
Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo.
Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.
Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".

Nélson Rodrigues
In "A cabra vadia (novas confissões)", Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

Terça-feira, Setembro 23, 2003

Alguém sabe do Costa?

Como os meus leitores já terão notado, neste blogue não se fala de política.
É coisa que aqui não entra.
Mas desta vez não resisto a dar conta de questão da maior transcendência, e que me anda a deixar deveras preocupado.
Trata-se do mistério da desaparição do Costa.
Os leitores lembram-se certamente quem é: aquele rapaz moreno que estava sempre à frente da bancada parlamentar do PS. E antes até tinha sido ministro. E depois até chegou a ser falado para eventual chefe do agrupamento, na hipótese cada vez mais provável de Ferro ser lançado ao ferro-velho.
Pois há que tempos que levou sumiço o promissor ornamento da nossa classe política. Foi um ar que lhe deu.
E a coisa parece intrigante, se repararmos no carácter repentino da saída de cena - e ainda mais se lembrarmos que não há muito, quando da tragédia de Paulo Pedroso, foi o Costa a assumir o protagonismo, e a pagar as despesas, surgindo na célebre conferência de imprensa, desdobrando-se em declarações e entrevistas, andando num virote da Procuradoria para a Presidência e do Parlamento para o Largo do Rato, entrando em todos os telejornais dia sim dia sim, sempre sempre ao lado de Ferro.
Inseparáveis, até nos telefonemas.
Súbito, o Costa desapareceu, sem dar novas nem mandados. Não há quem o veja. A única notícia a que deu origem ainda adensa mais o mistério: o próprio fez transpirar para os jornais que encarava com bons olhos a possibilidade de um lugar em Bruxelas.
Ora digam lá se aqui não há gato!
O que descobriu o Costa que nós não sabemos?




Eurovotações

Não sei se os leitores conhecem uma velha anedota, mais ou menos como vou contar.
No final da actuação de um artista lírico pouco dotado, este à boca de cena agradecia os aplausos de circunstância que a fria assistência por delicadeza condescendente lhe dirigia.
Eis porém que na fila da frente um desconhecido membro do venerável público se esganiçava em “bravos”, entrava num frenesim de palmas, e de pé vá de gritar “bis, bis, bis, bis...”
E não havia meio de se calar.
Perante tamanha insistência, o surpreendido cantor lá acedeu – e de novo se ouviu a mesma música, e a mesma desafinação.
Finda a repetição, repete-se a cena: os demais assistentes que restavam bateram suavemente umas palmas deferentes, e o espectador da fila da frente entrava em paranóia ainda mais desenfreada: “bis, bis, bis, bis...”
Era tal a gritaria, e surgia tão despropositada, que um outro espectador do lado não resistiu a interpelar o primeiro – que raio de atitude vinha a ser aquela?
E o protagonista, sem interromper as palmas, e por entre os gritos de “bis, bis”, lá esclareceu o caso:
- “Há-de cantar até aprender!”
Ocorreu-me agora esta historieta a propósito do resultado de um recente referendo na Suécia, em que os votantes não agiram com a afinação desejada por quem tudo manda.
E vai daí já se fala em repetir a consulta popular.
Como todos sabemos, o caso nem é novo: já aconteceu na Dinamarca e na Irlanda, quando os eleitores também fugiram do tom na música que lhes apresentavam já escrita.
E a doutrina nem é exclusiva dos bonzos de Bruxelas; também por cá faz carreira a propósito de uns referendos que por aqui houve sobre aborto e sobre regionalização.
“Hão-de votar até aprender!”
Mais coerente e singela é a posição daqueles que, embora da mesma família, pugnam pelo banimento dos referendos – pelo menos para os assuntos de importância.
Explicam eles que com coisas sérias não se brinca – e o povinho não é de confiança.

Segunda-feira, Setembro 22, 2003

O primeiro Manifesto Futurista (a propósito de Almada)

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião, serão elementos essenciais da nossa poesia.

3. Até hoje, a literatura exaltou a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, a bofetada e o sopapo.

4. Declaramos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida com a carroçaria enfeitada por grandes tubos de escape como serpentes de respiração explosiva… um carro tonitruante que parece correr entre a metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.

5. Queremos cantar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada, por sua vez, em corrida no circuito da sua órbita.

6. O poeta terá de se prodigar, com ardor, refulgência e prodigalidade, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser considerada obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas, para reduzi-las a prostrar-se perante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!… Porque deveremos olhar para detrás das costas se queremos arrombar as misteriosas portas do impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, pois já criámos a eterna velocidade.

9. Nós queremos glorificar a guerra, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias por que se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo o tipo e combater o moralismo, o feminismo e todas as vilezas oportunistas ou utilitárias.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas; as gulosas estações de caminho-de-ferro engolindo serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelas fitas do seu fumo; as pontes que saltam como atletas por sobre a diabólica cutelaria dos rios ensolarados; os aventureiros navios a vapor que farejam o horizonte; as locomotivas de vasto peito, galgando os carris como grandes cavalos de ferro curvados por longos tubos e o deslizante voo dos aviões cujos motores drapejam ao vento como o aplauso de uma multidão entusiástica.


Filippo Tomaso Marinetti

Cultura de excelência?

Ontem fui visitar o Evorasim.
Fiquei triste com a visita - o ponto a que chegou a blogosfera eborense!
Normalmente aprecio os escritos do Dr. Alberto Magalhães, seja pela qualidade da escrita seja pela exposição das ideias - ainda que delas discorde. E, acrescento aqui, por se tratar de pessoa que sempre me pareceu estimável, cordata e civilizada.
Mas hoje, Deus meu!
Ao primeiro olhar sobre o blogue senti-me satisfeito, desde logo por ir continuar activo o Evorasim, que faz falta, e depois por surgir nestas lides uma pessoa culta e inteligente (como é o Alberto Magalhães, e como é o Luís Carmelo).
Mas depois li; e ainda não posso crer no que li.
Não havia necessidade!
Que sentido faz o insulto desbragado em quem se apresenta a dizer que quer discutir ideias e projectos?
Porquê a agressão gratuita e não provocada como cartão de apresentação?
Porquê aquele radicalismo e aquela agressividade?
Depois de excluir a pontapé o Evorablog e o Chaparro, com quem quer falar o Evorasim?
E não digo mais nada; isto assim não!
Que continuem os blogues de Évora a tarefa começada, com serenidade e com firmeza, é o que desejo a todos.
Que páre, pense e se retrate, é o que gostaria de esperar do Dr. Alberto Magalhães.

Domingo, Setembro 21, 2003

Almada

Em dia de romarias (hoje foi o dia grande da romaria do Senhor Jesus da Piedade, junto a Elvas, e da Feira Franca de Avis, além das festas do Senhor Jesus dos Aflitos, bem perto de Évora, e ainda da feira de Ferreira e das festas populares na Amieira e na Oriola) encontrei um poemeto de Almada Negreiros notoriamente inspirado em experiência alentejana.
Que experiência concreta era essa desconheço, por ignorar na biografia do autor qualquer ligação ao Alentejo.
Aqui o deixo de brinde aos meus leitores cá da província (os outros também podem ler, evidentemente).
Almada Negreiros não será, talvez, um dos nossos maiores poetas do século XX; e também talvez não seja um dos maiores romancistas, ou um dos maiores dramaturgos, ou um dos maiores pintores – e também não foi um dos maiores decoradores, ou bailarinos ...
Mas tudo isso ele foi; e o conjunto multifacetado da sua pujante personalidade artística fazem dele um dos casos mais significativos da nossa cultura do século passado - incontornável, como se diz agora. Com ele e por ele irrompeu no nosso meio artístico o impacto revolucionante do Futurismo; muito mais do que Santa Rita Pintor, ou Amadeu, ou outro qualquer cuja obra e ideias ficaram circunscritas ao reduzidíssimo circulo em que se moviam, foi Almada que trouxe a modernidade para Portugal.
O “Manifesto Anti-Dantas” perfila-se visivelmente como uma sequela do “Manifesto Futurista”, a abanar os academismos domésticos; toda a frenética actividade de renovação empreendida ao longo de décadas por Almada permitem-nos afirmar que nada depois dele ficou igual ao que era.
Ele tinha a noção disso; lembro-me da irritação indignada com que esbracejava contra o “professorzinho do Wisconsin” que tinha escrito algures que com a morte de Fernando Pessoa a geração de Orpheu tinha ficado sem cabeça.
Faiscavam de fúria aqueles enormes olhos negros, vivíssimos sob a boina basca, a encimar o rosto enrugado - sempre estranhamente jovens, até ao fim – quando lhe lembravam essa, de Jorge de Sena.
Efectivamente, Almada, que prezava Pessoa, e o admirava, e tinha sido sempre seu amigo, não precisara nunca para nada da cabeça do outro – e sabia bem que a energia difusora da geração de Orpheu não estava no génio introspectivo e sorumbático de Pessoa, mas sim na capacidade de irradiação do próprio Almada.
Mas o prometido é devido; aqui fica o poema, para que saibam que o Alentejo também se dança.



Rondel do Alentejo



Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.


Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.


Olhos caros
de Morgada
enfeitava
com preparos
de luar.


Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são de fitas
desafogo
de luar.


Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.


Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.


Giram pés
giram passos
girassóis
os bonés,
os braços
estes dois
iram laços
o luar.


colete
esta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.


Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.


José de Almada Negreiros

Sábado, Setembro 20, 2003

O PROBLEMA DO LAZER

É este o mais curioso, e talvez o mais significativo dos problemas sociais de nossos tempos. O que fazer do saldo disponível de horas? Como vadiar? Psicólogos, economistas, políticos e sociólogos americanos já prevêem que o crescente desenvolvimento técnico trará, inevitavelmente, uma dilatação do ócio; e já se preocupam com tal perspectiva, pois parece admitido por todos que os mesmos homens que sabem fazer bombas e satélites, não sabem o que fazer de si mesmos nas horas de folga. Arma-se então "o problema do lazer".
E aí está um argumento a mais para os moralistas que vêem na técnica uma força de desumanização. Já foi dito que a máquina produz desempregos. Um trator é capaz de substituir dez ou vinte homens. É portanto, concluem, capaz de despedi-los. E o fenômeno realmente se verifica. Mas, por mais que se verifique a conclusão, não é menos falso o argumento que o anuncia. A concomitância não basta para determinar uma causalidade. O fato de haver desempregos onde surge a mecanização não prova que a causa do desemprego seja a máquina. A técnica, em si mesma, é essencialmente benéfica e libertadora. E é essencialmente humanizadora, ao contrário do que dizem alguns moralistas. A técnica imprime no mundo a marca da razão, que é o traço específico do homem. Uma planície com moinhos é mais humana do que uma planície atapetada de flores. Um mar com caravelas é mais espiritualizado do que um mar vazio de navegantes. E se isto é verdade para o moinho e para a caravela, verdade será também para a chaminé e para o avião. Não é a técnica que desumaniza o homem, é a filosofia errônea que o guia. Não é a máquina que produz o desemprego, é a defeituosa estrutura social que a utiliza. A máquina, por definição, é a racionalização do mundo físico, e portanto é aquilo que torna efetivo o senhorio do homem sobre as forças da natureza. Muitas vezes se observa um resultado a contradizer uma definição: o erro estará no modo de usar, e não na intrínseca natureza da coisa usada.
A polícia, por definição, é um instituto montado para promover a ordem da sociedade, mas já temos observado circunstâncias em que é a própria polícia que traz a desordem. Um exército, por definição, é um órgão destinado a garantir a segurança de uma nação; mas existem exércitos aparelhados para sua finalidade própria, que só funcionam como piramidal organização destinada a dar prestígio político a um oneroso mandarinato de generais. Tudo isso são sinais de enfermidade social, e não provas da malignidade daquelas instituições.
Agora a técnica dos países superdesenvolvidos traz um curioso problema. Liberta efetivamente o homem. Permite alta produtividade com menos horas de trabalho humano. Mas em vez de bater palmas o psicólogo coça a cabeça. Preocupa-se. O que irá toda essa gente fazer do tempo que sobra? O problema é real. O psicólogo tem razão de ficar preocupado. Mas isto — o fato de existir o motivo de preocupação — isto prova que a sociedade está padecendo de uma estranha enfermidade. Mais razoavelmente eram as ponderações sobre o desemprego, porque naquilo havia a estranheza de uma contradição. Os homens se preocupavam porque a máquina, que parecia um elemento de auxílio, mostrava-se como inimiga. Agora os homens ficam perplexos porque a máquina realmente liberta.
No fundo desse problema há um profundo e instintivo medo da liberdade. E esse medo, na superfície dos conceitos conscientes, aparece com os postulados de uma filosofia que é respirada, que é possuída e vivida pelos americanos e pelos russos. Segundo essa filosofia, o homem é essencialmente produtor. Realiza a plenitude de sua essência quando está produzindo. É homem, pleno homem, nas horas de eficiência. E daí se tira o conceito negativo de ócio e lazer.
Ora, por escandalosa que possa parecer tal afirmação é no ócio, no lazer, no descanso ou na vadiação que o homem atinge, ou pode atingir, a plenitude de sua condição. O trabalho, em outras palavras, não tem caráter de fim. É um meio. A vida humana está condicionada para o trabalho. Metafisicamente, é mais importante chegar à casa do que chegar ao local do emprego; é mais elevado, mais plenamente humano, levar o filho ao jardim zoológico, ouvir um quarteto de Bocherini, conversar com os amigos, do que ser general do exército, engenheiro ou presidente da república. Todos os títulos extrínsecos são inferiores ao título fundamental que todos possuem em casa, quando encontram o cerne de sua personalidade e recuperam o nome de batismo.
O pragmatismo que tornou maquinal o ilustre inventor de todas as máquinas, e que pretende tecnicalizar a própria vida do glorioso criador das técnicas, dá ao lazer um valor negativo, como o do sono, ou como o do repouso das máquinas. Mas o repouso humano não se define como interrupção do trabalho. Ao contrário, é o momento em que a vida ganha nova dimensão e recupera a plenitude da dignidade. E sobretudo é o momento em que a alma humana conquista a liberdade para o mais alto, para o mais humano tipo de atividade: o convívio afetivo, o exercício lúdico, a contemplação da beleza e da verdade. Completa-se o quadro, em pauta de ordem mais elevada, com a vida de contemplação e de oração.
A dignidade do trabalho não se mede com escala tirada do próprio trabalho, não se mede pela eficiência e pela produtividade. Mede-se pelos frutos que proporcionam, isto é, pela paz e pelo repouso que dão aos homens. É bom explorar as jazidas de petróleo para que em maior número os homens possam gozar os benefícios desse mineral, isto é, possam voltar para casa com conforto, ou levar a criançada ao jardim zoológico. Ver a zebra, ou passar a noite conversando com amigos, é a finalidade última que dá às refinarias e aos demais maquinismos sua verdadeira importância.
Mas os dirigentes americanos têm razão. O lazer é um problema, ou melhor, tornou-se um problema numa sociedade que respira pragmatismo. São bem fundados os receios dos dirigentes que não vêem com bons olhos o saldo de liberdades. É preciso, desde já, preparar os povos para um regime de vida mais folgada... Veja o leitor como é estranha a vida e como é esquisito o mundo. Se há apertos, haverá o problema do aperto; se há folga, o problema será o da folga. Outro dia, aparteando um conferencista que gabava os prodígios dos "cérebros eletrônicos", que resolvem mil e um problemas, lembrei uma frase impaciente do grande Einstein. "Esta máquina — disse o sábio — resolve todos os problemas, mas não é capaz de armar um só". Em outras palavras: a máquina responde, mas não é capaz de uma coisa maior: não interroga. Em compensação, nisto o homem é exímio. É capaz de armar problema sobre o que não parecia ser problemático.
E não se diga que o problema do lazer é só dos abastados. Será dos povos abastados, mas aí a todos interessará. Não é do ócio dos ricos que estão cuidando os dirigentes americanos; é do ócio de todos. Mas o que entrevi do problema não me tranqüilizou. Ou melhor, me trouxe outro problema: o problema dos psicólogos, políticos e sociólogos que estão abordando o problema do lazer. A tendência geral, ao sabor da mentalidade americana, é a de promover os recursos e meios para encher o tempo disponível. Eles querem organizar, ao lado da máquina da produção, a máquina do passa-tempo. A solução verdadeira, a única a rigor, está no desenvolvimento espiritual que deve acompanhar o desenvolvimento técnico. Se isto não for feito nós veremos um mundo em que a força espiritual dos homens, numa espécie de magia como a do "Retrato Oval" de Edgar Poe, se transferirá para as máquinas. Mas não é esse caminho o da valorização do lazer, que estão tomando. Ao que parece, a solução procurada está na linha do divertimento e do passatempo. E não há maneira mais imprópria, mais anti-humana de resolver o problema das horas livres. A rigor, o modo correto de resolver o problema é o de providenciar para que não haja técnico. Se isto não for feito no esquema pragmático, o lazer será sempre, definitivamente um problema, um medíocre e triste problema. Onde iremos hoje? E amanhã? Consultemos o cardápio oficial, tiremos para o caso peculiar de nossos nervos e de nosso orçamento, uma dieta de prazeres que nos escamoteiem as horas que sobram.
Ao leitor que porventura, ou por desventura, supõe que o divertimento e a atividade lúdica são a mesma coisa, eu direi, com ênfase, que está enganado. A experiência lúdica tem qualquer coisa de uma experiência poética, e assim possui um alto teor de realização; o divertimento, ao contrário, é evasão. É claro que na linguagem comum, o termo "divertimento" muitas vezes se emprega para significar os mais legítimos e puros atos lúdicos, ou as mais genuínas experiências poéticas, mas em geral significa aquilo mesmo que aqui definimos como evasão e massacre de tempo. E se o leitor quiser saber o que penso desse esquema de matar o tempo, releia o seu Pascal. Lá verá, num denso e definitivo resumo, toda a filosofia do divertimento; e então se convencerá que não há pior receita para um povo e para uma civilização do que esta que está em vigor nos países superdesenvolvidos: produzir e divertir-se.

Gustavo Corção

Sexta-feira, Setembro 19, 2003

O "Futuro Presente"

Recebi hoje um novo número da revista “Futuro Presente”.
Como sempre, abri o envelope com a emoção de quem recebe notícias da família - distante apenas no espaço, sempre presente nos afectos e nas memórias.
Acompanhei a revista desde o seu início, há mais de vinte anos, no escritório de Ernesto Moura Coutinho, na Rua de São Nicolau, perto da Boa Hora e da Rua Nova do Almada.
Vivi com entusiasmo, nessa fase dos primórdios, a aventura do Jaime Nogueira Pinto, obreiro dessa que foi, e continua a ser, a única revista de ideias produzida pela nossa “droite buissonière”.
Depois os imperativos do destino foram-me afastando; sem que nunca tenha deixado de acompanhar, tanto quanto me foi possível, o que se ia fazendo. E entendo deveras que estou em dívida, sobretudo com o Jaime, mas também com todos os que têm feito com que a revista continue a aparecer, e com as exigências de qualidade que a marcaram desde o princípio (para com o Jaime tenho aliás outra dívida de gratidão, essa mais pessoal – mas que de igual modo não esqueço).
Neste número, já o 53-54, destaca-se a colaboração de José Luís Andrade, continuando os seus estudos sobre a Guerra Civil de Espanha (a paixão pelo tema, e pela figura de José António Primo de Rivera, apanhou-a por contágio do José Miguel Júdice, há exactamente trinta anos), de Miguel Freitas da Costa, incomparável de cultura, estilo e elegância, quer fale de cinema, de história ou de literatura, de Rodrigo Emílio, dissertando sobre Jacques Laurent, Roger Nimier e toda a geração de hussardos que desde a sua juventude (do Rodrigo) claramente constituem gente da sua mais próxima família espiritual, de Roberto de Moraes, sobre o olvidado Mouzinho, de Bernardo Calheiros (que faz o Bernardo em Budapeste?), de Francisco Ribeiro Soares, de Marguerite A. Peeters ... além do senhor Director, Jaime Nogueira Pinto, perplexo nas suas “Grandes Dúvidas”.
Como acontece por vezes quando temos notícias da família, ficam também algumas lágrimas: pelas palavras sentidas do Roberto de Moraes, que com ele partilhava antiga amizade e o entusiasmo pelos temas militares, pela história, pela Prússia, por Jünger (creio que o Roberto foi o único português a realizar e publicar uma entrevista com Jünger, feita na sua célebre casa da Floresta Negra) fiquei a saber da morte de Armando Costa e Silva.
Um a um, um atrás de outro, vão-se sumindo os Hussardos”... Não mais noites de discussão e cerveja, até ao fechar da Trindade ....
Armando Costa e Silva, diz o Roberto, tinha acabado de traduzir a obra de Ernst Jünger “Der Kampf als Inneres Erlebnis” (A Guerra como Experiência Interior”), quando a morte o encontrou. Espero ao menos que esse trabalho não seja em vão, e que em breve nos surja o fruto, em edição que faça justiça ao autor e ao tradutor.
Para os interessados na revista fica o endereço postal: “Futuro Presente – Associação Cultural, Rua do Corpo Santo, n.º 16, 3º, 1200-130 Lisboa” (não têm um miserável endereço electrónico que nos permita contactar pelos novos meios, o Jaime é um velho reaccionário desconfiado e demora muito a aceitar estas modernices).

Quinta-feira, Setembro 18, 2003

A universidade

Um dos meus grandes desgostos de amor foi com ... a Universidade.
Sim, é verdade: em tempos idos também eu padeci de forte paixão por essa rapariga.
A desilusão principiou logo quando aluno; se no começo ia religiosamente às aulas, embevecido perante o presumido saber dos mestres, muito cedo as abandonei, passando ao que então se chamava “método de avaliação final” (isto é, apresentava-me a exame e logo se via).
Na verdade, as aulas eram com inaudita frequência mero papaguear de lições já publicadas, reprodução monocórdica do livro tal, de fls. tal a fls. tantas.
Assim como assim estudava em casa ou na biblioteca.
Mas ainda eu não tinha visto nada. Finda a licenciatura obrigatória, crítico mas ainda iludido, aconteceu-me passar para o outro lado.
Continuava a dominar o método sebenteiro, e se em Lisboa assim era em Coimbra era assim.
Foi o choque total; juro que me empenhava, queria por força que as minhas aulas dessem aos alunos alguma coisa que os servisse, procurava estudar e transmitir o melhor que era capaz.
Mas a atitude era insólita; no meio docente a cultura e a prática rejeitavam com espanto qualquer preocupação didáctica. Isso é para os meninos; estes já são grandes, estudem e aprendam sozinhos...
Acrescia o mais absoluto desprezo e indiferença pela canalha discente; era vulgar a planificação de aulas para disciplinas onde estavam inscritos seiscentos alunos para espaços onde cabiam cem ou duzentos... e a explicação era simples: havia um pressuposto certo, eles não punham lá os pés.
Nem valia a pena, com efeito: o ensino continuava a ser o mesmo triste exercício de debitar as lições já escritas, com respeito até pelas gralhas, e aconselhar a compra respectiva.
Por vezes, servia de alibi ao afastamento liminar da pedagogia e da didáctica (coisas com que um professor universitário que se preze não pode desperdiçar o seu valioso tempo) a sua contraposição à alegada “qualidade científica”. Ou seja, o elevado nível científico, resultantes do estudo e da investigação que são próprios da instituição, não eram compatíveis com tais minudências.
Mas a fraude saltava aos olhos de quem quer que frequentasse o meio por dentro. A regra era a incompetência e o desleixo.
Os dignos carreiristas universitários em geral trabalhavam apenas e só quando a isso obrigavam as exigências da carreira; para o Mestrado, para o concurso, para o curriculum, para o Doutoramento ... alcançados os objectivos logo se parava, e colhiam-se os louros (em turbo-universidades, em rendosos pareceres e consultadorias, em pomposos escritórios de advocacia de negócios...)
Pior do que isso era a habilitação por afinidade; por ser filho de fulano, mulher de beltrano, do partido de sicrano, da loja do mano ...
Desisti, incompatibilizado com tudo e com todos. Fiquei de coração destroçado com a desilusão – e nunca mais lá pus os pés.
Vieram-me agora estas amargas reflexões porque um vizinho aqui do lado, o meu desconhecido amigo Alexandre Franco de Sá, anda a queixar-se do pouco tempo e muito trabalho que tem para preparar um doutoramento.
Mas para que quer ele um doutoramento?


Quarta-feira, Setembro 17, 2003

PADRE ANTÔNIO


Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.
Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada. Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.
Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio.
Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor. Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se lhe tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que deve celebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.
Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo em nossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»
Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra... O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus. Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.
Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar... O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio.
Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus...».
E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só.

(artigo de Gustavo Corção)



Terça-feira, Setembro 16, 2003

Sobre pedofilia

Nunca se tinha falado tanto sobre pedofilia.
E, como notam mesmo os menos atentos, tem sido visível o embaraço de muita esquerda quanto ao tema. E é natural, digo eu, lembrado do que foi durante tantos anos a teorização da “libertação sexual”, desde o famigerado Wilhelm Reich ao idolatrado Sartre. São muitos anos de luta contra a “repressão sexual” e a “moral burguesa”.
Para esse peditório quero eu aqui deixar um pequeno contributo.
No princípio de 2001, em Berlim, durante o julgamento de Hans-Joachim Klein (Klein foi sentenciado a 9 anos de prisão por estar envolvido em ataques terroristas, nomeadamente a tomada de reféns na sede da OPEP em Viena, em 1975, onde morreram três pessoas) vieram a lume factos sórdidos sobre alguma élite política desta nossa União Europeia.
Os factos mais badalados trazidos então à discussão foram sobre Daniel Cohn-Bendit, deputado no Parlamento Europeu, e coqueluche da extrema esquerda desde há trinta e cinco anos. Daniel, tal como o ministro alemão Joschka Fischer, foram testemunhas no julgamento deste velho companheiro.

A relevância do caso está em que Daniel Cohn-Bendit, aliás Dany Le Rouge, é um símbolo do Maio de 68. E foi também, na década de 70, um defensor público da pedofilia.
No julgamento de Klein, acima referido, e para ajuda à defesa do arguido, militante de extrema-esquerda, estiveram em foco algumas passagens de um livro de memórias de Cohn-Bendit, "Le Grand Bazaar", publicado em França em 1975 (que curiosamente não encontro agora, passado o escândalo, entre a bibliografia do autor mencionada nos sítios que lhe são afectos, nos quais se encontram geralmente referidos apenas “Nous l’avons aimée la révolution”, “Une envie de politique” e “Xénophobies”).
Este livro, além do mais, descrevia as experiências desse "líder radical", com crianças, em Frankfurt, onde vivia depois de ter sido expulso de França.

No seu livro de memórias Dany Le Rouge descreve de uma forma perturbadora e em pormenor as suas relações com algumas das crianças que tinha sob sua responsabilidade. Para ilustração, refere experiências que teve com uma menina de 5 anos, que estava ao seu cuidado, assim como relatos chocantes sobre experiências sexuais com crianças do jardim-escola alemão, onde trabalhava.

No livro podem ler-se confissões deste teor: "Aconteceu várias vezes certas crianças me abrirem a braguilha e começarem a tocar-me. Eu reagia de diferentes maneiras, conforme as circunstâncias, mas o desejo delas punha-me diante de um problema. Eu perguntava: 'mas por que vocês não brincam juntos? Por que me escolheram a mim, e não a uma outra criança? Mas elas insistiam, e eu, apesar de tudo, acariciava-as.”
O livro foi bastante criticado quando foi publicado, nesse longínquo ano de 1975. Mas ainda assim dois anos depois, em 1977, algumas das mais celebradas figuras da intelectualidade “gauchiste” parisiense, incluindo Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Jacques Derrida, Philipe Sollers, Jack Lang e Bernard Kouchner (estes dois foram anos mais tarde ministros socialistas da educação e da saúde), assinaram uma petição colectiva onde se apelava à legalização das relações com menores (pedofilia, digo eu), a pretexto dos processos contra três homens condenados por atentado ao pudor nas pessoas de menores com 12 e 13 anos de idade – isto, claro, em nome da liberdade.
Na mesma época outro intelectual conhecido, Gabriel Matzneff, colaborava regularmente no “Le Monde” e era habitual convidado das televisões, onde defendia as suas ideias sobre … "une pédophilie active". Sem que suscitasse reacções de maior, diga-se.
A polémica sobre Cohn Bendit, deputado europeu eleito em França pelos Verdes (o homem tem dupla nacionalidade franco-alemã) atingiu o rubro, primeiro na Alemanha e depois em França, nessa época de Janeiro-Fevereiro de 2001, quando surgiram estas mesmas acusações lançadas publicamente por Bettina Röhl, que tem a autoridade e o conhecimento que resultam de ser filha da famosa terrorista Ulrike Meinhof – e resolveu disparar contra Cohn Bendit e o íntimo amigo deste Joschka Fischer, também antigo militante de extrema esquerda reconvertido em dirigente Verde (e actual Ministro dos Estrangeiros).
Interpelado em Fevereiro de 2001 a este respeito, Daniel Cohn Bendit desmentiu ter praticado qualquer acto pedófilo e explicou que os seus escritos “reflétaient l'esprit de l'époque” e que se tratava de mera "provocation contre le bourgeois”.
O deputado e Presidente dos Verdes, e candidato à Presidência da República, Noel Mamére, veio em socorro de Dany afirmando que a publicação destes extractos do livro tantos anos depois não passava de “trash journalisme”.
O institucional porta-voz do esquerdismo de bom tom, “Libération”, sentiu-se obrigado a vir a terreiro, pela pena do seu fundador e director, Serge July, para lastimar essas posições que, diz ele, “malheuresement” serviram para legitimar “des pratiques parfois criminelles" sobre crianças.
Resta acrescentar que Cohn-Bendit esteve sob investigação na Alemanha durante vários anos, mas só poderia ser processado se o Parlamento Europeu suspendesse a sua imunidade – questão que nunca se pôs.


Silva Tavares

Poucas cidades terão inspirado tantos poetas como a nossa querida Évora; dos mais conhecidos no presente, são geralmente citados poemas de Florbela, Torga, Sophia, Manuel Alegre.... mas andando para trás sempre foi assim.
Já Camões não resistiu a exaltar “a nobre cidade, certo assento/ do rebelde Sertório antigamente”, onde “as águas nítidas de argento” vêm de longe sustentar “a terra e a gente”, “pelos arcos reais, que cento e cento, nos ares se alevantam nobremente”.
Hoje lembro alguns versos de um poema menos conhecido, do poeta estremocense Silva Tavares. Não será um poeta maior, mas também teve os seus momentos de aclamação e glória, aí há uns sessenta anos atrás.


Évora

Quando nós nascemos, Évora velhinha,
- nós, Nação que há oito séculos estua! –
quantos anos tinha
cada pedra tua?

Évora das fontes a chorar baixinho;
Dos arcos, dos nichos, da luz forte e crua:
- Sempre que te vejo prende-me ao caminho
cada pedra tua!

Évora das horas lânguidas de calma;
Dos brancos silêncios na casa e na rua:
- Eu não acredito que não tenha alma
Cada pedra tua!

Évora! – Sacrário místico da Raça
Que nos enternece, que nos perpetua:
- É jóia sem preço, diamante sem jaça
Cada pedra tua!

Évora dos pátios, eirados, cisternas;
Das graças discretas que a luz acentua;
- Possui o segredo das coisas eternas
cada pedra tua!

Segunda-feira, Setembro 15, 2003

A filosofia do nem nem


Parece ser difícil um homem apresentar-se, positivamente, por aquilo que é.
Já em tempos idos, num texto inolvidável de uma revista inolvidável, o “Tempo Presente”, dedicou-se o Goulart Nogueira a desancar a “filosofia do nem nem”.
Passadas décadas, a mesma escola prospera. É vê-los por aí: nem nem, nem nem, nem nem, nem nem, nem nem, nem nem ...
Lembram limpa pára-brisas em movimento.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra, nem oito nem oitenta, nem sim nem não, nem frio nem quente, nem carne nem peixe, nem esquerda nem direita, nem comunismo nem fascismo, nem o pai morre nem a gente almoça..... Arre!



“Soutenir Bertrand, sans juger”

Estive a ver num canal de televisão francês, por breves momentos, parte de um debate sobre um acontecimento que recentemente chocou a opinião pública gaulesa: o bárbaro homicídio da jovem e bonita actriz Marie Trintignant, filha de Jean-Louis Trintignant, às mãos do seu companheiro, o cantor Bertrand Cantat, do grupo rock “Noir Désir”, num quarto de hotel em Vilnius.
Sabe-se que estas coisas tratando-se de gente conhecida têm logo outro destaque.
Mas o caso tem alguns condimentos adicionais a provocar o interesse mediático. E logo constatei que o solene debate, protagonizado por um friso de algumas senhoras com bom aspecto, não era movido pela comoção com a sorte da infeliz Marie Trintignant, espancada até à morte, com múltiplos traumatismos na cabeça desfeita, pelo bruto com quem vivia.
As razões da comoção tinham a ver com o Bertrand Cantat, agora preso, e que era um excelente rapaz, eterno militante de todas as boas causas, progressistas, já se vê, tal como acontece com o seu grupo, “Noir Désir”, ícone de todos os combates da “gauche caviar” parisiense nestes últimos anos. Numa palavra, “soutenir Bertrand, sans juger”, que era a palavra de ordem.
E a dada altura uma das senhoras, identificada como jornalista do “Le Monde”, recorda o caso acontecido com o celebrado filósofo do Maio de 68, Louis Althusser, que há poucos anos também matou a mulher, por estrangulamento. Também uma excelente pessoa, cujo importante “contributo teórico” não podia ficar manchado por tão infeliz acidente.
Achei a associação oportuna; mas a senhora continuou, explicando que tais ocorrências tinham uma forte “dimensão simbólica e artística”, que evidentemente não podia ficar esquecida.
E neste ponto desisti. Desliguei a televisão. Tanta complexidade não é para a minha cabeça.
A reconhecida superioridade intelectual da esquerda esmagou-me mais uma vez.


Domingo, Setembro 14, 2003

Casa ou não casa?

Por falar aqui há dias em Régio, lembrei-me de uma petit histoire que em tempos me contaram a mim (Couto Viana? Amândio César? Não me recordo).
José Régio, quando os afazeres lho permitiam, entre Portalegre e Vila do Conde, passava por vezes pelo Chiado, onde convivia com as tertúlias literárias da época, reunidas ali pela Brasileira, pela Sá da Costa, pela Bertrand.
E outro que de vez em quando aparecia, vindo lá dos confins do Minho, era Tomaz de Figueiredo, o olvidado autor de “A Toca do Lobo” e tantas outras páginas da mais robusta e vernácula prosa que a literatura portuguesa do século XX produziu.
Era Tomaz de Figueiredo amigo de José Régio. Todavia, com as suas permanentes preocupações de casticismo e pureza linguística, embirrava com o título da obra em que Régio consumiu largos anos da sua vida, “A Velha Casa”.
A construção gramatical bulia com a sua sensibilidade hostil a estrangeirismos.
Vai daí, e prolongando-se a publicação dos vários volumes de “A Velha Casa”, espaçados de anos, não resistia o rabujento Tomaz a um trocadilho implicativo. Sempre que encontrava o poeta do “Cântico Negro” disparava a mesma pergunta: “então oh Zé, a velha casa ou não casa?”

Feiras e romarias

Quase a chegarmos ao São Miguel, fim do ciclo agrícola, começo do novo ano, o Alentejo fervilha de feiras e festas, a encerrar o Verão.
No último fim de semana de Setembro teremos a rainha de todas as romarias da minha pátria de infância, a Feira d’Aires. Para ela convergem então todos os caminhos da planície.
Neste fim de semana em que estamos, e assim de repente, estou a lembrar-me que decorrem as tradicionais festas dos Capuchos, em Vila Viçosa, em honra do Senhor Jesus dos Aflitos e de Nossa Senhora da Piedade; a feira de Mora, com festival de folclore, mostra de gado e corrida de touros; a feira de Setembro, em Moura, com destaque para o artesanato e a apicultura; a nova feira Agro-Pecuária Transfronteiriça, entre Serpa e Mértola, com colóquios e animações várias; e as festas populares de Monsaraz, dedicadas ao Senhor Jesus dos Passos.
Entretanto, em Lisboa dizem-me que decorre o Sétimo Festival Gay e Lésbico.
Que lhes faça bom proveito. Cá não há nada disso: há por aí uns panascas e umas fufas mas são discretos e recatados e não têm pretensões intelectuais; nem fazem festivais.
Gays e lésbicas... dizem que por vezes aparecem aí alguns, aos fins de semana, mas vêm pela auto-estrada e vão-se logo embora.